Pancrácia

Era uma vez uma dama, que tinha uma criada meia-zaranza e papa-moscas, que não fazia nada com jeito. Chamava-se a criada Pancrácia.Pancrácia - Histórias de encantar

Um dia, a dama teve de ausentar-se de casa por uns tempos e de deixar tudo aos cuidados da Pancrácia. Antes de sair, recomendou-lhe:

– Enquanto eu estiver fora, vê bem como cuidas dos meus haveres. A qualquer um, que te apareça, diz sempre “Não”. Está bem?

– Não – respondeu a criada, muito obediente.

A dama percebeu que o recado estava aprendido e saiu mais descansada.

Dias depois, bateram à porta de casa. Era ou fazia de conta que era um mendigo.

– Senhora, dê-me resguardo, que está muito frio cá fora…

– Não – disse a criada.

– E uma sopinha quente, para comer aqui, mesmo à soleira?

– Não – disse a criada.

– Nem uma esmolinha de uns tostões poucos?

– Não – disse a criada.

Aqui o mendigo começou a perceber que aquele “não” era de encomenda. Por isso, resolveu virar as perguntas do avesso:

– Então a senhora consente que eu enregele de frio, cá fora?

– Não.

– Então a senhora recusa-se a dar-me de jantar?

– Não.

– Então a senhora importa-se que eu dê uma volta pela casa?

– Não.

E assim o falso mendigo foi conseguindo os seus intentos.

– Não faz mal que eu meta para o saco algumas lembranças desta minha visita, pois não?

– Não.

O larápio levou o que quis e a Pancrácia ajudou. Quando a dama regressou de viagem e viu a casa roubada, desesperou-se:

– Ó mulher, tu não te importaste que me levassem tudo o que levaram?

 

– Não – respondeu, muito bem ensinada, a Pancrácia.

António Torrado

Ilustrações: Cristina Malaquias

 

 

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