A lenda de Tangu Yuh

A lenda de Tangu Yuh - Contos InfantisEm Tehuantepec, no extremo sul do México, há uma peça feita expressamente para o Ano Novo, uma figurinha de barro da deusa Tangu Yuh, vestida como as mulheres zapotecas de Tehuantepec: com uma ampla saia de folhos sobre um saiote branco plissado e uma blusa com brilhantes bordados. As tranças, entrelaçadas com fitas coloridas, juntam-se no alto da cabeça como uma coroa. Os olhos são negros e brilhantes, os lábios vermelhos como tomates e tem os braços abertos para nos acolher.

Sabem porque é que Tangu Yuh é tão especial para o povo de Tehuantepec no dia de Ano Novo? Porque uma vez, há muito tempo, ela visitou-os nesse dia.

Naquela época, todos os zapotecas viviam juntos e muito felizes. Ajudavam-se em tudo, desde as sementeiras até à construção das casas. E a região sempre se tinha dividido em três partes: norte, centro e sul. Hoje em dia, tal como então, as mulheres do norte tecem bonitos tecidos que bordam com fio de seda. Os homens dessa zona eram caçadores famosos de iguanas, veados e javalis. Já os habitantes do sul eram artistas: homens e mulheres que trabalhavam o barro, a madeira e que, ainda hoje, fazem vasilhas e também tambores e flautas que tocam todas as tardes. Por fim, na região central de Tehuantepec viviam os comerciantes. As mulheres faziam as feiras e os homens levavam tecidos e peles até às terras altas das montanhas. Lá trocavam essa mercadoria por louça de barro verde vidrado e tigelas trabalhadas que os zapotecas tanto apreciavam.

Normalmente, os zapotecas viviam em paz e cooperavam uns com os outros. Mas há sempre problemas, até no paraíso.

O problema dos zapotecas era que todos se queriam sentir realmente especiais. Os oleiros do sul pensavam frequentemente: “As nossas louças são belas, mas os tecidos dos nossos irmãos do norte também são…” Os da região central diziam: “Não percebo. Porque é que temos de viajar tanto para negociar com os nossos irmãos? Acaso somos seus criados?

Contudo, no céu, os deuses estavam satisfeitos com a harmonia e tranquilidade que parecia reinar em Tehuantepec. Do alto, não viam os pensamentos obscuros e as sensações de raiva nas mentes e nos corações. Decidiram, pois, que os zapotecas deviam ser abençoados com a visita de um deles e escolheram a deusa Tangu Yuh como sua representante.

A lenda de Tangu Yuh - Contos InfantisEntão algo incrível aconteceu ao povo de Tehuantepec na véspera do Ano Novo. Quando as crianças ainda dormiam e os pais, acabados de sair da cama, ainda se espreguiçavam a preparar o pequeno-almoço, um clarão de relâmpagos atravessou o céu. Mas em vez de se ouvir os trovões que acompanham as tempestades, uma música celestial invadiu a terra. E logo estranhas criaturas de enormes asas de penas prateadas encheram o céu, tocando trombetas e outros instrumentos. Uma voz mágica ecoou no firmamento anunciando que uma deusa queria visitar o povo mais feliz da terra.

Era Tangu Yuh! Vinha deveras formosa, com o cabelo negro às ondas e uma saia brilhante de cetim. Magicamente formosa! Como descrever tamanha beleza?

Os habitantes do norte estavam admirados por ver que a deusa trazia um vestido como o que eles usavam nas festas. Mas o de Tangu Yuh brilhava como o ouro e as cores eram vivíssimas. Rodearam-na, estudando o desenho da sua veste para o gravarem na memória. Se conseguissem reproduzi-lo, ficariam também eles deslumbrantes!

Pelos vales e pelas colinas, as trombetas anunciaram aos habitantes do centro que era a sua vez. E Tangu Yuh voou pelos céus até junto deles. Não podiam acreditar que a deusa lhes falasse na língua deles! Que verdade celestial lhes poderia ensinar acerca das suas atividades comerciais? Se escutassem o conselho de uma deusa, iriam ser o povo mais rico da terra! Todos os homens e mulheres da região do centro faziam perguntas sem fim a Tangu Yuh. Ao mesmo tempo e aos gritos. Era tão grande o barulho que ninguém conseguia ouvir nada!

Por fim, a deusa desceu na região do sul. Os habitantes correram a buscar os instrumentos musicais para a receberem com trombetas ressoantes e melodias celestiais. Juntaram-se no centro da aldeia e tocaram com todas as suas forças. Tangu Yuh ficaria a saber que os habitantes da terra podiam fazer música como os deuses! Alguns tanto sopraram nas flautas que acabaram por desmaiar. Outros bateram nos tambores com tal ímpeto que as baquetas se partiram ao meio. E em procissão marcharam em direção ao centro. Que desastre!

— Olha! Vêm aí os do sul, a tocar música — diziam os do centro e do norte — Porque é que tardaram tanto?

Vendo a confusão e a desordem que havia causado, Tangu Yuh interrogou-se: “Então esta é que é a terra da harmonia e da paz que eu vim abençoar?”

Estava muito desiludida e triste. Juntou o seu exército celeste e voou diretamente para as nuvens.

Quando os habitantes da região do sul chegaram ao pé dos seus vizinhos, já a deusa regressara aos céus. Sentiram-se mal. Nem sequer tinham tido tempo de ver Tangu Yuh! E crivaram os seus vizinhos de perguntas: “Como era ela? Como eram os seus olhos? E a voz? O que é que disse?

Porém, os nortenhos tinham estado tão concentrados a copiar o desenho da sua veste que, na realidade, não tinham observado bem a deusa. E os habitantes do centro tinham-lhe feito tantas perguntas que nem se aperceberam se ela tinha respondido a alguma ou não. E o desalento passou a reinar em Tehuantepec.

Os teares calaram-se e os fornos de barro ficaram vazios. Os zapotecas, normalmente alegres e amigos de cantar, estavam cada vez mais tristes. Ficaram à espera, a observar o céu durante muitos dias, desejando que Tangu Yuh voltasse. Mas tal não aconteceu. E assim retomaram o trabalho. Os do norte recomeçaram a fiar, mas os seus tecidos eram agora um pouco mais belos depois de terem visto Tangu Yuh. Os da região central continuaram a negociar, mas tornaram-se um pouco mais justos porque se sentiam abençoados pela deusa. E os que habitavam o sul criaram um cântico, de uma suave e triste melodia, que ensinaram aos demais:

Deusa da terra,

O que não daria eu para ver os teus olhos?

O que não daria eu para ver os teus olhos?

Deusa da terra!

O tempo foi passando e todos deixaram de falar da deusa aos filhos. Não passava de um sonho, perdido na imensidão do céu. Mas todos os anos, na noite do Ano Novo, reuniam-se e cantavam o cântico de Tangu Yuh. Lenta e tristemente.

Lá no céu, os deuses ouviam aquele cantar e observavam os habitantes de Tehuantepec. Notaram que os do norte fiavam tecidos para todos. Que os do centro negociavam com todos os seus vizinhos. Não estavam convencidos de que se Tangu Yuh voltasse a visita fosse diferente. Mas Tangu Yuh julgava que sim. “Deixemos que mantenham a esperança”, disse a deusa.

E assim, numa manhã a seguir ao Ano Novo, sem ninguém esperar, a música das trombetas celestiais soou em todas as praças e uma voz troou no centro de cada povoação: “Tangu Yuh! Tangu Yuh!”, clamava. E o eco dessa voz chegou a todos os cantos da terra e do céu. Que alegria sentiram os zapotecas! E logo começaram a organizar uma festa em honra da deusa, a maior e mais bela que puderam imaginar. Desde então, o espírito de Tangu Yuh está com eles em cada Ano Novo. Antes do dia festivo, os habitantes do norte começam a tecer roupa nova. Os comerciantes do centro trazem novos alimentos das montanhas. E, em cada ano, os do sul compõem novas canções para os coros de Tangu Yuh. Mas sobretudo, os oleiros do sul fazem novas figuras da deusa em barro, e quando as peças são retiradas do forno, ouve-se um sussurro vindo de cima….

É que todos os habitantes de Tehuantepec estão convencidos de que, quando os oleiros conseguirem captar com realismo o rosto de Tanguh Yuh, ela virá novamente visitá-los. Quando voltar, já a festa estará preparada. Uma banda de música à frente de uma enorme procissão. As bandeirolas ondearão em cada teto e todas as varandas e janelas se encherão de flores. Haverá chocolate, pão doce e bebidas, valsas e músicas para bailar. Tudo e todos festejarão Tangu Yuh. Ela há de voltar, sem dúvida. Um dia.

Mary-Joan Gerson

Fiesta femenina

Cambridge, Barefoot Books, 2003

(Tradução e adaptação)

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