O velhinho que fazia florir as árvores

Há muito tempo atrás, numa pequena aldeia, vivia um homem muito velho com a sua esposa. Como nunca tinham conseguido ter filhos, adotaram um cãozinho que muito amavam. O cão, grato e fiel, nunca se afastava deles. Seguia-os por todo o lado.O velhinho que fazia florir as árvores - Histórias de encantar

Um dia, quando estava a trabalhar no seu jardim, o idoso reparou que o cão esgravatava e cheirava a relva debaixo de um velho pinheiro. Deteve-se de imediato para ver melhor. O cão foi ao seu encontro, latindo com todas as suas forças e, depois, voltou para o mesmo lugar onde recomeçou a arranhar a terra. Estava tão agitado que o velho pegou na sua picareta e aproximou-se, tendo o bicho começado a ladrar ainda mais alto.

Ao bater com a picareta na terra, o idoso ouviu um som límpido e logo descobriu um cofre dourado. Abriu-o e viu uma grande quantidade de moedas de ouro brilhantes. Chamou a mulher que o ajudou a retirar o cofre e a levá-lo para dentro de casa. De um momento pa ra o outro, tinham ficado ricos! Para recompensar o cão, passaram a dar-lhe para comer o que de melhor havia.

Na pequena aldeia, a notícia da descoberta do tesouro espalhou-se como um rastilho de pólvora. Havia mesmo um vizinho que não parava de pensar na felicidade dos velhos e na sua fortuna. Com a inveja, até perdeu o sono. Convenceu-se de que o cão deles tinha um dom especial para descobrir tesouros escondidos. E, assim, foi pedir-lhes o animal emprestado.

— Nós gostamos tanto do nosso cão que não conseguimos separar-nos dele nem por uma hora — disse-lhe o velho.

Mas o invejoso não desistia. E todos os dias voltava com o mesmo pedido.

Como os idosos eram boas pessoas e não sabiam recusar nada, acabaram por emprestar o cão ao vizinho. Este logo o levou para o seu jardim. De repente, o cão parou, cheirou o chão e pôs-se a arranhar a terra. O vizinho apareceu, seguido pela mulher. Cavaram a terra e encontraram um monte de lixo malcheiroso e uns ossos antigos. O homem enraiveceu-se, levantou a picareta e matou o cão.

E logo correu a choramingar para casa dos vizinhos. Fingindo tristeza na voz, disse:

— Que pena! Quando chegou ao meu jardim, o vosso cão morreu de repente. Ninguém sabe como é que isto aconteceu. Não tenho culpa. Trouxe-vos a notícia para o poderem enterrar.

Foi com enorme tristeza que os dois velhos levaram o cão para o lugar onde ele tinha encontrado o tesouro e enterraram-no debaixo do velho pinheiro. Choraram muito, porque agora não tinham a quem amar. No entanto, numa noite, enquanto o velho dormia, o cão apareceu-lhe em sonhos e disse-lhe:

— Corta a árvore debaixo da qual me enterraste e faz um almofariz para o arroz. A tua dor ver-se-á apaziguada.

Mal acordou, o idoso contou o sonho à esposa. E esta aconselhou-o a seguir as instruções do cão. A árvore foi cortada e do tronco foi feito um almofariz grande e bonito. Como tinha chegado a época da colheita do arroz, os grãos de arroz foram empilhados no novo recipiente. Mas quando o idoso começou a descascá-los, deles saíam moedas de ouro. Que alegria sentiram os dois!

Na aldeia, a história do almofariz espalhou-se como um rastilho de pólvora.

E, mais uma vez, o vizinho invejoso não parava de pensar na felicidade dos velhos e na sua fortuna. Com a inveja, até perdeu o sono. E assim pediu-lhes emprestado o almofariz.

— Nós gostamos tanto do nosso almofariz que não conseguimos separar-nos dele nem por uma hora! — disse-lhe o velho.

Mas o invejoso não desistia. E todos os dias voltava com o mesmo pedido. Como os velhinhos eram boas pessoas e não sabiam recusar nada, acabaram por emprestar o almofariz ao vizinho.

De regresso a casa, este, ajudado pela mulher, carregou fardos inteiros de arroz. Despejou os grãos no almofariz e pôs-se logo a descascá-los. Mas, em vez de moedas de ouro, deles só saíram lixo malcheiroso e ossos antigos. O homem enfureceu-se, pegou num martelo e partiu o almofariz em vários pedaços que atirou para o lume.

Correu a choramingar para casa dos vizinhos e fingindo tristeza na voz, disse de novo:

— Que pena! O vosso almofariz começou a arder sem mais nem menos. Ninguém percebeu como é que isto aconteceu. Não tenho culpa. Trouxe-vos logo a notícia para que não fiquem à espera que eu o devolva.

E, uma vez mais, os velhinhos foram deitar-se bastante tristes. E de novo o velhinho viu o seu cão em sonhos. Este disse-lhe que fosse ao vizinho e trouxesse as cinzas do almofariz queimado, que as levasse para a estrada principal e que, quando o rei fosse a passar, subisse para uma cerejeira ainda nua e nela espalhasse as cinzas. Na manhã seguinte, o velho foi a casa do vizinho e recolheu as cinzas do almofariz. Guardou-as num saco e foi avançando pela estrada até onde as cerejeiras estavam nuas por não ser ainda a época em que as árvores se cobrem com as suas túnicas de flores multicolores e perfumadas.O velhinho que fazia florir as árvores - Histórias de encantar

Mal chegou, o velho viu que o rei e a sua comitiva se aproximavam. Em vez de se deitar com a face junto ao chão como todos faziam em sinal de respeito, subiu para uma cerejeira.

O rei, quando o viu, ordenou que o prendessem e castigassem. Mas sem se deixar intimidar, o idoso abriu o saco e espalhou nas árvores à sua volta as cinzas finas do almofariz.

Imediatamente, tudo floriu em tonalidades rosa e branca e o ar encheu-se de um perfume inebriante. O rei ficou tão intrigado e encantado que ali mesmo ofereceu presentes riquíssimos ao idoso.

Na aldeia, a história das cinzas espalhou-se como um rastilho de pólvora.

E, de novo, o vizinho invejoso não parava de pensar na felicidade dos velhos e na sua fortuna! Com a inveja, até perdeu o sono. Então, apanhou na chaminé o resto das cinzas do almofariz e foi, também ele, para a estrada principal.

Mal chegou, avistou o rei com a sua comitiva. Em vez de se deitar com a cara no chão em sinal de respeito, subiu para uma cerejeira. O rei, quando o viu, ordenou que o prendessem e castigassem. Mas o perverso abriu o saco e espalhou nas árvores à sua volta as cinzas do almofariz. O lixo malcheiroso e os ossos velhos voaram imediatamente até à cara do rei e dos homens da sua comitiva! Os guardas logo ali o prenderam, metendo-o depois na prisão onde ficou largos anos….

Na pequena aldeia, a história espalhou-se como um rastilho de pólvora.

Muito tempo depois, quando, por fim, o vizinho invejoso foi posto em liberdade, ninguém o quis acolher. Acabou por morrer na miséria.

Quanto aos velhinhos, nunca puderam esquecer o seu querido cão.

Anne Buguet

Le grand-père qui faisait fleurir les arbres : conte de la tradition japonaise

Paris Flammarion-Père Castor, 2002

(Tradução e adaptação)

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