Trocas e baldrocas

Trocas e baldrocas - Contos Infantis

O Joca  perdeu  o  apara-lápis.  Perder  não  perdeu.

Trocou.

Depois de ter trocado o apara-lápis por uma borracha novinha, por estrear, é que achou que tinha perdido com a troca.

Quis desfazer o negócio junto do Rodrigo, que lhe tinha ficado com o apara-lápis jeitoso, em forma de bota de esquiador.

– Dá-me outra vez o meu apara e fica com a tua borracha

– disse ele ao Rodrigo.

– Já não o tenho – respondeu o Rodrigo. – Troquei-o por este caderninho com bandeiras na capa. Quem tem agora o teu apara-lápis é a Lurdes.

O Joca foi ter com a Lurdes, que estava a saltar à corda:

– Queres esta borracha nova pelo apara-lápis que era do Rodrigo?

– Sete…oito…nove…dez… – respondeu-lhe a Lurdes, sem deixar de saltar à corda.

– O apara-lápis já foi meu e queria que voltasse a ser…

– Onze…doze…treze…catorze…quinze – respondeu–lhe a Lurdes, sem deixar de saltar.

– Trocas ou não trocas?

– Dezasseis…dezassete…dezoito…dezanove…vinte.

E parou. Quase sem fôlego, a Lurdes respondeu ao Joca:

– Troquei o apara-lápis por esta corda. Quem o tem agora é a Fátima.

O Joca foi ter com a Fátima.

– Já não tenho. Troquei-o por um lugar, na aula, ao lado da minha amiga Filomena.

Mas quem estava sentado ao lado da Filomena era o Rodrigo, lembrou-se o Joca. Foi outra vez ter com o Rodrigo.

– Ainda tens o apara-lápis? – perguntou-lhe.

– Ia trocá-lo com o Zeca por um carrinho.

– Mas eu dava-te outra vez a borracha – apressou-se a dizer o Joca.

Então o Joca, com o coração muito apertado, foi buscar ao fundo da algibeira das calças um carro novo, que trouxera de casa pela primeira vez.

– Queres este? – perguntou o Joca ao Rodrigo.

Ele examinou-o cuidadosamente, experimentou-o no lajedo do recreio e concordou. Voltara o apara-lápis às mãos do Joca. Que alívio!

Mas virando as costas ao Rodrigo, o Joca começou a ter saudades do seu carrinho, que corria tão bem pelo corredor fora. E se voltasse atrás com o negócio? Volto não volto…

Volta ele, não voltamos nós a contar, que estas histórias de trocas e baldrocas são muito cansativas.

António Torrado

Ilustrações: Cristina Malaquias

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