A princesa que bocejava a toda a hora

Esta é a história de um palácio amarelo, de um rei com uma coroa de ouro e de uma princesa que bocejava a toda a hora.

A princesa que bocejava a toda a hora - Histórias de encantarO rei passava o dia a percorrer de cá para lá e de lá para cá o quarto real. Tinha uma enorme preocupação: a sua filha não fazia mais do que bocejar!

Abria tantas vezes a boca que já lá tinham entrado um par de moscas varejeiras, um colibri despistado e uma borboleta violeta.

Como os bocejos são muito contagiosos, o palácio inteiro andava com a boca aberta: o rei bocejava, a rainha bocejava, os ministros bocejavam… e até o gato e o cão do jardineiro bocejavam!

— Por que bocejará tanto esta princesa? — perguntava-se o rei. — Será de fome? Preocupado, mandou trazer os manjares mais requintados de países longínquos: gelado de Itália, arroz da China, cacau do Brasil, peixe cru do Japão, gafanhotos fritos da Tailândia…

A princesa comeu até se fartar, mas não deixou de bocejar!

E tal como ela, também o rei, a rainha, os ministros… e até o gato e o cão do jardineiro!A princesa que bocejava a toda a hora - Histórias de encantar

O rei continuava preocupado, percorrendo de cá para lá e de lá para cá o quarto real.

— Por que bocejará tanto esta princesa? Será de sono?

Desta vez mandou preparar uma cama macia com colchão de penas, lençóis de seda e dossel de cetim.

Para além disso, ordenou que a perfumassem com pétalas de rosa, e que trouxessem o melhor trovador tocando o seu alaúde para embalar a princesa com doces canções.

A princesa dormiu um sono profundo até que um raio de sol travesso se infiltrou pela janela e se pôs a brincar com o seu cabelo, mas ela não deixou de bocejar!

E tal como ela, também o rei, a rainha, os ministros… e até o gato e o cão do jardineiro!

O rei, pensando e repensando, de cá para lá e de lá para cá, já tinha gasto as solas dos sapatos reais e tornou a perguntar-se:

— Porque bocejará tanto esta princesa? Será de aborrecimento?

Desta vez mandou vir de um reino afastado uma elefanta amarela que contava anedotas que faziam rir.

Mas a princesa continuou a bocejar!

E tal como ela, também o rei, a rainha, os ministros… e até o gato e o cão do jardineiro!

A notícia foi correndo de boca em boca.

Depressa, todos os reinos vizinhos souberam do grande problema daquela corte.

Vieram médicos, e curandeiros de todo o lado; mas por mais xaropes que lhe fizessem tomar, por mais mezinhas que lhe aplicassem, a princesa continuava a bocejar!

Um dia, enquanto passeava pelos jardins, o filho de um dos criados do palácio tentou aproximar-se da princesa.

O pobre estava tão nervoso que tropeçou na raiz de um carvalho e caiu de cabeça na fonte real.

Quando saiu, molhado como um pinto, trazia um peixe colorido dentro da boca e um par de caranguejos pendurados nas orelhas.

Ao vê-lo, a princesa teve um ataque de riso e esteve mais de um quarto de hora ah-ah-ah! hi-hi-hi! sem dar um bocejo.

A princesa que bocejava a toda a hora - Histórias de encantarE tão-pouco bocejaram o rei, a rainha, os ministros… ou o gato e o cão do jardineiro!

O rapaz, a tremer como um pudim, mas feliz com o riso da princesa, conseguiu dizer-lhe:

— Dão per, Ciprensa!

Que na linguagem dos que se ensarilham com a língua quer dizer:

Perdão, Princesa.

Quanto mais falava o rapaz, mais vontade de rir tinha a menina. E quanto mais ria a menina, mais falava o rapaz:

— Radíame a nhoar, Gamestade, de ecaitar uma ferota?

Que na linguagem dos que se ensarilham com a língua quer dizer: Dar-me-ia a honra,

Majestade, de aceitar uma oferta?

A princesa que bocejava a toda a hora - Histórias de encantarO filho do criado, encarnado como um tomate, entregou-lhe uma caixinha de madeira.

Quando a abriu, no rosto da princesa nasceu um sorriso: lá dentro estava a rã mais verde e brilhante que alguma vez vira.

O rapaz levou a princesa a caçar grilos, a dar cambalhotas na montanha, a procurar fantasmas num castelo abandonado, a chapinhar no charco, a jogar à apanhada, a pintar a cara com lama… e a divertir-se com as brincadeiras que sempre lhe tinham sido proibidas.

A partir daquele dia tornaram-se amigos.

A princesa deixou de bocejar a toda a hora.

E tal como ela, também o rei, a rainha, os ministros… e até o gato e o cão do jardineiro! Isto porque nem as bolas de gelado de Itália, nem os colchões macios de penas, nem as elefantas amarelas alegram tanto o coração das princesas como um bom amigo.A princesa que bocejava a toda a hora - Histórias de encantar

Carmen Gil; Elena Odriozola

A princesa que bocejava a toda a hora

Pontevedra, OQO Editora, 2006

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