Willie Jerome

Willie Jerome - Histórias de encantarQuando chega o verão, Willie Jerome toca jazz durante todo o dia em cima do telhado. A minha mãe diz que ele só está lá em cima a fazer barulho. Eu digo que ele está lá em cima a fazer música.

Ela diz:

— Willie Jerome, é bom que estejas longe desse telhado quando eu chegar a casa, logo, ao fim da tarde.

O meu irmão mais velho, Earl, que só sabe dizer coisas feias e más, diz que Willie Jerome não tem ponta de talento. Afirma:

— Ele tem é de pousar aquele trompete.

— O Willie Jerome está no telhado a tocar um tipo de jazz intenso, quente e vivo, e eu gosto. Gosto mesmo.

— Um jazz intenso, quente e vivo? — pergunta Earl. — Miúda tola, tu não sabes ouvir. O Willie Jerome está lá em cima a fazer barulho, enquanto tu andas por aí a chamar-lhe música.

Willie Jerome - Histórias de encantarDescarto-me de Earl e saio a correr até à loja da esquina. O Sr. Jackson vem espreitar este meu modo gingado de andar. Quer saber porque é que estou a sorrir assim.

— O Willie Jerome está no telhado — digo. — Tenho estado a apreciar as suas músicas ao longo do dia. Por isso é que tenho este sorriso na cara. Por isso tenho este ritmo nos meus passos.

O Sr. Jackson dá-me alguns doces em troca da minha moeda brilhante de 25 cêntimos. Depois, olha para Willie Jerome lá no telhado.

Abana a cabeça como se fosse uma vergonha gritante.

Willie Jerome - Histórias de encantar— Pequena Menina Judy — diz-me ele. — Odeio ter de te dar más notícias. Mas o Willie Jerome não sabe mesmo tocar trompete. Aquele rapaz só está a fazer barulho.

Saio da loja e dirijo-me a casa. Volto a dançar até aos degraus da entrada.

É então que vejo a Menina Alversa Lee à janela, regando as suas plantas verdes.

— Ouça, Menina Alversa Lee. Está a gostar da música de jazz do Willie Jerome?

— Não, querida! — grita ela. — Não estou a gostar nem um bocadinho. Por isso, faz à Menina Alversa Lee um favor, vai dizer ao Willie Jerome que acabe com toda aquela algazarra.

Começo a ficar um bocado deprimida porque parece que ninguém aprecia a música que Willie Jerome toca no telhado, exceto eu própria e ele.

— Willie Jerome! — berro. — Willie Jerome, quem me dera conhecer outra pessoa como eu que amasse e compreendesse o teu jazz quente.

Willie Jerome é um rapaz de poucas palavras. Portanto, não responde. Em vez disso, continua embrenhado no seu trompete, movendo-se ao som da música.

Por volta das seis horas, a minha mãe regressa do trabalho, e faz a sua cara mais feia, porque Willie Jerome ainda está no telhado a tocar aquela música, e ela está exausta. Ela não quer voltar a ouvir semelhante barulho.

Willie Jerome - Histórias de encantar— Vou subir ao telhado — diz. — Vou pôr um fim a isto.

Apresso-me a dar-lhe a mão e peço-lhe que espere um minuto.

— Não perturbes o Willie Jerome — imploro. — Fecha só os olhos. Descansa a mente, e deixa que a música fale ao teu espírito.

A minha mãe suaviza a expressão e senta-se ao meu lado nos degraus da frente. Fechamos os olhos. Deixamos a mente relaxar e a música falar.

À medida que o sol da tarde começa a pôr-se, Willie toca a sua última doce melodia. A minha mãe move o pescoço ao som da sua música agradável.

Pega nas minhas mãos e coloca-as nas dela.

— Devo-te desculpas, — diz — porque o Willie Jerome sabe tocar. Se tivéssemos arranjado algum tempo para ouvir, todos nós já o saberíamos. O teu irmão sabe…

— Tocar aquele tipo de jazz intenso, quente e vivo — digo à minha mãe. — O Willie Jerome sabe tocar!Willie Jerome - Histórias de encantar

Alice Faye Duncan

Willie Jerome

New York, Macmillian Books, 1995

(Tradução e adaptação)

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