A Minha Irmã-Estrela

A Minha Irmã-Estrela - Histórias de encantarEu tinha dez anos. Durante a estação seca, saía da cama sem fazer barulho, abria a porta de casa e ia para o pátio. Já perdera o medo dos fantasmas e de outros seres maléficos que, de noite, dizia-se, aterrorizavam as crianças, e as levavam para a terra dos diabos.

Sentado no meio do pátio, de cabeça bem erguida, punha-me a olhar o céu porque a minha mãe dizia que eu tinha uma irmã que morava lá em cima com os anjos!

Às vezes esperava meia hora até que, de repente, uma estrela muito pequenina começava a brilhar mais do que as outras. Observava-a com muita atenção. Via-a deslocar-se, isolar-se, sorrir para mim antes de desaparecer por uns momentos entre duas nuvens e depois voltar a aparecer.

Aquilo divertia-me imenso. Eu sorria-lhe também. Sabia que aquela estrela era a minha irmã mais velha, que morrera dois anos antes de eu ter nascido.

Dei-lhe um nome, um lindo nome: A Minha Irmã-Estrela

Sentado no pátio, punha-me a falar com ela. Não sabia bem o que lhe dizer, mas tinha a certeza de que ela gostava das minhas histórias e gostava de ouvir a minha voz. Dava-lhe notícias de casa. Contava-lhe, por exemplo, que o pai tinha trocado de mota e continuava a trabalhar para os brancos, no hotel Victory Palace. E trazia para casa livros que, lá no hotel, depois de lidos, se deitavam ao lixo.

Explicava à Minha Irmã-Estrela que, da última vez, o pai trouxera um livro estranho que quase me tinha feito chorar: era O Principezinho, um livrinho do escritor e aviador Antoine de Saint-Exupéry.

Li-o mais de dez vezes.

Era a história de alguém que se perdera muito, muito longe de qualquer lugar habitado. De repente, viu-se diante de um rapazinho, surgido do nada, que lhe pedia que desenhasse um carneiro! E eu tinha pena daquele rapaz que nunca tinha visto um carneiro…

Então, perguntei à minha irmã se, lá em cima, tinha ouvido falar daquele livro. E ela mexeu-se. Provavelmente, no céu, já todos tinham lido a história d’O Principezinho. Se calhar, cá na Terra, é que lemos pouco…

Uma noite, até confessei à Minha Irmã-Estrela que me imaginava ser aquele rapazinho que surgiu assim do nada, e gostava também que alguém me desenhasse um animal meigo… como o daquela história.

Uma semana depois, sempre a meio da noite, olhei bem para o céu.

Vi que a Minha Irmã-Estrela se mexia mais do que o habitual. Parecia que piscava. Girava sobre si, muito atarefada, quase nervosa. Porém os gestos eram precisos. Nunca a tinha visto tão excitada.

A Minha Irmã-Estrela - Histórias de encantarEstava a desenhar qualquer coisa para mim, um carneiro, só para mim!

Guardei aquele segredo. Não disse nada ao meu pai nem à minha mãe e muito menos aos meus colegas da escola. Não disse à minha Irmã-Estrela que já tinha visto carneiros e que preferia que me desenhasse outro animal mais exótico. Não queria contrariá-la, mas o certo é que o carneiro que ela desenhou parecia o animal mais adorável à face da Terra.

Ainda falava de mais coisas à Minha Irmã-Estrela. Uma vez, até lhe dei a saber que o tio Renato tinha comprado uma casa no bairro Trois-Cents. Uma casa grande, resistente, porque ele tinha dinheiro e era mais rico do que o meu pai e a minha mãe. Havia um terraço enorme onde recebia os amigos. Todas as pessoas que o iam visitar achavam aquele lugar magnífico.

Quem me dera viver com o tio Renato! A nossa casa não era sólida, era uma velha cabana de tábuas com buracos no telhado. Todos os moradores do bairro faziam troça de nós. Chovia na sala e até na minha cama. E, quando chovia, os meus pais acordavam a meio da noite, receosos, não fosse a casa ficar toda inundada.

Eu até dormia de impermeável. O meu pai prometia reparar o telhado no dia seguinte, mas logo se esquecia e só voltava a lembrar-se quando chovia de novo.

— Rogério, tinhas prometido que compunhas o telhado! — gritava a minha mãe quando a chuva começava a bater.

— Paulina, vou fazê-lo amanhã — respondia o meu pai.

— Foi o que disseste há duas semanas!

— Sim, mas amanhã vou mesmo fazer. Juro.

Mas o meu pai nunca compôs o telhado. Preferiu comprar-me outro impermeável e um par de botas. A água continuava a cair-me em cima. Eu já estava habituado. Até era nessa altura que dormia melhor… O tio Renato queria que eu fosse morar para casa dele. Os meus pais é que sempre se opuseram porque não queriam ficar sozinhos na nossa velha casa de madeira. Eu já me imaginava na casa grande do tio Renato. Dizia para comigo que ia brincar com os meus primos e dormir num quarto com telhado em bom estado. O meu pai, que era um homem orgulhoso, sentia-se vexado. E como queria que, de uma vez por todas, deixasse de sonhar com a casa do meu tio, uma vez disse-me: «Não quero que vás para casa do tio Renato. Sei que sou pobre. Queres ir morar para casa dele porque ele é rico, porque tem uma casa grande! Na vida temos de nos contentar com o que temos. Viver numa pobre cabana não significa que sejamos pobres de coração! Quando fores grande, irás compreender…»

Á noite, depois de mais de uma hora a olhar para o céu, sentia os olhos a ficarem pesados. Dormitava um pouco, até acordar com a luz que a Minha Irmã-Estrela refletia. Apercebia-me então que tinha ficado aquele tempo todo no meio do pátio, mas não podia ir para a cama sem lhe falar da minha mãe.

Falava-lhe dos berlindes que ela tinha comprado para me dar no dia dos meus anos. Eram doze, mas depressa os perdi.

Uns rapazes mais velhos do que eu tiraram-mos sob ameaça.

E como eu não queria lutar porque era magro e franzino como um pau de vassoura, deixei-os ir. A minha mãe enervou-se tanto que me disse que ia levar-me ao feiticeiro para me arranjar um amuleto que me tornasse mais forte do que aqueles rapazes que me tinham roubado os berlindes.

Ya Malonga, o feiticeiro que uma tarde fomos visitar, mandou-me comer raízes picantes e usar um bracelete com um dente de víbora, cujo resultado não se fez esperar. Os rapazes maus, quando me viam chegar, fugiam porque sabiam que ninguém pode vencer quem trouxer aquele tipo de bracelete.

A Minha Irmã-Estrela - Histórias de encantarA minha mãe pensava muito na minha defunta irmã. Andava sempre com uma fotografia dela. Mas ela só durou uma semana depois de nascer. Parece que os maus espíritos da aldeia tinham inveja da sua beleza. E como todos aqueles feiticeiros vinham rondar de noite a minha irmã, acabaram por lançar um feitiço à casa. Foi por isso que os nossos antepassados quiseram que a minha irmã fosse para o céu, para junto de Deus, ao lado dos outros anjos, para nos proteger.

Quando ela morreu, os meus pais abandonaram  a aldeia de Mouyondzi  e foram instalar-se na cidade.

Eu nasci dois anos depois deste triste acontecimento.   Mas   mesmo   assim,   os feiticeiros    da     aldeia     de     Mouyondzi vingaram-se porque lançaram os maus espíritos para dentro da barriga da minha mãe. E eu nunca mais tive irmãos nem irmãs por causa daquela maldição. Com o passar do tempo, senti que não podia guardar por mais tempo o segredo destas conversas noturnas com a Minha Irmã-Estrela.

Decidi falar a um colega da escola. Chamava-se Nestor. E como Nestor não queria acreditar em mim, fui uma noite queixar-me à minha irmã.

— Sabes, o Nestor é mau.

A Minha Irmã-Estrela ficou muito admirada:

— Porque dizes que é mau?

— Porque se senta sempre ao fundo da sala para se meter com as meninas. E depois provoca-me, mas eu não lhe faço nada.

— E é por isso que dizes que é mau?

— Também disse que sou infeliz por não ter nenhum irmão nem irmã. Mas da última vez falei-lhe de ti…

— E que te respondeu?

— Não acreditou em mim. Disse que conto tolices e que não passo de um mentiroso. Também disse que tu não existes porque uma noite ele foi para o pátio e não te viu no céu como te estou a ver agora. Disse que só viu as estrelas que qualquer pessoa pode ver durante a noite.

— E o que lhe respondeste?

— Disse que se tu não lhe apareceste naquela noite, é porque estavas cansada e a dormir com os outros anjos.

— E ele acreditou?

— Disse para parar com as mentiras, se não puxa-me as orelhas e vai falar do meu segredo a toda a escola, na hora do recreio.

— E que queres que eu faça para provar a esse Nestor que existo?

— Quero que vás ter com ele, que lhe apareças, que fales com ele como estás agora a falar comigo!

— Está bem. Diz ao Nestor que vou aparecer no domingo Tem de olhar bem para cima. Vai-me ver a mexer. Diz-lhe que desenharei para ele um cordeirinho…

O Nestor não acreditou em mim quando lhe contei a conversa que tive com a Minha Irmã-Estrela. Fartou-se de rir.

— Deves estar maluco! Não tens irmã nenhuma! A tua irmã morreu e já foi há muito!

— Não está morta, juro, Nestor, vais vê-la no domingo à noite. Ergue bem a cabeça. Vai desenhar um carneiro, um carneiro só para ti.

No domingo à noite, Nestor, levado pela curiosidade, lá saiu do quarto. Olhou para o céu. Tudo estava escuro. Nem sequer uma estrela. E depois, quando levantou mesmo bem a cabeça, viu as nuvens escuras ficarem claras e afastarem-se a pouco e pouco.

Uma estrelinha começou a piscar.

Estava sozinha porque não queria ser incomodada pelas outras estrelas.

Era a melhor forma de convencer o Nestor.

A estrela agitava-se, girava sobre ela própria.

Eu também a via, da nossa casa. O Nestor fixava o céu com muita atenção. Descobriu então um carneiro ainda mais bonito do que o que ela tinha desenhado para mim da última vez. E até mexia a cauda e a cabeça. O animal pulou alguns minutos antes de desaparecer no interior da lua que acabava de surgir, mostrando assim as outras estrelas, um pouco ciumentas.

Na segunda-feira seguinte, Nestor veio sentar-se ao pé de mim na sala de aula.

Segredou-me ao ouvido:

— Ontem à noite vi a tua irmã…Desenhou para mim um carneiro branquinho e luminoso.

Eu sorri. Acabava de ganhar um amigo.

Alguns dias mais tarde, Nestor veio ter comigo, com ar triste.

Disse-me para o acompanhar até ao recreio.

— O que é que se passa, Nestor? — perguntei. Baixou os olhos, antes de me segredar:

— Quero ver o meu irmãozinho. Morreu o ano passado, mas não o vejo no céu. Porquê?

É injusto!

Pus-lhe o braço por cima dos ombros para o consolar e disse-lhe:

— Tens de esperar algum tempo. O teu irmão vai aparecer-te, se não for num dia é noutro. Talvez esteja ainda a aprender como há de fazer. Amanhã vou dizer à Minha Irmã–Estrela que vá ter com ele. Vais ver, em breve vão aparecer os dois, disso tenho a certeza.A Minha Irmã-Estrela - Histórias de encantar

Alain Mabanckou

Ma Sœur-Étoile

Paris, Éditions du Seuil, 2010

(Tradução e adaptação)

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