Os pauzinhos de marfim

Os pauzinhos de marfim - Contos infantisHavia, no reino de Song, um senhor não muito abastado chamado “Fang”. Vivia numa modesta residência cercada de florestas e de alguns campos. A vida era difícil nestas remotas regiões da China e o senhor Fang não era muito mais rico do que os camponeses que para ele trabalhavam. Um dia, um mensageiro apresentou-se à porta de Fang.

— Senhor — disse. O meu amo, o rei Qi, deu uma queda do cavalo não muito longe daqui. Estamos a precisar de ajuda…

Fang mandou logo chamar o seu criado:

— Vai procurar os nossos camponeses, disse-lhe. Vamos socorrer este nobre senhor.

Guiados pelo mensageiro, Fang e os camponeses meteram-se a caminho.

Depressa chegaram a uma clareira onde depararam com uma riquíssima comitiva. Havia carruagens forradas a seda, soldados transportando longos chuços ornamentados com auriflamas, cavaleiros com capacetes emplumados e uma multidão de criados. Junto a um cedro, estava deitado o rei Qi. Ao seu rosto colavam-se esgares de dor.

Fang aproximou-se do rei e cumprimentou-o.

— Em que poderei ser-vos útil, Majestade? — perguntou.

— Creio ter partido a minha perna — respondeu o rei. Já mandei que viesse o meu médico pessoal, mas apenas deve chegar amanhã. Seríeis capaz de me acolher no vosso palácio, enquanto espero por ele?

— A minha morada não é digna de Vossa Majestade… mas está à vossa inteira disposição — respondeu Fang respeitosamente.

E ordenou aos camponeses que transportassem o rei até sua casa.

♦♦♦♦

Quando chegou ao palácio de Fang, o rei Qi reconheceu que o alojamento era bem pobre. Mas não deixou transparecer o seu pensamento. Fang providenciou para que o rei se instalasse na sua própria cama e ordenou ao cozinheiro que preparasse o que de melhor tinham.

— O séquito que vos acompanha pode instalar-se no pátio — disse ele ao rei. A minha casa é demasiado pequena para alojar todos, mas vou fazer chegar-lhes algo para comer.

— A tua casa tem tanto de pequena como o teu coração tem de grande — agradeceu o rei Qi.

À noite, o cozinheiro serviu o porco salgado que estava reservado para a festa do deus Macaco.

— Talvez esta não seja uma iguaria suficientemente requintada para um rei como vós — desculpou-se Fang.

— Isso não importa! — exclamou o rei Qi sorrindo. O teu cozinheiro preparou um verdadeiro repasto próprio de um imperador!

De pé e perto da cama, Fang pensou que devia ser bom comer assim todos os dias…. E que, se essa fosse a vontade do rei, provaria de bom grado o cozinhado. No fim da refeição, Fang retirou-se, recuando.

— Que a noite vos traga o descanso, Majestade, disse.

— E que a vós traga a paz, respondeu o rei Qi.

Assim, o rei Qi pôde esperar o seu médico num belo colchão de plumas, enquanto Fang dormia com o seu criado.

No dia seguinte pela manhã, chegou o médico. Este tratou da perna do rei Qi, envolveu-a com uma ligadura e declarou:

— Majestade, podeis agora regressar a vossa casa e descansar. O rei Qi entregou então uma bolsa de ouro a Fang.

— Tomai — disse — como agradecimento do serviço que me prestastes. Fang cruzou as mãos sobre o peito, dizendo:

— Majestade, ofendeis-me. Não posso aceitar dinheiro de alguém que recebi como convidado.

O rei Qi arranjou então outra forma de agradecer ao seu hospedeiro sem ter de vexá-lo. Uma vez instalado numa das carruagens pelos seus criados, ofereceu a Fang uns pauzinhos de marfim. Fang juntou as mãos, abanou a cabeça e respondeu:

— Vejo que Vossa Majestade faz absoluta questão de me agradecer. E, assim sendo, aceito de bom grado este presente do qual não me sinto merecedor.

Guardou, então, os pauzinhos de marfim na sua manga.

Os pauzinhos de marfim - Contos InfantisOs acompanhantes do rei Qi puseram-se a caminho. As couraças dos soldados cintilavam, as auriflamas batiam ao vento e por toda a parte a seda espalhava mil reflexos. O senhor Fang estava completamente deslumbrado com tudo aquilo.

—  Como  deve  ser  agradável  viajar  assim acompanhado de uma escolta real – pensava ele.

O rei Qi cumprimentou-o uma última vez e toda aquela real parafernália desapareceu na primeira curva do caminho.

♦♦♦♦

Ao meio-dia, quando o cozinheiro trouxe o prato de arroz, Fang tirou os pauzinhos de marfim da sua manga.

— São magníficos, admirou-se ele.

Efectivamente, estes pauzinhos feitos do melhor marfim estavam finamente gravados e, nas extremidades, ornados de pedras preciosas. Eram de grande valor: só os soberanos mais poderosos podem desfrutar de tal tesouro.

— Como pude comer todo este tempo com miseráveis pauzinhos de madeira? — pensou Fang.

Fang mergulhou os pauzinhos de marfim na tigela e levou um bocado de arroz à boca. Cuspiu-o imediatamente, gritando:

— Este arroz é indigno dos meus maravilhosos pauzinhos! Cozinheiro! Trata de me trazer faisão…

— Senhor, surpreendeu-se o cozinheiro, faisão?! Não estávamos a guardá-lo para o Ano Novo?

— Quero comer faisão com os meus pauzinhos de marfim! — exigiu Fang.

— Vou prepará-lo de seguida e servi-lo-ei esta noite — disse o cozinheiro fazendo uma pequena vénia.

O cozinheiro preparou o faisão da melhor das maneiras. O odor era suave, a carne delicada e dourada estava no ponto certo. Um regalo digno de um rei… Mas quando trouxe o prato, o senhor Fang pôs-se a berrar:

— Faisão em louça de barro! Quando se têm paus de marfim, come-se em louça de ouro! Que vá alguém imediatamente comprar um serviço!

O cozinheiro afastou-se, repetindo a vénia.

Enviou sem demora o criado à cidade para comprar louça de ouro. Era já noite cerrada quando este chegou da sua missão. Em caixas de madeira e protegida com palha, trazia a mais bonita e a mais cintilante das louças de ouro. O magro tesouro do senhor Fang tinha sido gasto na totalidade.

No dia seguinte, o cozinheiro trouxe o resto do faisão numa travessa de ouro e serviu o senhor Fang num prato do mesmo metal.

— Como é agradável, pensava Fang, provar pratos requintados em louça de ouro com pauzinhos de marfim! Estou satisfeito como um rei. Aliás, esse é o título que quero usar a partir de agora: rei Fang!

No fim da refeição, pousou os pauzinhos sobre a mesa.

— Uma mesa de madeira! — gritou de repente. E nem sequer tem toalha! Isto é indigno de mim!

Chamou o criado e disse-lhe:

— Um rei come sempre numa mesa de mármore coberta com toalha de seda. Que se compre imediatamente o que falta!

O criado baixou a cabeça e murmurou:

— Senhor Fang, o tesouro está vazio. A louça de ouro comprada foi extremamente cara…

A cólera de Fang tornou-se violenta.

— Preciso de uma mesa de mármore e de uma cobertura de seda! Vou aplicar um novo imposto.

— Mas, Senhor, disse o criado, os vossos camponeses são tão pobres…

— Basta! — atalhou Fang. — Preciso de dinheiro!

Os camponeses entregaram tudo até à última moeda e o rei Fang mandou comprar a sua mesa de mármore e uma cobertura de seda. E taças de jade e xícaras de porcelana. Mas logo sentiu também necessidade de comprar roupas ricas e mobiliário de madeira fina, urgência em acrescentar uma torre à sua casa…

Os desejos de Fang pareciam não ter limites. E continuava dizendo:

— Nada é demasiado bom para quem tem pauzinhos de marfim!

Os pauzinhos de marfim - Contos InfantisE os camponeses foram obrigados a vender as suas colheitas antes do inverno para satisfazer os desejos do Rei Fang.

Uma noite, a neve começou a cair. Fang estava sozinho no seu palácio gelado.

— Estou a ficar gelado! — exclamou ele. Mandem acender o lume!

— Já não há madeira — respondeu o criado.

— Então, tragam-me qualquer coisa para comer! — retorquiu ele.

— Já não temos arroz. — disse o cozinheiro.

Fang pediu que comprassem só o arroz necessário. Mas foi-lhe dito que não lhe restava a mais pequena moeda.

— Peçam aos comerciantes da cidade que me dêem crédito.

— A vossa dívida na cidade é imensa. — disse o criado — Já ninguém aceita dar-vos crédito.

Fang deu um murro na mesa.

— Aplique-se um novo imposto! — gritou.

— Majestade, disse humildemente o criado — os camponeses mal têm já para comer. Fizestes com que vendessem o pouco que lhes restava para que começásseis a construir a torre.

O Rei Fang cerrou os punhos. A situação começava a escapar-lhe. Furioso, aproximou-se da janela.

♦♦♦♦

Lá fora, um vento glacial varria o cimo das árvores, levantando turbilhões de neve. A torre em construção tremia no seu esqueleto de andaimes. O rei Fang dirigiu o olhar para a aldeia que, devido ao frio, estava deserta. Reparou então que nenhuma das chaminés deitava fumo. Voltou-se com um ar triste e ordenou:

— Deixem-me sozinho!

Sem ninguém por perto, Fang passeou o olhar pela sala grande e fria. A louça de ouro estava vazia, a toalha amarrotada, os móveis ricos cobertos de poeira… Apercebeu-se então dos pauzinhos de marfim. Pareceu-lhe ver neles esculpidos horríveis dragões. Achou que as pedras preciosas tinham um brilho maléfico…

— Foram estes pauzinhos que me puseram louco. — gritou de repente.

Os pauzinhos de marfim - Contos InfantisPensou nos seus camponeses que estavam a tremer nas suas cabanas onde faltavam alimentos e madeira. E tomou uma decisão…

O rei Fang reuniu os seus camponeses no pátio do castelo.

— Ide buscar as vossas carroças. Preciso da ajuda de todos. NA multidão corriam murmúrios. Que mais poderia pedir-lhes o rei Fang? Mal tinham com que alimentar os filhos… Mas não estavam ainda desorientados ao ponto de desobedecer.

Foram, então, a casa e logo voltaram com as carroças.

— Sigam-me — disse Fang, entrando no castelo.

Já no interior, os camponeses intimidados descobriram as riquezas acumuladas pelo seu rei. Os rostos endureceram-se e alguns começaram a resmungar entre dentes. Era o suor do seu trabalho que o rei Fang transformara em ouro e seda! Fang tentou acalmar a ira que sentia aumentar na multidão.

— Amigos! — disse — Afastai os vossos receios. Os dias felizes irão voltar …

Os camponeses entreolharam-se sem compreender. Não estavam já suficientemente penalizados para ainda terem de assistir àquele desfile de riquezas? E de que tão belos dias estaria a falar o seu rei?

— Carregai tudo nos vossos carros — continuou Fang. — A louça, os móveis, os tecidos de seda…

Os rostos dos camponeses iluminaram-se. Desta vez, tinham compreendido. E depressa se mexeram, encaixando como puderam os móveis nas carroças.

— Peço só que me deixem a mesa de madeira. — disse o rei Fang.

Os pauzinhos de marfim - Contos InfantisCarregadas as carroças, dirigiram-se em cortejo para a cidade.

Cruzaram as portas da urbe e Fang encaminhou os carros para o largo do mercado. Ordenou que parassem frente à loja de um negociante. A venda da louça de ouro, de móveis tão requintados e dos restantes objectos de valor rendeu uma bela quantia.

Com este dinheiro, Fang pagou as suas dívidas e mandou comprar arroz, carne seca e madeira que todos transportaram.

Mas ainda não estava satisfeito…

Numa outra loja, mostrou os seus preciosos pauzinhos de marfim. O joalheiro observou-os demoradamente. Depois, levantou a cabeça com admiração.

— Tem aqui umas belíssimas peças! — exclamou. — Dignas de um…

— De um rei poderoso que já não quero ser! — interrompeu o senhor Fang. — Quanto me dá por elas?

Os pauzinhos de marfim eram valiosos e o comerciante deu-lhe um bom dinheiro por eles. Fang pôde assim mandar encher outro carro com alimentos e comprar, além disso, vestimentas quentes para todos os habitantes da aldeia.

No largo do mercado, os carros estavam carregados e os aldeões sorriam apesar do frio. Já todos desejavam só mais uma coisa: voltar para casa. Com a bolsa e o coração mais confortados, o rei Fang deu o sinal de partida. Também ele tinha pressa de regressar.

— Meus amigos, disse. — Partamos! Estamos de regresso…

♦♦♦♦

As carroças seguiram pelos caminhos gelados que levavam à aldeia.

E foi assim que no pino do Inverno todos os aldeões se reuniram no salão do pequeno castelo. Crepitava um belo fogo na chaminé, espalhando um calor suave. Na mesa de madeira, o cozinheiro serviu, em malgas de barro, a melhor das refeições. Foi uma festa da qual se falou muito tempo na aldeia.

E nunca o rei Fang teve tanto prazer em comer com simples pauzinhos de madeira…

Didier Dufresne

Les baguettes d’ivoire

Mont-près-Chambord, Bilboquet, 2004

(Tradução e adaptação)

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