O Castigo da Raposa

Angola - Contos Infantis AngolanosDepois de muitas queixas sobre a falta de tranquilidade, sobretudo à noite, no bairro do tio Kondombolo, o Soba decidiu mandar chamar à Ombala o Galo e a Raposa.

Pretendia ter uma conversa muito séria com os dois, pois os habitantes daquela zona da cidade queixavam-se de não poder dormir.

Todas as noites uma barulheira danada, entre galinhas e pintos no bairro do tio Kondombolo, o Galo.

Não faltou quem afirmasse categoricamente que era a Raposa a causadora de toda aquela zaragata, aquela confusão nocturna.

Os protestos foram tantos que o Soba decidiu mandá-los chamar para pôr a claro a questão que estava prestes a causar mesmo um confronto armado, com tiros, pauladas e tudo, por parte de algum vizinho mais nervoso.

A Raposa, que é manhosa, ficou um tanto aflita, assustada mesmo, pois sabia melhor que ninguém que era ela a verdadeira culpada. Assim, foi procurar o Galo a casa, de manhã cedo, para fazer-lhe a proposta. Sugeria que se apresentassem juntos, como amigos, de modo que o Soba nada teria de dizer, limitando-se possivelmente a umas recomendações.

Kondombolo, porém, há já muito tempo que queria ver-se livre da Raposa. Mal a viu ao longe e adivinhando-lhe as intenções escondeu a cabeça debaixo da asa.

A Raposa chegou entretanto. Cumprimentou com toda a humildade, com o falso carinho que só ela é capaz de fingir, e fez a proposta esperada:

– Querido Amigo Galo, vim cá para irmos juntos ao Soba. Apresentando-nos os dois, nada temos a recear e acabam-se as intrigas. Não achas?

O Galo debaixo da asa responde:

– Estou cheio de medo, Amiga Raposa. Sabes lá o que nos espera? Para evitar maiores castigos, pedi à minha mulher N’sanji, a Galinha, que me cortasse a cabeça. Apresentando-me com a cabeça cortada, o Soba perdoar-me-á certamente de todos os erros que tenho cometido. Como vês já estou de cabeça cortada.

A Raposa, atrapalhada, pergunta:

– E como é que conseguiste cortar a cabeça e continuar a falar?

– Isso não é problema. Pedi à minha mulher n’Sanji que fizesse o trabalho: cortar-me a cabeça de um só golpe, deixando-a ligada ao corpo pela pele. Assim fez e aqui estou. Quando voltar é só dar um ponto e fica tudo na mesma.

A Raposa, oportunista, não quis saber de mais nada. Correu para casa. Contando tudo à mulher, pediu-lhe que lhe cortasse a cabeça rapidamente porque já era tarde para a hora marcada. O Galo já estava pronto, podia chegar primeiro a casa do Soba e assim só ele é que seria perdoado. Que cortasse depressa para que ele corresse e chegasse primeiro.

A mulher da Raposa foi buscar um grande njaviti e de um só golpe decepou a cabeça ao marido, deixando-a pendurada a sangrar. Mas quando viu o marido cair morto, ficou desesperada e furiosa. Correu à casa do Kondombolo para castigá-lo pela mentira que levara o marido à morte.

Kondombolo já tinha partido quando chegou a mulher da Raposa. Esta encontrou a Galinha atrás de uma espessa rede, a chocar e mal humorada.

– Onde está o teu marido? – gritou-lhe de fora a Raposa. –

Onde está, que quero hoje mesmo dar cabo dele, de ti e de toda a vossa família se te atreveres a sair daí?

– Não te preocupes que o Galo foi ao Soba contar-lhe tudo. É o merecido castigo para o teu marido e para ti, já que vocês não têm feito outra coisa na vida senão assaltar traiçoeiramente as capoeiras para se banquetearem com os pintos, as galinhas e os galos que aí dormem indefesos sem fazer mal a ninguém. É bem feito e não tornes a aparecer para que te não suceda o mesmo. Nós vamos organizar a nossa defesa.

Durante as duras batalhas travadas pela libertação do nosso país da invasão inimiga os Pioneiros lutaram heroicamente contra forças mais poderosas e venceram, pondo em prática prodígios de invenção.

Avó Chica conta várias vezes a estória do castigo da Raposa e termina sempre dizendo:

– Os Pioneiros ganhavam sempre porque a inteligência e a astúcia é a arma dos fracos contra os fortes e os malvados.

Avó Chica, porém, não consegue nunca reter a lágrima teimosa que reflecte, brilhante como o sol, o seu neto pioneiro, Zito, igual a todos os seus netos pioneiros, vítimas dos assassinos definitivamente derrotados pela força invencível da sua inteligência, honestidade e coragem.

Costa Andrade

in Lenha Seca

Edição: UEA, Sá da Costa / 1986

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