Queda para o negócio

Um rato, que andava a viajar, chegou, a certa altura, à margem de um rio profundo. Nem ponte nem barco.

Uma rã, que andava por ali, ofereceu-se para levá-lo até ao outro lado. Como paga pelo serviço pedia vinte mosquitos.Queda para o negócio - Histórias de encantar

– Mosquitos não tenho, que não é moeda do meu uso – disse-lhe o rato. – Mas se aceita o câmbio, disponho de notas de mais valor, na minha bagagem. Quer receber duas fatias de queijo pelo trabalho?

– Três – respondeu a rã, que tinha queda para o negócio. O rato acedeu. Também não lhe restava outra alternativa…

A rã pôs-se a nadar, com o rato encavalitado no dorso. Faltavam talvez dois terços da viagem, quando a rã disse:

– Afinal você pesa mais do que eu supunha. Levo quatro fatias pelo transporte.

O rato, que não sabia nadar, olhou para a água, em corrente assustadora, e disse que sim. Nem tinha outro remédio.

Mais adiante, voltou a rã:

– Estive a pensar que quatro fatias não chegam. Ficamos em cinco. O que é que acha?

O rato atemorizado achou bem. Se achasse mal, o que o esperaria?

Estavam a chegar ao sítio mais fundo do rio.

– Amigo rato, vamos concluir o negócio. Eu por doze fatias levo-o à outra margem. Combinado?

– Combinado… – disse o rato, a tremer de medo.

E assim continuaram, até terem a margem à vista. Mais calmo, o rato falou assim:

– Eu não sou de regatear, mas sobre aquela nossa conversa de há bocado, compete-me dizer que acho o seu preço muito pesado.

– Mau! – sobressaltou-se a rã. – Então em que ficamos? Estava a margem à largura de um salto. Foi o salto que o rato deu, salpicando-se todo. Mas estava em terra firme.

– Então, afinal, em que ficamos? – perguntou a rã, a boiar de bruços.

– Eu fico aqui, agora você vá para onde lhe apetecer, que não quero ser eu a mandá-la – respondeu o rato.

E desapareceu, pelo meio de uns caniços.

– Já me tinha constado que se não deve concluir negócios com ratos – disse de si para si a rã. – São muito pouco honestos…

E o que diria o rato, se pudéssemos ouvi-lo?

António Torrado

Ilustrações: Cristina Malaquias

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