Os ratos da botas

Eram dois ratos e cada um vivia na sua bota. Mas viviam um tanto afastados, porque, embora as botas fossem irmãs e em tempos tivessem caminhado juntas, os ratos que as habitavam, por razões que não vêm para o caso, andavam de mal um com o outro.Os ratos das botas - Histórias de encantar

Por isso estavam as botas de costas voltadas, isto é, de calcanhares voltados, como as botas de Charlot.

Mas, num dia de grande temporal, o vento soprou a valer por aqueles sítios e empurrou uma das botas em direcção à irmã, que também se deslocou com a ventania.

– Quem está aos pontapés à minha casa? – irritou-se um dos ratinhos, muito assustado com a tempestade.

O vento puxou a chuva que, cada vez mais forte, alagou aquele cantinho do mundo onde estavam as botas.

– Ora botas! Já nem se vive em sossego na nossa própria casa – lastimou-se um dos ratinhos.

Graças à proximidade, o outro rato ouviu o vizinho queixar-se e também se lamentou:

– Casas velhas e mal calafetadas não dão segurança nenhuma. Ora botas! Ora botas!

Que o pior ainda estava para vir. Quando a água da chuva inundou aquelas paragens, e a corrente deu em rio, as duas botas foram arrastadas na chuva e rolaram, muito trangalhadanças, sobre pedras e seixos.

– Ora botas! Em vez de casa, um barco – desesperava-se um ratinho.

– Ora botas! Em vez de bota, um bote – desesperava-se o outro ratinho.

Amainou a tempestade, estancou a chuva e as duas botas acabaram poisadas, lado a lado, num montinho de areia.

Os dois ratos, quando sentiram que o perigo tinha passado, saíram ao mesmo tempo das respectivas botas, isto é, das respectivas casas.

– Que viagem mais tormentosa – queixou-se um.

– Nunca mais acabava – queixou-se o outro.

Sem darem por isso estavam a falar um com o outro.

– Mas o sítio é bonito.

– E tem bom ar.

– E boa vista.

– E bom piso.

Um dos ratinhos apontou para a bota, isto é, para a casa do outro, e reparou:

– Tem as persianas todas escangalhadas.

Eram os atacadores fora das ilhós e deslaçados. O outro ratinho retorquiu:

– As suas persianas também precisam de arranjo. Eu ajudo-o.

Passaram a tarde a consertar as casas e, com a boa ajuda um do outro, o trabalho rendeu muito. Vão agora, segundo combinaram, fazer uma vedação para proteger uma horta, que querem cultivar a meias.

Ficaram outra vez dois ratinhos amigos, e as botas, aliás as casas geminadas, são bem prova disso.

António Torrado

Ilustrações: Cristina Malaquias

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