Salsa, a gatinha órfã

Salsa, a gatinha órfã - Histórias de encantarÉ meia-noite. A noite está escura como breu e a tempestade ruge. O Sr. Martinho anda às voltas na cama sem conseguir dormir. O vento que sopra em redor da casa acordou-o.
— Vou lá fora ver os gatos — sussurra à esposa, pegando nas pantufas. — Ficam sempre nervosos com as tempestades.
— Ora, estão abrigados no celeiro — diz-lhe ela a bocejar. — Mas, já que vais lá fora ao jardim, podes trazer-me do quintal um raminho de salsa? Preciso dela para amanhã.
— Vamos lá ver se dou com ela no escuro! — diz o Sr. Martinho a gracejar, já com os pés enfiados nos chinelos.
Momentos depois, anda às apalpadelas no quintal que está envolto numa densa escuridão. O Sr. Martinho luta contra o vento que lhe entra pelo pijama e lhe desgrenha o cabelo. Felizmente que os pés sabem o caminho de cor ou nunca o teria achado, de tão escura que a noite está.
O Sr. Martinho acende a luz. Aos pares ou em grupos de três, de patas misturadas, os gatos estão lá todos. Uns esticados ao comprido como um tapete às cores, dois a dormir no carrinho de mão e três enroscados no velho sofá comido pela traça.
Acordados pela luz, levantam todos a cabeça, mexem as orelhas e piscam os olhos.
Já são horas do pequeno-almoço? parecem perguntar.
Estão calmos, não aparentam ter medo nenhum.
— Boa noite, meus pequeninos. Durmam bem — murmura o Sr. Martinho antes de apagar a luz e fechar a porta.
Os gatos estão bem. Pode voltar para casa. Sossegado.
Ah! E o ramo de salsa que prometeu trazer?
Conhece o quintal como a palma das mãos e, mesmo no escuro, dá depressa com a salsa. Ao debruçar-se para colher um raminho, calca qualquer coisa macia. Parece pelo e não salsa! Assustado, levanta o pé… e perde um chinelo. Ao procurá-lo, às apalpadelas, a mão agarra na bola de pelo que solta uma miadela aguda. O Sr. Martinho ri: Deve ser a Leontina, pensa ele de imediato. Aquela gulosa quer ser sempre a primeira a tomar o pequeno-almoço!
— Anda lá, vai deitar-te! — diz-lhe a rir. — Ainda é muito cedo para o pequeno-almoço, não achas?
Dá-lhe uma palmadinha para a fazer ir embora. A bolinha de pelo senta-se a tremer.
— Que tens? — pergunta o Sr. Martinho admirado.
Pega nela e solta um grito de espanto:
— Pobre Leontina! O que é que te sucedeu? Estás tão magrinha!
E nunca mais se lembrou de procurar o chinelo. A pé coxinho, o Sr. Martinho volta para casa o mais rápido possível e, sempre a saltitar, vai direito à cama:
— Olha o que te trouxe do quintal!
— Põe-na na água, se fazes o favor — diz a mulher com um bocejo e, quase a adormecer, tapa a cabeça com os lençóis.
— Nem pensar! — protesta o Sr. Martinho com uma voz comovedora. — Esta salsa não quer água, tenho a certeza!
A D. Marta acorda de vez e mal acredita no que vê:
— Não pode ser! Já temos onze! — queixa-se ela.
— E agora passam a ser doze! — replica o Sr. Martinho com um riso feliz. — Há espaço que chegue!
Uma minúscula gatinha preta treme na palma da mão do Sr. Martinho.
— Nem pensar! — protesta a esposa. — Depois de amanhã são treze e depois catorze… Tem juízo!
O Sr. Martinho abana a cabeça, suspirando.
— Amanhã de manhã a gata vai embora — repete a D. Marta agarrando nela. — Ora dá cá essa pequenita.
A gatinha treme e mia que mete dó.
— Precisa de um caixote e de alguma coisa para comer. Parece um espeto! — diz ela enquanto a afaga. — Esta noite dorme aqui, mas amanhã…
O Sr. Martinho traz um caixote e um pires com leite.
A gatinha órfã bebeu-o em três lambidelas e foi ao caixote fazer as necessidades.
E volta a tremer.
— Agora vem para a cama! — ordena a D. Marta. — Daqui a pouco estão os dois com frio, e eu também.
A gata fez várias tentativas desajeitadas até conseguir trepar para cima da cama. Depois aninha-se delicadamente nos cabelos da D. Marta a ronronar-lhe ao ouvido.
O casal pouco dormiu naquela noite, sobretudo o Sr. Martinho que não quis pôr na rua a gatinha. E se perguntar aos outros gatos?, pensa. Olhem, está aqui um bebé sem casa. Sejam simpáticos!
De certeza que os gatos hão de ficar contentes por terem um amigo mais para brincar.
E, nesse caso, a esposa vai ceder!
— Diz lá, concordas que sejam os gatos a decidir? — cochicha-lhe ao ouvido.
Mas ela dorme profundamente com a gata aconchegada ao seu cabelo.
No dia seguinte, pela manhã, os onze gatos reclamam, como todos os dias, diante da porta, de cauda erguida.
— Ora vejam, esta gatinha não tem casa, arranjem lugar para ela — diz o Sr. Martinho, com a gata ao colo que se escapa e vai a correr para junto de Leontina.
És tu a minha mamã?
Leontina dá um salto para trás, deita as garras de fora e cospe, cheia de raiva. As outras gatas seguem o exemplo.
Um bebé! Não queremos mais gatos aqui! Nós somos uma família e tu és uma intrusa! Desaparece e depressa, se não vais ver o que te acontece!
A gatinha fecha os olhos e encolhe-se a tremer. Agora é a vez dos machos, que se aproximam e a cheiram:
Quem é esta? É pequena como um rato mas cheira a gato! Ora chega aqui, vamos brincar ao gato e ao rato!
Os gatos empurram a gatinha, dão-lhe patadas. Um agarra-a pelo pescoço e atira-a ao ar:
Olha como mia e esperneia! Não é engraçado?, diz ele, rindo-se às gargalhadas.
A gatinha aterra com força no chão e fica quieta a tremer.
Que gata mais palerma!
Os gatos afastam-se em fila indiana num passo majestoso, de cauda orgulhosamente erguida. Um boceja, outro dá ainda uma patada na cabeça da gatinha como quem diz:
Não te apetece brincar, mas olha que quem manda aqui sou eu!
O Sr. Martinho e a esposa olham um para o outro, consternados e voltam para casa.
Ele suspira desolado. Ela abana a cabeça:
— Eu já sabia que isto ia ser assim. Já sabia…
Nada a fazer. A gatinha tem de ir embora. Mas para onde?
O Sr. Martinho vai continuar o quadro de um gato que começou a pintar.
Damo-la a alguém com bom coração, pensa ele enquanto mergulha o pincel na tinta.
O gato começado na tela é vermelho mas a tinta é verde…
— Conheces alguém? — pergunta a esposa, olhando pela janela. A gatinha escondera-se a tremer debaixo de um arbusto.
— Aqui já toda a gente tem gatos, ninguém vai querer mais um… — continua ela.
O Sr. Martinho pensa e pinta, sem se aperceber, uma cauda verde ao gato vermelho.
— Se é assim, levo-a já para a aldeia! — diz, pousando, resoluto, o pincel. — Há lá muitos gatos abandonados, mas há sempre almas generosas que os alimentam.
— Mas não todos os dias! — diz a mulher, continuando a olhar pela janela. — Uma gata tão pequenina como esta tem de comer todos os dias.
— Vou levá-la para a floresta! — decide o Sr. Martinho já pronto a enfiar o casaco. — Lá, ao menos, pode caçar arganazes e musaranhos para comer.
— Queres tu dizer-me que a raposa não apanha primeiro uma gatinha do tamanho de um rato? — pergunta a mulher. — Olha! Ela desapareceu!
— É esperta. Escondeu-se dos outros gatos — diz o Sr. Martinho voltando a pegar no pincel.
— Ou de nós — diz a mulher fechando a janela. — Volta quando tiver fome. Mas temos de decidir….
A gatinha não dá sinal de vida durante todo o dia.
À noite, como habitualmente, o Sr. Martinho enche os pratos e chama os gatos.
Acorrem todos a quatro patas: Leontina, a mais gulosa, vem à frente, seguida de Virgílio, de Susana, de Canela, a descarada, de Fanela, do velho Tízio, de Tito e Tico, os gémeos e, por fim, Bruno, o mais tinhoso. Dominó, como sempre, fica um pouco afastado e Lavanda está empoleirada numa árvore.
Da gatinha preta, nem rasto.
— Voltou para a mãe! — diz o Sr. Martinho para a esposa. Os dois ficam a ver os gatos comer.
— Não digas tolices! A mãe certamente está morta, se não, não a tinha abandonado — responde-lhe a mulher, pegando em Bruno, que briga sempre com Leontina.
O Sr. Martinho e a esposa passam mais uma noite agitada, mas desta vez não foi a tempestade que teve culpa.
O dia seguinte de manhã é idêntico ao anterior: onze gatos reclamam o seu leite, mas a gatinha continua sem aparecer.
— Tanto melhor! — suspira a D. Marta dirigindo-se ao quintal para apanhar a roupa que está na corda.
É uma tarefa que faz com agrado. Gosta de sentir o cheiro da roupa a secar ao vento. Mas hoje algo a incomoda. Olha para a direita, para a esquerda, para as árvores e para a erva e as molas estão constantemente a cair-lhe das mãos. Dá uma olhadela ao cesto da roupa. Os gatos gostam de se meter lá dentro a brincar com a roupa.
O cesto está vazio.
A D. Marta encolhe os ombros, solta um suspiro e estende a mão para pegar numa toalha. A roupa tem de ser apanhada… Oh! Nasceu uma cauda preta à toalha, que abana de um lado para o outro.
— Salsa, sua malandra, com que então estás aqui! — diz a D. Marta a rir.
Dominó não compreende porque é que hoje lhe dão uma palmada.
É tão divertido baloiçar-se nas toalhas! Sempre o deixaram!
Na cozinha, o Sr. Martinho começa a preparar a refeição. Gosta daquele momento e é muito bom cozinheiro. Os gatos também acham, por isso não param de andar em volta das pernas, para o caso de cair algum pedaço!
Hoje a cozinha está vazia e o Sr. Martinho abre e fecha os armários todos.
Será que precisa de tantos tachos para cozinhar?
Talvez não, mas o que é aquilo a espreitar da terrina da sopa azul? Umas orelhas pretas!
— Salsinha! Não tenhas medo! — e deita as mãos à terrina.
Mimi não percebe porque leva uma palmada! É tão divertido esconder-se na terrina! E sempre a deixaram.
Os outros gatos fazem o que costumam fazer a estas horas: brincam e correm, dormem, ou caçam borboletas e depois lutam entre si pela pobre borboleta que já está morta há muito.
A amorosa da Susana lambe Bruno e morde-lhe a orelha. Ele não gosta e mordisca a barriga de Susana, que solta um mio agudo. Os gatos continuam com o seu dia-a-dia. A gatinha mal-vinda, desconhecida, continua desaparecida. Que sorte!
— Foi-se embora! Tivemos sorte — diz a D. Marta ao colocar o almoço na mesa. — Tudo está bem quando acaba bem.
— Felizmente — suspira o marido a remexer os ovos no prato. — Falta a salsa. Não gosto deles sem salsa. Vou depressa buscá-la.
E levanta-se.
— Ai sim? Onde? — pergunta a mulher, começando de repente a choramingar por cima dos ovos mexidos.
A gatinha bebé… a raposa na floresta… um carro na estrada… pessoas más que fazem mal a gatinhos pequenos…
— Se voltar, pode ficar — consola-a o marido, abraçando-a. — Até já tem um nome!
Porque quando se tem um nome é-se sempre bem-vindo!
— Temos de ir procurá-la — soluça a mulher. — Agora mesmo. Já perdi o apetite.
Meu dito, meu feito.
Os dois saem à procura da gatinha e deixam os ovos intactos em cima da mesa.
A D. Marta procura pelos quatro cantos do jardim e passa todos os arbustos e tufos de erva em revista. Abana tanto o lilás que as flores até caem.
O Sr. Martinho procura na rua e sempre que vê uma forma escura na valeta, teme o pior. Mas não, é só um pano velho ou um bocado de um pneu. Salsa não está no jardim nem na rua. Talvez na floresta? O Sr. Martinho e a D. Marta sobem às árvores, procuram nas tocas, chamam pela gatinha.
A D. Marta já está rouca e tem as pernas todas arranhadas. O marido tem as unhas pretas. A lua começa a subir, em breve vai ficar noite. Procuraram o dia todo, mas em vão.
— Anda, vamos — diz o Sr. Martinho. — Os gatos têm de jantar, não têm culpa….
A D. Marta acena com a cabeça. Choraminga a caminho de casa, só consegue pensar na gatinha, sozinha e perdida, com fome e sede. E medo. A gatinha rejeitada por todos: por ela, pelos gatos, até um pouco pelo marido. O Sr. Martinho engole em seco e pigarreia. E os gatos? Estão no barracão, claro, deitados uns em cima dos outros. À tardinha, antes de partirem à caça de ratos durante quase toda a noite, há sempre jantar. Mas hoje, embora não lhes tivesse sido servido nada, as barrigas estão cheias e a caça é adiada para mais tarde.
Tito ronrona à orelha de Tico, Leontina está meio abafada por Virgílio, a dormir em cima dela.
Os outros dormem pelo chão, agitando as patas a sonhar. Dominó ressona. Tízio, o gatarrão, está hoje sozinho no sofá velho comido pelas traças.
Sozinho?
Aninhada na sua barriga gorda está uma coisa pequena, preta como carvão, a lamber-se.
És um papá para mim!, mia, reconhecida.
Tízio ronrona e lambe três restos de ovos mexidos da cabeça preta de Salsa.

Gudrun Mebs
Ciboulette, le chaton mal aimé
Arles, Actes Sud Junior, 1998
(Tradução e adaptação)

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