O urso dá conselhos

O urso dá conselhos - Histórias de encantar

No tempo em que havia ursos a rondar os povoados, também havia homens que lhes davam caça com a ajuda de lanças e flechas, porque as espingardas ainda não tinham sido inventadas.

Dois amigos acertaram em ir à caça a um grande urso, que andava a assustar os rebanhos.

Foram para o mato e ambos prometeram um ao outro que mal vissem o urso o cercariam, um pela frente, outro por trás, porque nisto de ursos brutamontes duas lanças valem mais do que uma.

Nisto, apareceu o urso. Um dos amigos, esquecido do prometido, logo marinhou por uma árvore acima, deixando o companheiro sem ajuda.

O que ficara em terra quase desmaiou de susto. Desmaio, não desmaio…

Pelo sim pelo não, lançou-se ao comprido para o meio do chão, onde se deixou ficar, muito quietinho. Ouvira uma vez dizer que os ursos se agoniavam com a carne morta. Fazer de conta que tinha morrido talvez resultasse.

O urso mirou-o, virou-o com as patonas, cheirou-o dos pés à cabeça, com especial predilecção pelos ouvidos, e, depois, sem lhe fazer um arranhão sequer, deixou-o em paz. Abalou.

O caçador de ursos, por pouco caçado, ainda se deixou ficar quieto mais um tempo, até o amigo saltar da árvore e vir ter com ele.

– Não ganhámos para o susto – disse-lhe o amigo, limpando da testa o suor do medo.

– Eu ganhei – retorquiu o caçador, levantando-se do chão.

O outro estranhou:

– O que é que ganhaste?

– Um conselho do urso – disse.

– O quê? O urso falou-te.

– Pois falou. Não o viste segredar-me ao ouvido?

– De facto, ele esteve que tempos com o focinho encostado à tua orelha. E o que é que ele te disse?

– Disse-me que, daqui para diante, em ocasiões de perigo, não me ficasse mais nas promessas de ajuda dos companheiros de caçada.

– Ele disse isso? Garantes?

– Garanto. Até acrescentou que mais valia caçar sozinho do que na companhia de poltrões.

E, dizendo isto, o caçador pegou na lança e avançou pelo caminho do mato. O companheiro, que saltara da árvore, seguiu-lhe os passos, muito enfiado e arrependido.

António Torrado

Ilustrações: Cristina Malaquias

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