Sozinho, debaixo de chuva

Sozinho, debaixo de chuva - Histórias de encantar

Um rapazinho, Julien, vive sozinho com a mãe. Os fins de mês e até mesmo os meses são difíceis, e a criança tenta portar-se muito bem. Mas vê a mãe, sempre tão amorosa, cada vez mais cansada e sem forças… Até o dia em que Julien ouve uma conversa ao telefone: a mãe confessa a alguém a sua impotência e o seu total desalento. Convencido que é a causa de tantos problemas, Julien decide ir embora…

1

Julien tinha voltado tranquilamente para casa depois da escola.

Já não ia para a casa da vizinha desde o início do ano.

Já se desenvencilhava sozinho pois, como a mãe tinha dito, agora já era grande.

Preparou o seu lanche: um pão com um pedaço de chocolate e um copo de leite.

Depois de lavar e arrumar o copo no escorredor da loiça, limpou as migalhas da mesa da cozinha que servia para tudo e instalou-se a fazer os deveres. O professor, simpaticamente, não os sobrecarregara. Terminados os trabalhos e estudada a lição, achou que já bastava de estudar. Antes de adormecer faria ainda uma revisão aos rios cujos nomes eram mais difíceis de aprender de cor.

2

Julien instalara-se diante da televisão.

Apesar das dezenas de canais que desfilavam ao ritmo do seu dedo no telecomando, nada lhe interessava.

Ao fim de bastante tempo, decidiu desligar; a mãe devia estar a chegar. Aborreceu-se um pouco, dando voltas no pequeno apartamento que os dois ocupavam.

3

Finalmente a mãe chegou.

Com oito anos, era pouco falador mas muito atento. Sabia reconhecer pela maneira como a porta batia se o dia dela tinha sido mau. Era o caso daquele dia.

De cara tensa, a mãe parecia esgotada. Mas esforçava-se por manter um sorriso.

Ele conhecia bem aquela expressão, a dos dias em que os contratos terminavam, em que tinha de ir de novo convencer a senhora do gabinete do desemprego a encontrar-lhe trabalho para um dia, uma semana ou dois meses… Raramente mais. Mas conseguia sempre encontrar alguma saída.

Tinha aprendido a manter-se discreto, a ajudá-la, a não a aborrecer com as suas traquinices.

Mas, naquela tarde, a mãe estava diferente. Reinava um grande silêncio no apartamento. Foi direita ao frigorífico e abriu um a um os armários da cozinha, à procura de uma refeição miraculosa que pudesse ter germinado no espaço de um só dia.

4

Os dias dela eram tão preenchidos que nem tinha tempo para fazer compras.

Para a ajudar, ele ia ao merceeiro depois da escola. A mãe tinha conta aberta, mas ele era sensato. Sabia bem que ela teria de pagar tudo e não queria que tivesse más surpresas. Levava só ovos, arroz, uma lata de feijão-verde fino mas não os extra finos, que eram muito caros. E ainda manteiga, leite, fiambre e, de vez em quando, um pacote de sumo de laranja, quando ela dizia: “Para ter força antes de ir trabalhar!”

Mas, naquela tarde, o coração dela não estava ali. “Um pouco de arroz estaria bem?” perguntou. “Sim, seria ótimo”, ele respondeu. Aqueceu água enquanto ele punha a mesa. Jantaram, mas sentia que ela estava longe dali, desconcentrada. Fazia-lhe perguntas sobre como decorrera o dia, mal ouvindo as respostas que ele dava.

Depois do jantar, a mãe abriu o correio enquanto ele lia. Depois, olhou para o relógio e disse-lhe que eram horas de ir para a cama. Julien lavou os dentes, e foi-se deitar levando consigo o caderno. A mãe veio dar-lhe um beijo de boas-noites. Repetiu-lhe várias vezes que não se preocupasse e que dormisse depressa.

5

A mãe fechou a porta mas ele levantou-se para a entreabrir. Gostava de ouvir os ruídos. Ela ouvia o rádio ou a televisão, aquecia água para fazer um chá e ter uma noite calma.

Naquela tarde era diferente. Ela não conseguia sossegar. Deu voltas, enervou-se e, de repente, pôs-se a telefonar. Ele não sabia quem respondia do outro lado do fio, só ouvia as suas palavras. Já não podia mais, mal podia alimentá-lo…

Certamente teria de mudar de casa, mas não queria que ele se sentisse desenraizado.

Talvez tivesse de ir algum tempo para casa do pai.

6

Mais tarde, já ele tinha voltado para a cama, a mãe foi deitar-se a chorar. Ao ouvi-la percebeu que, desta vez, ia ser ainda mais difícil. Dava voltas na cama sem conseguir dormir. De coração apertado, dizia a si mesmo que se a mãe já não podia alimentá-lo, ele tinha de ir embora.

7

Quando se levantou na manhã seguinte, a mãe já tinha saído.

Em cima da mesa tinha deixado um recado dizendo que não esperasse por ela à noite.

Chegaria tarde e pedia-lhe que aquecesse o resto do arroz com um pouco de manteiga.

Então, pensou deixar-lhe uma mensagem para que ela não se preocupasse. Mas como ela dizia sempre que ele era expedito, certamente que não iria ficar preocupada.

Deixou-lhe um bilhete a dizer que levava a escova e a pasta dos dentes, um pente, meias, uma T-shirt e uma muda de cuecas. Acrescentou uma faca pequena que tinha recebido como prenda de anos e o porta-moedas com as suas economias. E, por fim, que deixava a chave debaixo do capacho. Não sabia muito bem como terminar o bilhete, era estranho…. Por fim resolvera assinar: o teu filho.

8

O dia tinha corrido bem e estava contente por ter feito a revisão dos rios. Com isso conseguiu ter êxito no teste. Como tinha de encontrar trabalho, não poderia ir mais à escola. A ideia de ter uma boa nota no final dava-lhe segurança.

E também, pensava que gostaria de ir até ao mar e assim seria mais fácil chegar lá com conhecimentos de geografia. Durante a refeição na cantina, guardara o pão, a maçã e o queijo.

Conseguiu esconder o seu saque no fundo da pasta juntamente com as outras coisas. A tarde decorreu bem, embora com uma certa dificuldade em se concentrar. Tinha surgido uma preocupação: a recarga de tinta estava vazia e era preciso mudá-la. Não sabia lá muito bem fazer isso e uma em cada duas vezes a caneta escorria. Normalmente o colega de carteira ajudava-o. Mas agora tinha de se arranjar sozinho.

9

Quando a campainha tocou sentiu uma bola na garganta. Aos colegas disse “Até amanhã”. Uma vontade repentina de os abraçar apoderara-se dele mas não pôde, todos iam achar aquilo estranho. Não sabiam que não o veriam no dia seguinte.

Tomara a direção habitual para não chamar a atenção. Mas, ao chegar ao fim da avenida, dirigira-se para a estação… Era essa a sua intenção. Nunca lá tinha ido sozinho nem a pé e já não estava muito certo da direção a tomar. Caminhou muito, muito tempo.

10

Enquanto se afastava, a noite caía, acompanhada de frio.

Aquilo fazia-lhe recordar o dia em que se perdeu na floresta com a mãe.

Tinha mesmo a sensação de estar a mergulhar numa floresta densa sem ver sequer dez passos à sua frente. Não largava o pedaço de pão que trazia no bolso. A fome apertava-lhe o estômago e decidira que estava na hora de o comer.

Precisava de encontrar um abrigo porque tinham-lhe caído uns pingos de chuva no nariz. Aquele bairro não se parecia nada com o seu. Na penumbra, não distinguia bem o local, e já não tinha a certeza de estar perto da gare. Levantava-se um vento forte que soprava por entre os carros, tão forte que Julien tinha a impressão de ouvir uivos de lobo.

11

Encontrou um banco num abrigo de paragem de autocarro, devorou o pão e o queijo, e pôs-se a pensar na mãe. Foi assaltado por uma grande vaga de tristeza.

Pensou então que talvez aquela não fosse a solução… Que talvez fosse demasiado pequeno para sair de casa… Que talvez sofresse muito sem ele e que aquela tristeza iria impedi-la de ter o sorriso que pode ajudar um pouco a encontrar trabalho.

Que talvez sem ele não conseguisse seguir em frente. Que talvez não pudesse fazer as compras, não tivesse tempo de limpar as migalhas depois do pequeno-almoço, nem de pôr a mesa, nem de estender a roupa…

12

Passou um homem acompanhado de um cão enorme e aterrador. Pararam, e olharam para ele. O cão medonho devorava-o com os olhos como um ogre. Magro como era, o animal comia-o de uma só vez. Aterrorizado, agarrou no saco e desatou a correr.

Na sua cabeça só havia uma ideia: voltar para casa. O homem gritara qualquer coisa que não entendeu. Ao fim de uma dezena de metros, estacou. Estava perdido.

13

De repente, sentiu-se minúsculo naquela grande cidade. Grossas lágrimas escorriam-lhe pela cara. Tinha-se sentado no passeio e deixou-se invadir pelo seu imenso desgosto.

E quanto mais as lágrimas corriam, mais dizia para si que queria voltar para casa.

Na manga com que assoava o nariz, viu uma pequena mancha.

Uma manchinha que parecia ainda fresca.

Ao tocá-la, notara que a tinta ainda estava húmida e pintava-lhe o polegar. Levantou então o saco no fundo do qual se derramava um imenso mar azul…

Furioso, pensou que nem sequer era capaz de meter corretamente o cartucho de tinta na caneta.

E, enquanto as lágrimas voltavam a deslizar, viu no chão muitas outras pequenas manchas.

14

Então pôs-se a rir.

Mas o céu estava a ficar ameaçador e sabia que tinha de se despachar. Guiado pelas gotas de tinta caídas ao longo do passeio, iria encontrar o seu caminho.

Feliz, apressara o passo, seguindo os pingos que tinham caído do cartucho, impaciente por encontrara o calor do seu apartamento.

Se não queria que a chuva que começava a cair apagasse as marcas, tinha de andar rápido.

15

Passado bastante tempo, pareceu-lhe reconhecer os lugares.

Ao longe, graças a uma luz familiar, viu a fachada da mercearia.

A forte chuvada que caiu penetrou-o até aos ossos.

Passou a correr diante das caixas de fruta e de legumes, e cumprimentou o merceeiro que, atrás da montra, lhe fazia sinal para que fosse rápido para casa.

16

Nunca tinha subido os degraus tão depressa como desta vez.

Encharcado até aos ossos, vestiu o pijama sem se esquecer de pôr as suas coisas a secar. Preparou o jantar, aquecendo o resto do arroz com um bocadinho de manteiga, e saboreou cada grão quente a pensar que era um autêntico festim.

Depois de reler, amarrotar e deitar fora a mensagem da manhã, lavou tudo, arrumou no escorredor e limpou a mesa da cozinha.

De seguida, instalou-se a fazer os deveres.

17

Finalmente, a mãe estava de volta.

Pela maneira como a porta batera, Júlio soube que desta vez o seu dia tinha corrido bem.

Juntos, acabavam sempre por encontrar uma saída.

Charlotte Moundlic

Seul sous la pluie

Paris, Éditions Thierry Magnier, 2012

(Tradução e adaptação)

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