A ponte maravilhosa do meu irmão

A ponte maravilhosa do meu irmão - Histórias de encantar— Eu tenho o melhor HERMÃO do mundo.

— Não se diz HERMÃO, mas sim IRMÃO.

A minha mãe quer ensinar-me a falar bem, mas prende-se-me a língua.

Para mim ele é tão maravilhoso que não pode ser um irmão como outro qualquer. Tem de ser diferente: um HERMÃO.

Um HERMÃO muito especial. O nome dele é Henrique.

É mais velho do que eu, mas não é adulto. Apenas um pouco maior do que eu. E gosta de brincar comigo.

Gosta também de tomar conta de mim e de me proteger. Não deixa que os maiores se metam comigo ou me interrompam quando estou a brincar.

O Henrique tem a altura certa para me dar a mão. Para carregar no botão do elevador. Para tirar os biscoitos da prateleira mais alta do armário. Para cavar buracos na areia e fazer uma sólida muralha para os proteger das ondas, enquanto eu vou com o balde buscar água ao mar. Para falar de coisas bonitas à noite na cama quando há tempestade e ficamos com algum medo.

Outra coisa bonita que o meu HERMÃO sabe fazer é ensinar-me coisas.

— É assim! – diz ele, e mostra-me como se faz.

Desta maneira, o Henrique ensinou-me a dar um assobio comprido, soprando para fora. A princípio saía-me curto, porque soprava para dentro.

Também me ensinou a fazer bolas de sabão. A abotoar a roupa. A atar os cordões das sapatilhas. Agora anda a ensinar-me a jogar futebol.

O meu HERMÃO ensinou-me até a vestir o casaco de uma maneira muito fácil. É assim: primeiro estende-lo no chão, depois aproximas-te, devagar pelo lado da cabeça, metes os braços nas mangas, levantas-te e pronto, já está!

No outro dia, a mãe do Filipe, que vive no mesmo prédio, veio falar com a minha.

– Venho convidar as crianças para a festa de aniversário do Filipe…

– Oh, que bom! Claro que irão – exclamou a minha mãe. – Quando é? Ela disse. Mas depois acrescentou, como quem pede um favor:

– O padrinho do Filipe pensava dar-lhe uma prenda especial, uma bicicleta ou um jogo qualquer, uma coisa assim… Mas ele não quer. O que quer é uma ponte como a do Henrique. Foi o que ele escolheu. E não encontramos nenhuma loja que a venda…

Claro. Que esperto é o Filipe! A ponte do meu HERMÃO é a coisa mais maravilhosa do mundo. Todos os rapazes do prédio sabem.

Acontece que a minha mãe é muito distraída. Não sei se todas as mães são assim, mas a minha é. Todos os dias nos vê brincar com a ponte maravilhosa do meu HERMÃO e, no entanto, não percebeu do que a mãe do Filipe estava a falar.

– Mas que ponte? O Henrique não tem ponte nenhuma…

– Bem… Não sei se é mesmo uma ponte. O Filipe diz que é uma ponte maravilhosa. Mas creio que é uma pista para carrinhos… Parece que tem muitos túneis, viadutos e rampas… E muitas estradas. Sim, o Filipe fala de uma estrada.

– Não pode ser… O Henrique não tem nenhuma pista. Nem rampa, nem viadutos. Estrada também não.

– Serão carris de comboio?

– Não, não.

– Algum jogo de vídeo ou de computador? Dessas coisas que as crianças agora têm…

– Também não.

– Bem, se calhar, enganei-me. Talvez não seja para carrinhos. O Filipe diz que serve para brincar com cavalos e outros animais. E que eles também passam pela ponte.

– Eles quem? – repetiu a minha mãe.

– O Henrique, o Filipe, o Bruno… Eles todos.

O Bruno sou eu. E ando sempre a passar na ponte do meu HERMÃO. A mãe já me viu milhares de vezes. E mesmo assim não se lembrou.

– Pergunta ao meu HERMÃO – sugeri eu.

– Ao teu irmão, Bruno! – corrigiu a minha mãe. – Quantas vezes tenho de te repetir? Então chamou o Henrique, que explicou:

– Sim, é uma ponte maravilhosa. Dá para gente, carros e animais. Dá para subir e baixar. Pode tornar-se estrada, e passar por cima de tudo. Também pode passar por baixo de coisas. Ora vê.

Fez uma demonstração e as mães viram.

Nós os dois pusemo-nos a atravessar a ponte, que era estrada.

Depois transformou-se em muro para nos proteger do ataque dos bandoleiros. E fez de cerca para o gado não se escapar do campo onde andava a pastar.

Quando nos cansámos, transformou-se numa ladeira. E numa ponte para passarem os carrinhos. Passaram também animais de brinquedos de todos os tamanhos: vacas, leões, camelos, elefantes…

Depois a ponte fez-se baloiço para gatos. E escorregão para joaninhas.

– Mas é mesmo isso? Têm a certeza? – perguntou a mãe do Filipe, pasmada.

– É uma tábua muito lisa que o Sr. Manuel lhes deu… – explicou a minha mãe.

– Não, não é! – esclareci eu. — É a ponte maravilhosa do meu HERMÃO!

– Irmão – corrigiu a minha mãe, suspirando.

– Desculpe, mas não passa de uma tábua… — dizia a minha mãe.

— Bem, se é isso o que o Filipe quer, não é preciso que o padrinho lha ofereça. Arranjo-lha eu…

Eu fiquei a pensar que a mamã é mesmo muito distraída. Até pode ser que a ponte não seja uma coisa por aí além. Não passa disso: uma tábua de madeira.A ponte maravilhosa do meu irmão - Histórias de encantar

Sem nada de fantástico e sem nenhuma maravilha. Mas há um segredo que elas não descobriram.

Digo-to a ti: o meu HERMÃO é que é fantástico, uma maravilha.

O melhor do mundo!

Ou será um irmão como qualquer outro?

Ana María Machado

El puente maravilloso de mi hermano

Zaragoza, Edelvives, 2007

Tradução e adaptação

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