Joca e o prato de sopa

1 de Maio

Dia Mundial do TrabalhadorJoca e o prato de sopa - Histórias de encantar

O Joca faz cara feia à sopa. Diz ele que se engasga.

– Não te engasgas com o bife nem com as batatas fritas…

– diz-lhe o pai. – Porque será?

A verdade é que o Joca não gosta de sopa. Já os pais estão na fruta e ele ainda a remanchar, ora uma colher ora outra, muito enfadado, diante da sopa fria.

No outro dia, foi lá jantar o tio Alfredo. Sabedor do desgosto do Joca pela sopinha, disse que ia preparar uma sopa especial, uma raridade, que tinha dado que fazer a mais de mil homens.

Fechou-se na cozinha, onde se demorou que tempos, e quando terminou o preparo anunciou:

– Todos para a mesa, para provarem a sopa que custou o trabalho de mais de mil.

Veio a sopa para os pratos e nenhuma diferença fazia das sopas já conhecidas e rejeitadas pelo paladar do Joca.

Ele assim o disse, à primeira colherada:

– Se deu que fazer a mil homens ou só deu que fazer ao tio Alfredo vale o mesmo.

– Enganas-te – atalhou o tio Alfredo. – Vamos nós fazer as contas aos homens que trabalharam para a tua sopa.

Pegou num papel e numa caneta e começou a contar:

– Primeiro, os legumes da sopa. Calculas quantas pessoas foram necessárias para lavrar a terra, mondar as ervas, regar a horta? Agora acrescenta os ferreiros que fabricaram os sachos, os mecânicos que armaram o arado, os operários que construíram o tractor, os latoeiros que fizeram os regadores…

– Agora a rega é toda mecanizada – lembrou o pai do Joca.

– Mais me ajudas – disse o tio Alfredo. – Quantos engenheiros foram necessários para inventar a rega por aspersão? Quantos operários para apurar os instrumentos de rega? Quantos homens para fabricar as bombas de água, que a vão buscar aos rios? E quem fez as mangueiras? Quem concebeu a mecânica dos óleos, que accionam as bombas de água?

Tanta gente à volta de um prato de sopa! Cem? Duzentos? Trezentos homens, cansados de trabalhar? Os pais do Joca e o tio Alfredo faziam cálculos de cabeça.

– Aos legumes, acrescenta o arroz. As mais das vezes são mulheres quem cuida dos arrozais – explicou o tio Alfredo.

– E quem trata do ensacamento? Quem acondiciona? Quem transporta? Quem distribui pelos armazéns? Quem o vende nas lojas e nos supermercados? Mais umas centenas.

– Alfredo, não te esqueças do sal – lembrou a mãe do Joca.

– Pois claro que não me esqueço dos salineiros, que levantam o sal das salinas. Sem a contribuição deles, a sopa não tinha gosto.

O tio Alfredo continuava inspirado, somando parcelas, acrescentando gente. Enquanto ele sussurrava números debruçado sobre o papel, o pai do Joca tomou-lhe o fio à meada:

– E o construtor do fogão, que cozinhou a sopa? E os fabricantes do gás, que acendeu o fogão? E os químicos que produziram o fósforo, com que se fizeram os fósforos, que acenderam o gás, que chegou aos bicos, trazido pelas condutas, escondidas no fogão, que cozinhou a sopa? – pergunta o pai do Joca, quase sem fôlego.

– E os lenhadores que cortaram as árvores, que os serradores serraram e outros mais partiram e repartiram, até chegarem a fazer os paus dos fósforos? – disse a mãe do Joca, quase a rir-se.

– Chega! Chega! – gritou o Joca. – Já comi a sopa toda.

– O que é que há a seguir?

Ia ter que esperar, porque, diante dos pais do Joca e do tio Alfredo, os pratos de sopa ainda continuavam cheios…

António Torrado

Ilustrações: Cristina Malaquias

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