Joca brinca com as suas cores

Joca brinca com as suas cores - Histórias de encantar

Perguntava o Joca:

– Mãe, de que cor são os pintainhos?

– Os pintainhos são amarelos.

O Joca ficou silencioso, mas só por um instante.

– E de que cor é aquilo que o ovo cozido tem dentro?

– Aquilo chama-se gema e a cor é amarela.

– Ó mãe, o que é isso que está a beber?

– É limonada.

– A limonada é feita com o quê, mãe?

– É feita com sumo de limão.

– E de que cor é o limão?

– Amarelo – respondeu a mãe, cheia de paciência.

O Joca engoliu o último bocado do bolo e comentou:

– Há muito amarelo por aí, não há? – e fez um gesto que abrangia a esplanada, o toldo, as pessoas que passavam na rua, os automóveis, os prédios em frente, as outras ruas, as casas das outras ruas, a cidade, o país, a terra e o céu. Enfim, gesto largo, muito largo…

A mãe esclareceu:

– Claro que há coisas amarelas, outras azuis, outras vermelhas, outras verdes. E há cores intermédias: cor de laranja, azul marinho, violeta, cor-de-rosa… As cores estão espalhadas pelo mundo, para alegria dos olhos dos meninos e dos homens. Tu ainda não conheces todas as cores, mas hás-de conhecê-las.

– Todas? – pergunta o Joca, ansioso.

Um ventinho ligeiro enfunava o toldo verde escuro da esplanada, arrepiava as folhas verdes, de um verde clarinho, das acácias, agitava uma blusa verde-garrafa, a secar numa janela. Mas há mais verdes, tantos mais que nós não contamos por preguiça…

A mãe do Joca via o que nós víamos. Por isso respondeu assim:

– Nunca conseguimos conhecer as cores todas, porque não há duas cores iguais. É fácil dizer: aquilo é azul, mas há tantos azuis… Baptizar uma cor é, afinal, muito difícil. Percebeste, Joca?

De olhos muito abertos, virados para a mãe, o Joca só os pestanejou quando, à pergunta, respondeu que não percebera.

– Vou comprar-te uma caixa de tintas – disse-lhe a mãe.

– Hás-de aprender por ti.

É o que está a acontecer. O Joca mais a sua caixa de aguarelas andam a aprender. O Joca aprende a trabalhar com os pincéis e a estender as cores sobre a folha branca. Por sua vez, as cores, que acordaram dos quadradinhos apertados, onde dormiam, aprendem a viajar sobre desenhos e paisagens.

E aprendem também – o que não é menos importante – a viver umas com as outras, a conviver, a relacionarem-se…

Põe-se o amarelo à conversa com o encarnado e aparece o cor de laranja… Está o encarnado à conversa com o verde e descobrem o castanho…

É uma festa para o Joca. É uma festa para as cores.

António Torrado

Ilustrações: Cristina Malaquias

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