Pobre Menina Rica

Pobre menina rica - Histórias de encantar

Conto popular

Susana era filha de comerciantes, e tão bonita quanto rica. Os criados que tomavam conta dela desde bebé sempre lhe tinham dito que era adorável. Mas, embora fosse bela, tinha-se tornado egoísta e irritável porque só fazia a sua vontade.

Quando cresceu começou a perceber que afinal não era tão estimada como pensava. Um dia, as outras raparigas foram dançar umas com as outras e puseram–na de parte.

— O que é que se passa com elas? — queixou-se na manhã seguinte à sua velha ama. — Gostaria de, com um simples estalar de dedos, fazê-las gostar de mim.

— Olha, se é isso que queres, o melhor que tens a fazer é ires visitar a feiticeira que vive na montanha — aconselhou a sua velha ama.

— Vou mandar um rapaz do estábulo ir lá com uma mensagem — respondeu Susana. — Tenho a certeza de que por um saco de moedas ela me dirá o que é preciso fazer para conseguir o que quero.

O mensageiro lá foi, mas ao pôr-do-sol já estava de volta com o saco das moedas.

— A feiticeira disse que tem de ser a própria menina a ir ter com ela, se quiser saber a forma de obrigar as outras raparigas a dançarem consigo — explicou o rapaz. — E ela disse ainda que a menina tem de ir a pé.

Susana franziu as sobrancelhas, fez beicinho, e durante uma semana recusou-se a ir visitar a feiticeira. Depois, começou a compreender que tinha de fazer alguma coisa para alterar a situação.

— Estou a ver que não tenho outro remédio senão ir lá eu própria — concluiu mal-humorada, e mandou as criadas prepararem-lhe tudo de que precisava para o caminho: um elegante par de botas do melhor cabedal, uma capa de lã bem quente e um saco de comida.

Partiu de manhãzinha, atravessou as ruas da cidade e tomou o caminho que conduzia ao monte.

À medida que ia subindo, começou a sentir que as suas elegantes botas lhe apertavam os dedos dos pés.

— Devem estar pequenas — queixou-se, pouco antes de chegar ao pé de uma casa onde viu uma velhinha sentada num banco junto à porta.

— Ai, doem-me tanto os pés! — exclamou Susana. E sentou-se ao lado dela.

— E ainda tenho de fazer todo o caminho que falta para chegar à casa da feiticeira que vive na montanha.

A velhinha olhou para Susana e para as botas que ela trazia calçadas.

— Tenho apenas estes sapatos muito usados — disse a mulher —, mas com os anos alargaram tanto que me estão grandes de mais. São capazes de te darem mais jeito do que as botas que trazes calçadas.

— Não me fazia mal nenhum experimentá-los — decidiu Susana. Para sua grande surpresa, os sapatos serviam-lhe muito bem. Por isso, deu as suas botas à mulher e prosseguiu o caminho.

Conforme ia subindo a montanha, o ar tornava-se cada vez mais frio e a sua capa esvoaçava ao vento. Foi então que o céu se encheu de nuvens cinzentas e a chuva começou a cair em gotas grandes e pesadas.

Susana desatou a correr. Ao longe, por entre as árvores, avistou a barraca de um lenhador.

— Graças a Deus que encontrei um sítio para me abrigar — gritou ela de alegria a correr para debaixo do telheiro onde o lenhador se encontrava. — Com esta capa de lã que deixa passar a água ia ficar completamente encharcada.

O homem olhou para ela.

— Estarias mais protegida com a coberta de lona que tenho na cama. Mas a minha mulher está doente e ficava sem nada para se aquecer se eu ta desse.

— E se a trocasses pela minha capa? — sugeriu Susana esperançada.

— Se assim o quiseres — concordou o homem.Pobre menina rica - Histórias de encantar

O lenhador voltou com um pedaço esfarrapado de lona para ela cobrir as costas, e pegou na capa, agradecendo o calor que dava. Susana continuou penosamente o seu caminho, hora após hora, mordiscando alguma comida que trazia no saco enquanto caminhava.

Quando atingiu a parte mais elevada da encosta, deparou com a casa de um pastor onde se ouvia o choro de uma mulher. Esta explicou-lhe que o filho estava doente e não tinha nada para lhe dar de comer até o marido voltar da cidade.

— O que só acontecerá depois de amanhã — soluçava — e a criança está tão fraca.

Susana abriu o saco que trazia.

— Olha, o pão que tenho aqui é fresco, macio e doce — disse ela — e ainda sobrou um pouco de manteiga. Por favor, fica com o saco e trata do teu filho.

A mulher desfez-se em agradecimentos e desejou a Susana felicidades para a viajem.

Pouco faltava para o cair da noite quando Susana chegou ao cimo da montanha onde morava a feiticeira. Já muito cansada, foi bater à porta da pequena cabana, mas ninguém lhe respondeu. Esperou e tornou a esperar mas ninguém apareceu.

— Vim eu de tão longe para nada! — chorava. Foi então que resolveu empurrar a porta da cabana. Como não estava trancada, decidiu entrar para se abrigar durante a noite. Para sua surpresa descobriu que a cama estava coberta com urze acabada de cortar em cima da qual se encontrava uma mensagem:Pobre menina rica - Histórias de encantar

«Rezei por ti. Vais ver que a tua viagem te trará a mudança que desejas.»

Demasiado cansada para se preocupar com o que quer que fosse, Susana deitou-se na cama e passou lá a noite. Na manhã seguinte, ao romper do Sol, iniciou a viagem de regresso a casa.

Quando chegou à cabana do pastor encontrou a mãe e o filho à porta, rindo-se um com o outro.

— Ele está muitíssimo melhor — disse a mãe da criança. Susana apercebeu-se de que ainda não tinha sentido fome desde que partilhara a sua comida.

Pobre menina rica - Histórias de encantarQuando chegou à barraca do lenhador, viu-o de pé, ao lado da mulher, na clareira do bosque,

— Estava tão quentinha que dormi muito bem, e agora já me sinto com forças para me levantar depois dos dias que passei na cama — disse a mulher.

Susana apercebeu-se de que deixara de ter frio desde que tinha aquela lona para se proteger da chuva.

Quando chegou à casa da velhinha, encontrou-a a passar a ferro.

— Estou a preparar a minha melhor roupa para levar amanhã ao casamento da minha sobrinha — explicou.

— Gostava de poder ficar com as tuas maravilhosas botas um pouco mais de tempo, pois são muito mais bonitas que os meus sapatos, e ficam-me muito bem.

— Podes ficar com elas — respondeu Susana. — Os teus sapatos deram-me muito jeito durante a viagem.

— Eram uns sapatos muito bons — disse a mulher.

— Usei-os para trabalhar, andar… e sobretudo para dançar. Embora estejam muito velhos vais descobrir que danças muito bem com eles.

A cara de Susana iluminou-se.

— Vou experimentar! — disse ela, e foi a dançar o resto do caminho até à cidade sentindo-se uma nova pessoa.

Um grupo de raparigas que ela conhecia, ao vê-la sorrir, bater palmas, saltar e rodopiar, chamou-a:

— Muito bem, muito bem! Vem dançar connosco.

E ela assim fez.

Lois Rock (org.)

Contos e Lendas da tradição cristã

Lisboa, Editorial Verbo, 2006

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.