A menina sereira

A menina sereira - Histórias de encantar

Era uma vez uma menina que queria ser sereia. Mas se ela nem sequer sabia nadar…

Tinha lido histórias de sereias, esses estranhos seres, metade mulheres, da cintura para cima, e metade peixes, da cintura para baixo.

Num dos seus livros predilectos descobriu a receita para transformar meninas em sereias. Era uma fórmula muito complicada que metia escamas de salmonete em pó, algas de uma espécie rara, cristais de sal, contados um por um, e outros elementos que não sei ao certo.

A menina misturou o preparado, segundo as recomendações da receita, levou-o ao lume, deixou arrefecer e, depois, bebeu-o de um trago.

Sentiu o borbulhar de um grande fervedouro dentro dela, arrotou várias vezes, os olhos encarniçaram-se-lhe e estremeceu dos pés à cabeça. Estava a transformar-se no que queria.

Não foi bem assim. Fosse da imprecisão da fórmula, fosse da falta de rigor na contagem dos cristais de sal, o certo é que a menina estava transformada numa sereia, mas ao contrário: da cintura para cima era peixe, da cintura para baixo era pessoa.

Não convinha. Não lhe convinha mesmo nada. Uma cabeça de pescada com pernas é uma coisa pouco agradável de ver. E nada elegante.

De modo que a menina teve de consultar um médico, um especialista destas situações anormais. Entre outros êxitos, já tinha curado um homem que estava a transformar-se num grande porco e um burro, muito burro, que se dizia doutor.

— Como a transmutação é muito fresca, ainda vem a tempo de acudir-lhe – disse o médico.

Deu-lhe uns comprimidos, uma injecção, umas massagens, uns esticões e umas lavagens por dentro e por fora, até que, ao fim de vários dias, a menina se viu ao espelho de novo, como era dantes. Que alívio!

Nunca mais quis ser sereia. Aquela experiência bastara-lhe.

Anda agora a aprender a nadar. De costas ou de bruços, a cortar a água da piscina, ela é uma autêntica sereia, sem deixar de ser menina.

António Torrado

Ilustrações: Cristina Malaquias

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