Quitério atrevido

Quitério Atrevido - Histórias de encantar

O rapaz era esperto e atrevido. Quando, lá na aldeia, souberam que o rei vinha caçar àquela região, o rapaz decidiu:

– Eu hei-de falar ao rei ou não me chame Quitério.

E pôs-se a esperar pelo cortejo real, à beira da estrada. Mas o rei, que não era de pompas, apareceu a cavalo, sem escolta, vestido como qualquer um. Vendo o rapaz, que não o reconheceu, perguntou-lhe:

– Vou bem encaminhado para o solar do Conde de Ameal?

– Eu ensinava-lhe o caminho, senhor, se não tivesse à espera do séquito do rei.

– Não esperes mais, rapaz, porque o séquito já lá deve estar. Sobe tu para cima do meu cavalo e orienta-me, até chegarmos ao solar do conde. Pelo caminho foram conversando. O Quitério quis saber como é que o rei viria vestido.

– Como os outros homens. Nada o distingue – respondeu o rei.

– Então como é que eu sei que é o rei?

– Porque todos, quando o virem, lhe tiram o chapéu. Assim que os dois, montados no mesmo cavalo, chegaram aos paços do conde, logo criados e fidalgos se desbarretaram à sua passagem. O Quitério estava pasmado.

– Então já sabes, agora, quem é o rei? – perguntou o rei ao rapaz.

– Hei-de ser eu – respondeu o atrevido Quitério. – Vossemecê não tem cara de ser rei e eu conservo o chapéu na cabeça, porque o sol está bravo.

O rei achou graça e a história acaba bem.

António Torrado

Ilustrações: Cristina Malaquias

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