O capuchinho e o lobo

O capuchinho e o lobo - Histórias de encantar

Era um frade de capuz descido, a caminho do mosteiro, no cimo da serra.

A friagem do princípio da noite era de respeito. Vinha tocada pelo vento, que assobiava pelas frinchas dos rochedos e despenteava as copas dos pinheiros. O frade tremia.

Tremia de frio ou tremia de medo? Vai-se lá saber, mas o mais certo é que se juntassem nos mesmos sítios do corpo as duas tremuras. As pernas vacilavam-lhe. Os dentes tiniam-lhe uns de encontro aos outros, enquanto balbuciava uma prece incerta:

– Que Santa-ta-ta Bár-ba-ba-ra me-me livre dos lo-bos–bos-bos…

Nem de propósito. Salta-lhe um lobo ao caminho, com os olhos em fogo e uma dentadura de escárnio e malvadez, que metia impressão.

– Vais para casa da avozinha? – perguntou-lhe o lobo, que sabia da história antiga o suficiente.

Tinham-lhe contado em pequeno, com muitos pormenores que ele já esquecera.

Do essencial ainda se lembrava. Como estava escuro, o lobo não distinguia a cor do capuz nem isso lhe importava muito.

– Levas merenda para a viagem? – insistiu o lobo, perante o silêncio do frade encapuçado.

O caminho era ruim, com lombas e pedras soltas, mas o frade não se queixou e seguiu por ele adiante, em passo cada vez mais estugado, como se a conversa não fosse com ele. O lobo à cola.

– Ó capuchinho, então tu não falas? – soprava-lhe o lobo às canelas. – O que é que tu levas de comer para a avozinha? Um frango assado? Presunto? Compota? Biscoitos?

O lobo, a dizer estas coisas, babava-se que era uma vergonha. E o frade, moita!

– A avozinha, à tua espera, já deve estar em cuidado. Queres que eu vá, à frente, avisá-la de que não tardas? Depois esperamos por ti… Onde é que ela mora?

Nesta oportunidade, o frade podia safar-se. Dizendo onde morava a avozinha, mandava o lobo descer até um posto da guarda, nos baixos da serra. Os guardas florestais, de espingarda pronta, dariam conta do resto da história…

Mas o frade não queria nem sabia mentir.

E continuou calado, as forças todas concentradas na corrida e no fio do caminho, que nunca mais chegava ao fim.

– Ó capuchinho, que pressa a tua! Quando tu chegares a casa da avó, ainda ela se zanga contigo, se te vê toda suada, nesse desalinho de menina tontelas…

Neste ponto, o frade, não aguentando mais o bafo do lobo, gritou, num desespero:

– Não tenho avó e para onde eu vou é para o convento, se Deus quiser.

A voz do frade era forte e grossa, apesar da fraqueza das pernas e dos saltos do coração. Pasmou o lobo:

– Vossa senhoria desculpe, mas eu não sabia que o capuchinho tinha professado. Ou então enganei-me eu na história…

E o lobo meteu o rabo entre as pernas e deixou o frade em paz. Já no meio do mato, apagado o fogo dos olhos, meneando a cabeça, o lobo matutava:

– Quando a gente é pequena acredita em tudo o que nos contam… Nunca supus que o capuchinho tivesse voz de trovão. Até se me puseram os pelos em pé do susto que apanhei.

E o lobo pôs-se a alisar os pelos do dorso com a língua salivosa. Se a noite desse para vê-lo, dir-se-ia um cachorrinho desapontado. Metia pena.

Por sua vez, o frade, que, derreado, já se aproximava dos muros do convento, ainda teve fôlego para lançar às estrelas a sua possante voz, num cântico de louvor a Santa Bárbara, madrinha dos caminhantes, amansadora da braveza das feras.

António Torrado

Ilustrações: Cristina Malaquias

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