O papagaio

O papagaio - Contos Infantis

Do Brasil regressara à sua terra um pobre emigrante. Como única riqueza, trazia um papagaio.

Pacientemente, o homem tinha ensinado o papagaio a dizer: “Não há dúvida”.

Um dia, o homem resolveu vender o papagaio. Realizava-se, nesse dia, uma grande feira, e o nosso homem para lá foi, lançando o seu pregão:

– Quem quer comprar um papagaio? Um papagaio muito esperto por cinco mil euros…

Mas ninguém estava interessado.

Então o homem mudou de pregão. E pôs-se a apregoar assim:

– Quem quer comprar este ser inteligente, que além do mais também é papagaio. É um sábio com penas! Ele sabe tudo e custa pouco. Por quinze mil euros, leva um sábio para casa, que até distrai e faz vista, porque é tal e qual um papagaio. Quinze mil euros, quem compra?

Aproximou-se um lavrador, que tinha menos de inteligência que de riqueza. Como queria dar-se ares de espertalhão, perguntou ao papagaio:

– Ó loiro, tu vales quinze mil euros?

– Não há dúvida – gritou o papagaio.

– E és realmente um sábio disfarçado de papagaio? Um grande sábio? – perguntou o lavrador.

– Não há dúvida – respondeu o papagaio.

O lavrador ficou espantado e comprou logo o papagaio, que levou para casa.

Mas o papagaio nunca mais voltou a falar.

Um dia, o lavrador, que já se arrependera de ter caído na esparrela, lamentou-se, junto da gaiola do passaroco:

– Que burro que eu fui em ter dado tanto dinheiro por um papagaio!

– Não há dúvida – gritou o papagaio. – Não há dúvida!

António Torrado

Ilustrações: Cristina Malaquias

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