O rapaz da água

O rapaz da água - Contos Infantis

― Somos maioritariamente compostos por água ― ensinou o professor.

Esta informação fascinou o rapaz, que a achou também um pouco preocupante. Será que se dissolveria na chuva ou que se converteria em gelo no Inverno? Se o gato o arranhasse, será que a água escorreria para fora do corpo, como se ele fosse um balão furado?

Desde que o ralo da banheira lhe agarrara o dedo grande do pé, ao esvaziar-se a água do banho, que o rapaz não gostava de se lavar. Recusava-se a tomar banho. Quando a mãe lhe perguntava porquê, contava-lhe o que o professor tinha dito.

O rapaz da água - Contos Infantis― A água faz parte de todos nós ― explicava a mãe, tentando reconfortá-lo. ― É uma coisa boa e não podemos viver sem ela.

Depois de ouvir isto, o menino ficou menos receoso. Decidiu voltar a tomar banho, mas agarrava-se aos lados da banheira. À medida que o tempo passava, a água tornou-se uma amiga para o rapaz. Quando chovia, calçava as botas e ia lá para fora brincar nas pocinhas. Se não chovesse, enchia as botas de água e andava pela casa a salpicar tudo, até a mãe lhe dizer para parar.

Certo dia, foi visitar a avó e esta perguntou-lhe qual era a sua cor favorita.

― Azul ― respondeu o menino.

A avó tricotou-lhe uma camisola da cor do oceano numa tarde sem nuvens. O neto vestia-a quase todos os dias. Começaram, então, a acontecer coisas estranhas.

Um dia, quando limpava os pratos, a água da torneira da banca desenhou o seu nome em letras. Quando foi dar um passeio na praia perto de casa, os albatrozes desenharam um círculo em torno dele e trouxeram-lhe pequenos tesouros. Se ia até aos rochedos, as ondas cantavam para ele. Na banheira, conseguia afastar a água toda para um lado e dirigir os seus movimentos com um aceno de cabeça. Este truque deu mesmo jeito quando a turma foi fazer uma expedição a umas cataratas e um cãozinho caiu à água, quase se afogando.

No lago do parque, quando o barquinho à vela de um menino virou e começou a afundar-se, uma fonte pegou nele e levou-o, gentilmente, até junto do rapaz. O menino passava agora muito tempo a fazer truques com água.

Depois de muitas tentativas falhadas, conseguiu fazer sair e entrar água de um copo, como se fosse um ió-ió. Contudo, o seu número favorito era balançar uma gota de água na ponta do dedo. Quando a aproximava dos olhos, conseguia ver tudo o que o fundo do oceano encerrava. Em breve descobriu que podia enfiar uma enorme quantidade de água da chuva num frasco de comida para bebé. Colocava depois o frasco à janela para que a água absorvesse a energia do sol.

Gostava de fazer experiências. Por exemplo, descobriu que uma só gota de água do frasco podia limpar uma lata da tinta mais espessa. Duas gotas limpavam uma poça de lama.O rapaz da água - Contos Infantis

Um dia, levou o frasco para a escola para demonstrar o estranho poder da água. Quando vinha para casa, estava a atravessar uma ponte quando ouviu uma voz a pedir ajuda. Virou-se mas não viu ninguém. Ouviu o grito de novo. Debruçou-se na ponte e também não viu ninguém. Percebeu que era o rio a suplicar que o limpassem. O rapaz tirou o frasco da mochila e verteu cuidadosamente uma gotinha. Mal caiu no rio, a gota formou um círculo azul e brilhante que se expandiu em ondas concêntricas.

O menino verteu mais uma e outra gota. As ondas cintilantes atravessavam agora o rio de uma margem à outra. O rapaz esvaziou o frasco todo, lentamente, e viu o rio a correr, límpido, até ao oceano.

Mais tarde, quando passeava pela praia, uma garrafa veio ter-lhe aos pés.

Dentro da garrafa estava um bilhete com o seu nome escrito.

Era um bilhete de agradecimento.

O rapaz meteu-o no bolso e foi para casa.

Tinha um banho à sua espera.O rapaz da água - Contos Infantis

David McPhail

Water Boy

New York, Abrams Books, 2007

(Tradução e adaptação)

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