O Punhado de Pó

Num certo país, numa dada aldeia, vivia um homem rico e importante, que tinha por hábito instalar-se todas as manhãs no patamar da sua grande e bela casa, para ver passar os transeuntes. Via, com frequência, passar um mendigo, que ia apanhar lenha na floresta, enquanto cantarolava. Via-o também voltar, ao fim da manhã, com as costas curvadas pelo peso dos molhos de lenha, que ia por certo vender no mercado por algumas moedas de cobre.O punhado de pó - Histórias de encantar

Certa manhã, o homem rico interpelou o homem pobre:

— A tua coragem comoveu-me, amigo. Podes vir pedir-me, todas as manhãs, tudo aquilo de que necessitares, desde que sejam pedidos razoáveis, claro. Assim escusas de ir trabalhar tão arduamente na floresta.

O homem pobre refletiu longamente, sempre com o dorso curvado. Quando ergueu a cabeça, fitou o homem rico com o rosto tisnado e disse-lhe, a sorrir:

— Dá-me um punhado de pó.

O rico ficou espantado e mudo por uns instantes. Depois, curvou-se e apanhou um punhado de pó, que deu ao pobre. Este agradeceu-lhe e foi-se embora, a caminho da floresta, cantarolando como de costume. A partir desse dia, todas as manhãs, o rico curvava-se e dava ao pobre um punhado de pó. Até ao dia em que se zangou:

— Meu Deus! Vens aqui todas as manhãs buscar um punhado de pó quando podes muito bem apanhá-lo tu mesmo?

O miserável desatou a rir e retorquiu:

— Prefiro que sejas tu a fazê-lo. Como a ti tudo foi dado, gosto de te ver suar um pouco todas as manhãs. Reconforta-me a alma e dá-me coragem para enfrentar o dia. Não quero as tuas riquezas, quero um pouco da tua atenção afetuosa. Não queres oferecer-me este tão pequeno prazer?

O homem rico ainda fez menção de protestar, mas só conseguiu resmungar. E, subitamente, desatou a rir. O seu coração tinha-se aberto a uma verdade essencial. Então, voltando a baixar-se, apanhou um punhado de pó e deu-o ao miserável.

Jean-Jacques Fdida

La naissance de la nuit et autres contes du monde entier

Paris, Didier Jeunesse, 2006

Tradução e adaptação

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