Uma história de índios

Antinanco é uma menina Índia que vive na América. A família sempre lá viveu. É por isso que se dá o nome de “nativos” aos Índios. Hoje é o primeiro dia de Antinanco no infantário.Uma história de índios - Histórias de encantar

— Tu tens um nome esquisito!

Os meninos apontam para Antinanco. Traz um vestido com umas pérolas na bainha. Tem ainda uns sapatos às cores, uns mocassins. E umas tranças compridas e muito pretas. Antinanco não tem a vida fácil no infantário. Esta manhã fizeram um jogo com a educadora Helena em que as crianças tinham de chamar umas pelas outras pelo nome e em seguida trocar rapidamente de cadeira. As crianças começaram a rir-se com o de Antinanco.

— Demora tanto a dizer — resmungou Benny.

— E soa como um bombo estragado — disse Lisa a rir.

Que maldade! Antinanco deixou de falar. Ao olhar para ela, vê-se que está quase a chorar.

— Como é que uma pessoa pode chamar-se Antinanco? — pergunta Benny. Antinanco volta-se de repente e fulmina Benny com o olhar.

— Vocês também têm todos nomes esquisitos: Ana, Benny, Lisa. Têm os nomes que os vossos pais se lembraram de vos dar, mas os nossos nomes índios estão relacionados com os nossos pensamentos. Antinanco significa águia do sol — Antinanco bate com o pé teimosamente, olhando para o círculo das crianças.

Chega então a irmã mais velha de Antinanco. É de outro grupo mas viu que a irmã está a ter problemas. Coloca-lhe o braço à volta dos ombros e pergunta:

— O que quer dizer Benny? O que significa Lisa? Vocês não sabem e estão a fazer-se de importantes!

Benny ri porque não sabe o que dizer e tem vontade de dar uma canelada a Antinanco. Mas esta diz:

— Benny, tu só sabes rir-te dos outros e dar pontapés. Não escutas e não compreendes nada. Nem o teu próprio nome!

Benny dá um passo atrás, para junto dos outros. Sente-se melhor ao pé deles. A irmã de Antinanco continua a falar.

— Vocês riem-se de nós mas foram vocês que vieram para esta terra. Muito, muito antes de cá chegarem, já os nossos avós e bisavós cá viviam. Vocês vieram de barco muito mais tarde e limitaram-se a dizer: “Isto é tudo nosso”.

— E é verdade — diz Benny.

— Não é nada verdade — diz Antinanco. — Vocês tiraram-nos quase tudo a nós, Índios.

— O país onde agora vivemos era a terra dos Índios — conta a irmã. — Os nossos avós e bisavós andavam de um lado para o outro com as famílias e as tribos, apanhavam peixes, cultivavam arroz e caçavam bisontes. Falavam com o céu, com as flores, com as árvores. Compreendiam o vento e alegravam-se quando viam o sol. Para eles, cada pequena coisa era importante.

Antinanco exclama:

— Os vossos avós e bisavós, pelo contrário, matavam os bisontes e achavam que eram maiores e mais fortes. Mas isso não era ser forte!

— Mas era! — resmunga Benny. — Isso é ser forte!

— Os novos colonos, os vossos avós, não sabiam pescar nem cultivar milho. Não sabiam construir cabanas nem conheciam as plantas. Começaram a passar mal porque não podiam comer as armas que tinham. Na nossa tribo, havia um grande chefe, Samoset. Quando reparou que os colonos brancos não sabiam nada, foi ter com eles e ajudou-os. Samoset mostrou-lhes tudo, mostrou-lhes como se vivia. Os novos colonos ficaram tão contentes que fizeram connosco, Índios, uma grande festa de agradecimento. Até fumaram em conjunto o cachimbo da paz. Mas depressa esqueceram que só tinham sobrevivido com a ajuda de Samoset. Pegaram nas suas armas e disseram-nos:

— Somos mais fortes do que vocês. Vão ter de fazer o que queremos porque temos armas.

Antinanco coloca-se em frente de Benny com as mãos na cintura. Benny olha para ela, mas as outras crianças reparam que ele está a fazer-se de forte, exatamente como antigamente tinham feito os avós e os bisavós com as suas armas.

— Estás a fazer o mesmo! Estás a fazer de conta que és forte. Mas eu também sou forte! As crianças ficaram em silêncio durante algum tempo, até que Cátia diz:

— Antinanco, tu és mesmo forte!

Depois vira-se para Benny e diz-lhe:

— A nossa força pode ser má! A partir de agora vamos todos simplesmente dizer ‘não’ à violência! Cátia olha em volta, hesitante, e pergunta:

— Podemos fumar o cachimbo da paz e ser todos amigos?

Elisabeth Zöller

Stopp, das will ich nicht

Hamburg, Ellermann, 2007

(Tradução e adaptação)

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.