Sapatos de passeio

Enquanto dormimos, os sapatos dão grandes passeios. Sobretudo os de andar por casa – chinelos, pantufas, sapatilhas e por aí fora.Sapatos de passeio - Histórias de encantar

Os sapatos dos velhinhos que, durante o dia, já só andam a arrastar, mal apanham os donos a dormir, saltam, dançam, saltaricam que é uma maravilha. Nem se acredita.

As botas dos que trabalham no campo escapam-se para a cidade. Os sapatos dos citadinos vão dar uma voltinha até ao campo mais próximo. E também há sandálias que gostam de passear-se sozinhas à beira mar, nas noites de Lua Cheia.

Mas isto está tudo muito bem combinado. Assim que sentem que são horas de voltar, os sapatos, botas, botins, botifarras, chinelos e sapatões correm para junto das camas dos seus respectivos donos e aí ficam, muito quietinhos, à espera de serem calçados.

Agora eu vou contar a história de uns sapatos que se perderam. Eram uns sapatos de menino, ainda pouco habituado a andar.

Estava o menino mergulhado em pleno sono, quando os sapatos, pé ante pé, se decidiram a ir correr mundo. Para eles o mundo seria tudo o que ultrapassasse a sua pouca experiência de sapatos de quarto, de sala, de corredor e, quando muito, de jardim.

Assim que se viram sozinhos na rua desataram a correr. Com o que não contavam era com um cão vadio que, ao vê-los tão soltos, tão ligeiros, abocanhou um deles e fugiu. O outro correu atrás do bicho pulguento, a exigir o seu par.

O cão assustou-se e largou-o, sem se virar para trás. Ficaram outra vez os dois sapatos lado a lado. Mas onde é que estavam? Eles, que tinham pouca prática da vida, desorientaram-se. Era a primeira vez que vinham à rua e sentiram-se perdidos.

Andaram para um lado e para o outro, à procura da casa com jardim. A zona da cidade, aonde tinham vindo parar, só tinha prédios muito altos, com andares de escritórios. Ora, como se sabe, nos escritórios, à noite, não dorme ninguém. Pode dormitar, de dia, um ou outro empregado, mas à secretária, sentado e calçado.

Os sapatinhos ainda pediram ajuda numa montra de sapataria. Sem resultado. Eram sapatos novos, recem–saídos da caixa, e não conheciam aquelas paragens.

O par de sapatos do menino fartaram-se de andar, a noite toda. Já começava a nascer o sol, quando uma senhora que ia para o trabalho os viu. Pegou neles, mirou-os e remirou-os, apreciando a qualidade e pouco uso, e meteu-os no saco.

António Torrado

Ilustrações: Cristina Malaquias

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