O salpico

Era uma vez um salpico. De tinta. Caíra por acaso num nariz. O nariz estava, já se vê, numa cara. A cara pertencia, como se imagina, a um corpo.O salpico - Histórias de encantar

Nariz, cara, corpo, mais braços e pernas, tudo nos seus respectivos lugares, compunham um boneco de pasta ou de plástico, igual a dezenas de outros, numa oficina de brinquedos.

Vestidos com o mesmo tecido barato, todos enfileirados e prontos, os bonecos, aliás, as bonecas, estavam ali para o que desse e viesse.

Arrecadadas umas tantas para dentro de uma caixa, viajaram até uma feira. Dispostas lado a lado, no escaparate do feirante, pareciam uma varanda de meninas para casar.

Elas não diziam: “quem quer, quem quer casar com a carochinha”, mas era como se dissessem.

– Quanto custa esta boneca? – perguntava alguém.

– Tanto – dizia o vendedor.

Algumas iam à vida, embrulhadas em papel de cor. Tinham o destino certo. Mas a maioria ficava.

– Ó mãe, olha ali aquelas bonecas. Compra-me uma… – pediu uma garotinha de olhos tristes.

A mãe fez de conta que não ouvia. A miúda insistiu:

– Compra, mãe, compra. E a mãe:

– Não pode ser, filha. Não temos dinheiro para luxos. Era uma pobre de pedir. Mas talvez se tenha lembrado de quando era menina, sem bonecas nem brinquedos, e perguntou ao feirante o preço das monas. Recuou, quando soube. A mão da filha muito apertada na sua… Foi então que deu com a boneca salpicada.

– E esta, que tem defeito, por que preço a faz? – perguntou.

O vendedor nem tinha reparado. Aborreceu-se com a descoberta e para despachar a mercadoria disse:

– Tanto – … muito menos que as outras.

A mulher contou as moedas e pagou. Aninhou-se a boneca nos braços da miúda. Por causa de um salpico do acaso, vejam só o que pode acontecer!

E não é que o salpico da boneca, ao colo da menina, se desvaneceu, como por encanto?!

Há casos assim. Acontece, às vezes.

António Torrado

Ilustrações: Cristina Malaquias

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