Lágrimas

Era uma vez uma lágrima, uma lágrima de constipação. Sabem como é: o pingo no nariz, os olhos a arder, um espirro, outro espirro, e uma lágrima que se solta pelo cantinho do olho e escorrega, bochecha abaixo…Lágrimas - Histórias de encantar

Era uma vez uma lágrima, uma lágrima de riso. Sabem do que falo: de tanto rir, tudo estala em nós e as lágrimas saltam dos olhos como fogo-de-artifício, foguetes de lágrimas…

Eram, pois, duas lágrimas. Encontraram-se, no mesmo lenço.

– Ouvi dizer que também há lágrimas de tristeza – contou uma.

– Custa-me a acreditar – disse a outra.

Era a do riso quem assim falava.

Mas uma terceira lágrima chegou ao lenço. Tão de água, tão salgada como as outras. E da fonte dos mesmos olhos. Mas esta era diferente.

– Sou uma lágrima de dor – apresentou-se ela.

Seria verdade? Às outras duas parecia impossível. Quem a soltara, constipado que estava, ainda há pouco rira até às lágrimas. Como é que se pode passar, assim tão de repente, da alegria à mágoa?

– O que aconteceu, entretanto? – quiseram saber as duas lágrimas mais antigas.

– Foi um entalão – explicou a recém-chegada. – Quem me soltou tinha ido buscar um lenço dobrado à gaveta e, entretido a rir, ao fechar, entalou um dedo.

– Há desgraças piores – comentou a lágrima da constipação.

– Prefiro nem saber – suspirou a lágrima do riso.

O resto da conversa já não acompanhei, porque eu, o dono das três lágrimas, desfiz-me do lenço molhado para dentro da roupa suja. Lenços não me faltam, brancos ou às cores e para todas as ocasiões da vida.

António Torrado

Ilustrações: Cristina Malaquias

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