A parte do leão

A parte do leão - Histórias de encantar

Os animais carniceiros juntaram-se todos e decidiram ir à caça. Quem teve a ideia foi o leão.

Quando tal se soube, correu um ciclone de medo pela floresta.

– O que vai ser de nós? – diziam os bichos ameaçados.

– Se cada um por si já é um perigo terrível, o que farão todos juntos?

– Descansem, que a aliança pouco dura – tranquilizou-os uma velha doninha que já tinha vivido muitas histórias e lido muitas fábulas. – Não tarda que volte cada um a caçar por sua própria conta.

Não as tomou uma gazela estarola que sem saber como se viu cercada pelos carnívoros…

– E vai uma! – disse o leão, pondo uma pata sobre o corpo da vítima.

– Vamos partilhá-la, que estou cheio de fome – lembrou o leopardo.

– Assim se fará e em boa ordem – concordou o leão. – Esta gazela vai ser dividida em quatro partes. Cabe-me a primeira, porque fui eu quem teve a ideia desta caçada em comum.

Os outros animais aprovaram. Prosseguiu o leão.

– Também me cabe a segunda, porque fui eu quem comandou a perseguição e o cerco.

Os outros animais aprovaram, ainda que com alguma relutância. O leão continuou:

– Cabe-me a terceira parte, porque fui o mais ágil em caçá-la, o primeiro que a filou e derrubou.

Os outros já não estavam a gostar nada daquela partilha, mas que remédio tinham senão aprovar… Concluiu o leão:

– A quarta e última parte pertence-me, porque não conheço nenhum bicho com força e coragem suficientes para ma disputar.

E começou a banquetear-se.

Os outros animais, que não estavam dispostos a presenciar, a seco, o almoço do leão, foram-se afastando, um por um, e cada um para sua banda.

– Eu não vos dizia?! – comentava, pouco depois, a doninha. – Quando há um leão na sociedade ou só come ele ou acaba a sociedade.

Realmente, a doninha, apesar de pequena, era uma grande sábia adivinha. Deve ser de ter lido muitas histórias.

António Torrado

Ilustrações: Cristina Malaquias

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *