Um lugar onde crescem girassóis

Um lugar onde crescem girassóis - Histórias de encantarIntrodução

Em 1942, os Estados Unidos enviaram 120 000 americanos de ascendência japonesa para campos de concentração. Os E.U. opunham-se ao Japão na 2ª Guerra Mundial e o nosso governo decidiu que os americanos de origem japonesa não eram de confiança – apenas porque os seus antepassados tinham vindo do Japão.

Deram à família da minha mãe dez dias para deixar a casa. Foram autorizados a levar com eles apenas o que conseguissem transportar. Os meus avós, que eram artistas, tiveram que deixar para trás centenas de pinturas. E foram, por fim, enviados para o Centro de Recolocação Topaz no deserto de Utah, onde permaneceram durante três anos e meio.

A vida nestes campos era cheia de dificuldades e injustiças. No entanto, os internados faziam o que podiam para manter a dignidade humana. Os meus avós viraram-se para o que eles conheciam e mais amavam: a arte. O meu avô ajudou a organizar a Escola de Arte de Topaz, onde ele e a minha avó ensinavam e pintavam. Um lugar onde crescem girassóis - Histórias de encantarA minha mãe e o irmão eram também estudantes de Arte. A Arte trouxe a toda a família da minha mãe uma razão de viver e também a paz, numa época muito difícil das suas vidas, e ofereceu a todos aqueles internados uma oportunidade de se expressarem.

Usei a experiência da minha mãe como um ponto de referência para esta história. No entanto, as personagens e a maior parte dos acontecimentos são ficção.

Espero que possam aprender algo com esta história e que trabalhem a favor de um mundo que jamais repetirá – com nenhum grupo de pessoas – o que aconteceu aos americanos  de  origem  japonesa  durante  a  2ª Guerra Mundial.


Mari olhou para o chão. Havia somente uma semana que ela e a avó tinham plantado uma mão cheia de sementes de girassol no exterior da nova casa. Mari perguntou à mãe:

— Será que estas flores vão crescer altas e fortes e lindas como as que tínhamos no nosso antigo quintal?

Um lugar onde crescem girassóis - Histórias de encantar— Levará tempo, paciência e cuidados — respondeu a mãe suavemente. — Sabaku ni hana wa sodachinikui no yo.

— As flores não crescem com facilidade no deserto

— repetiu Mari em inglês.

E olhou fixamente para a areia, como se ela mesmo fosse o quente sol de maio, e como se isso pudesse trazer vida àquelas sementes. Mas tudo o que viu foram grãos de areia seca.

Enquanto regava as sementes, Mari pensava na pequena casa da família na Califórnia. Ainda via os pais, ambos artistas, a pintar, enquanto Mari e o seu irmão mais velho, Kenji, brincavam ao lado no quintal todo florido.

Ainda só tinham passado treze meses desde que tinham sido forçados a partir? Primeiro, tinham sido obrigados a viver numas cavalariças que cheiravam a estrume, em Tanforan, na Califórnia. Agora moravam numa barraca de cartão prensado com alcatrão, em Topaz, no Utah. Tudo, exceto a família, tinha sido retirado a Mari — e ela nada tinha feito de errado!

Um lugar onde crescem girassóis - Histórias de encantar— Mari-chan, são três horas, é tempo de ir à escola de arte.

A voz doce do pai trouxe Mari de volta à realidade.

— Não nos atrasemos. Ikoo, ne!

Mari e o pai percorriam os cerca de mil e seiscentos metros ventosos e poeirentos que separavam a sua casa, no Bloco 29, da Escola de Arte, no Bloco 7. Passavam por torres de vigia onde a polícia militar apontava as armas a todo aquele que parecesse querer fugir. Mari apertou a mão do pai.

— Mari-chan, a tua mãe e eu estamos preocupados contigo! — disse ele. — Sabemos que as coisas aqui são duras, mas tu praticamente já nem falas nem sorris. Queres falar comigo?

— Nem por isso — murmurou Mari, embora na verdade tivesse imensas perguntas a fazer.

— Não te preocupes, Mari-chan. Regressaremos a casa depois de a guerra acabar.

Fizeram o resto do percurso em silêncio. As montanhas, a vastidão do céu e o sol resplandecente faziam Mari sentir-se tão pequenina quanto uma semente de girassol.

Já na Escola de Arte de Topaz, o pai levou Mari à sala de aula e depois dirigiu-se à porta ao lado para ensinar os adultos da turma de esboço. Mari tinha esperança de encontrar alguns dos seus amigos na aula, mas não reconheceu nenhum.

Um lugar onde crescem girassóis - Histórias de encantarA Srª Hanamoto distribuiu papel e lápis de cor. E disse:

— Na nossa primeira aula, divirtam-se e desenhem tudo o que quiserem.

Mari ouvia as pancadinhas e o som dos riscos dos lápis de cor nas outras secretárias. Refletiu longa e esforçadamente, mas a sua folha continuava em branco quando a aula acabou.

Alguns alunos partilharam os seus desenhos com a turma. Janie desenhou o seu cãozinho de estimação, que tinha sido deixado para trás. Eddie desenhou os seus três primos, que tinham sido enviados para um outro campo em Idaho. E Aiko desenhou vários lugares em Topaz: o refeitório, os sanitários, a lavandaria. Mari apreciou os outros desenhos, mas gostaria também de ter um para poder partilhar.

Uma vez que o pai tinha outra aula para lecionar, Mari dirigiu-se sozinha ao refeitório. A mãe e Kenji encontraram-se com ela lá fora.

Passar pela porta de acesso ao refeitório era como aumentar o volume do som de um rádio. Tiniam utensílios, as pessoas falavam, os bebés choravam. Mari encolheu-se com o barulho. A família tomou o seu lugar na longa fila para o jantar, e o pai juntou-se-lhes um pouco antes de receberem a porção de comida que lhes cabia.

Enquanto se sentavam, o pai perguntou:

— Mari-chan, como correu a tua primeira aula?

— Não consegui pensar em nada para desenhar — disse Mari.

— Isso às vezes também me acontece — respondeu ele.

— A sério? perguntou Mari. — Mesmo sendo tu um artista?

— Sim — sorriu o pai — mas eu não desisto.

Na manhã seguinte, Mari e a mãe esperaram na longa fila para os sanitários. As cabines das sanitas e dos chuveiros não tinham portas. As duas tentavam evitar olhar para as outras mulheres e crianças.

A mãe indagou:

— Mari-chan, estás preocupada com a aula de hoje?

Mari acenou que sim com a cabeça. Já se tinha perguntado o que a Srª Hanamoto lhe iria pedir para desenhar.

— Lembra-te do conselho do teu pai. Vais conseguir desenhar, assim como os teus girassóis vão conseguir crescer.

Nessa tarde, a Srª Hanamoto disse à turma:

— Desenhem alguma coisa que vos faz sentirem-se felizes aqui.

E Mari esforçou-se, uma vez mais. Então a Srª Hanamoto veio até junto da sua secretária.

— Mari-chan, reparei que não desenhaste nada na nossa última aula. Houve mais alunos que tiveram também algumas dificuldades.

— Eu não fui a única? — perguntou Mari, cheia de esperança.

— Não, acontece bastantes vezes. Só tens que continuar a tentar. E agora, o que vais desenhar?

— Não consigo lembrar-me de nada que me faça sentir feliz aqui, em Topaz.

— Então desenha algo que te fizesse feliz antes de vires para aqui — sugeriu a Srª Hanamoto.

Desta vez Mari soube imediatamente o que desenhar — o seu quintal na Califórnia!

Um lugar onde crescem girassóis - Histórias de encantarDesenhou o baloiço que o pai tinha construído, a árvore sakura que a mãe tinha plantado, e o jardim com o seu arco-íris de cores. E ainda estava ocupada quando a Srª Hanamoto anunciou que a aula estava quase a acabar. Foi quando Mari reparou que Aiko, que se sentava ao lado dela, estava a olhar para o seu esboço.

Aiko sussurrou:

— O teu quintal parece ser muito divertido.

Mari sussurrou também:

— Talvez o possas visitar quando todos voltarmos para casa. Mari precipitou-se para a caserna da sua família.

— Como foi a aula de arte, Mari-chan? — perguntou a mãe, à espera da resposta habitual.

Mas Mari respondeu imediatament:

— A Srª Hanamoto é muito simpática e eu pude usar lápis de cores e desenhei esta imagem!

— É o nosso quintal! — exclamou Kenji.

A mãe sorriu.

— É lindo. Porque é que não o penduramos?

A luz do sol raiou pela porta aberta do barracão. Mari pendurou o desenho na parede nua por cima da sua cama. Acrescentava alguma alegria à casa escura, de uma só divisão, mesmo que já fossem horas de fechar a porta.

Todas as quartas e domingos, Mari e o pai caminhavam juntos até à escola de arte. De mão dada, partilhavam, em silêncio, alguns momentos de paz.

Um dia, Mari começou a questioná-lo:

— Porque é que estamos neste campo? Porque é que quase todos aqui são americanos de origem japonesa? Será que alguma vez irei ver de novo os meus antigos amigos?

Ele e a mulher já se tinham resignado ao internamento, mas fez o que pode para responder. E lembrou à filha a filosofia japonesa, que tanto realça o ciclo da vida:

— A primavera vem a seguir ao inverno, e as flores brotam de novo. A paz vem a seguir à guerra. Tenta não ficar preocupada, Mari-chan.

Um lugar onde crescem girassóis - Histórias de encantarE assim, a cada desenho que criava, Mari descobria uma nova pergunta e a coragem para a fazer.

Um certo dia, depois das aulas, Aiko pediu a Mari:

— Vamos juntas até casa? A minha família vive no Bloco 40.

— Claro, parece divertido — respondeu Mari. — Além disso, aqueles guardas metem-me medo.

— A mim também — concordou Aiko. — Será que eles têm mesmo que usar armas?

Enquanto caminhavam e conversavam, Mari e Aiko não repararam que o céu estava a escurecer e o vento começava a soprar. De repente, uma barreira de lixo composta por ramos e raízes de artemísia embateu contra elas, ferindo-lhes a pele.

— Uma tempestade de poeira! — gritou Aiko, agarrando na mão de Mari.

Tentaram correr, mas era difícil mexer-se ou ver alguma coisa através do vento forte e sujo. Juntas, lá conseguiram — muito lentamente — continuar até ao barracão de Mari. Mal bateram com a porta, desfaleceram no chão, tossindo e arfando, e suspirando por ar fresco.

A mãe correu para elas.

— Mari-chan! Aiko-chan! Estão bem?

— Estamos bem! — disse Mari coberta de pó da cabeça aos pés.

Ela e Aiko desataram a rir, aliviadas por estarem a salvo e felizes por serem amigas. A partir de então, depois da aula de arte, iam sempre para casa juntas.

Um lugar onde crescem girassóis - Histórias de encantarEm agosto, na última semana de aulas, a Srª Hanamoto disse:

— Hoje vão criar um desenho, fazendo uso de formas geométricas diferentes.

Mari desenhou o barracão da sua família usando retângulos, quadrados e um triângulo. Depois, acrescentou círculos, linhas, e formas de lágrimas. Os seus girassóis!

Desenhou-se a ela própria e a Aiko. Os girassóis elevavam-

-se acima das suas cabeças, tão altos que elas não conseguiam alcançá-los nem sequer em bicos de pés! E, pela primeira vez, Mari voluntariou-se para partilhar o seu desenho com a turma. Enquanto falava, podia ver as caras sorridentes da Srª Hanamoto e de Aiko, tão animadas quanto os girassóis do seu desenho!

Um lugar onde crescem girassóis - Histórias de encantarDepois da aula, Mari e Aiko foram para casa juntas. Mari olhou para o seu novo desenho e disse:

— Há três meses que tenho regado as minhas sementes de girassol todos os dias. Pergunto-me se eles vão algum dia crescer aqui.

De repente, Aiko estacou, apontou o dedo e disse:

— Deixa-te de perguntas!

Mari seguiu o dedo de Aiko até à zona lateral do seu barracão, onde nove minúsculas hastes verdes espreitavam através do solo.

— Mãe! Kenji! Venham ver! — exclamou Mari.

Mal conseguia esperar para mostrar ao pai! Para Mari, ver as pequenas sementinhas era como ver velhos amigos…

Naquele momento, a sua antiga vida e o que quer que fosse a sua nova vida depois da guerra já não lhe pareciam tão distantes.


Em Topaz, a minha avó Hisako Hibi e a minha mãe Ibuki Hibi Lee plantaram realmente sementes de girassol, e a minha mãe cuidou delas fielmente. Durante o verão de 1943, os girassóis cresceram cerca de 2 metros e meio, até ao cimo da parede do barracão. Outros internados paravam ali frequentemente, a admirar. Como eles davam vida à paisagem estéril! As flores eram também usadas pelos estudantes de arte como modelo e pelos alunos de arranjos florais para as suas exposições.

A guerra — e o internamento — terminaram em 1945.

Em 1988, o governo dos E.U. pediu finalmente desculpa aos sobreviventes dos campos. Admitiu que o internamento se tinha feito devido a preconceito racial, paranoia de guerra e fraca liderança. O governo reconheceu igualmente que nenhum americano de ascendência japonesa fora alguma vez declarado culpado de ter posto em perigo os E.U. durante a 2ª Guerra Mundial.

Amy Lee-Tai

A place where sunflowers grow

San Francisco, Children’s Book Press, 2006

(Tradução e adaptação)

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