Hospedes indesejáveis

Hospedes indesejáveis - Histórias de encantar

Depois do almoço, altura de menor movimento na estalagem, o senhor Pestana, protegido pelo balcão da entrada, lia tranquilamente o seu jornal. Às vezes dormitava, o que não era de censurar. Se, nos respectivos quartos, os hóspedes faziam a sua sesta, porque não havia o hospedeiro de fazer o mesmo?

Foi numa ocasião destas que uma vozinha sobre o balcão perguntou:

– Tem quartos livres?

O senhor Pestana levantou os olhos do jornal, mas não viu ninguém. Debruçou-se do balcão e espreitou para o outro lado, não fosse o cliente de baixa estatura. Nem sombra. “Adormeci, foi o que foi, e já estava a sonhar com mais hóspedes”, pensou, resignadamente, o senhor Pestana.

– Afinal, tem ou não tem quartos disponíveis? – voltou a perguntar a vozinha, já com alguma impaciência.

Quem tem voz, tem corpo. Para não prolongar o mistério, vamos já esclarecer que o corpo desta voz tinha o tamanho de uma pulga. Era efectivamente uma pulga a causadora da confusão.

– Pretende um quarto com vista para o lago? – perguntou o senhor Pestana, que não se perturbava por tão pouco.

– A vista é o menos – respondeu a pulga. – Mas queremos sossego.

– Queremos? – estranhou o senhor Pestana. – Quantas são?

– Vinte e cinco, contando comigo. É um grupo de excursionistas.

O senhor Pestana estava desolado. Não tinha quartos que chegassem. Mas não quis perder a oportunidade:

– Se coubessem todas em três quartos…

A pulga aceitou a sugestão. Não tencionavam demorar–se muito. Duas noites, se tanto.

– Também precisamos de instalações para o nosso transporte – lembrou a pulga. – Uma casota chega.

– Casota para a camioneta? – admirou-se o senhor Pestana.

A pulga riu-se. Tinha um riso fininho, irritante esta pulga.

– Nos nossos passeios, deslocamo-nos sempre de cão. Temos um cão privativo e muito felpudo, que nós guiamos para onde queremos.

O senhor Pestana começava a arrepender-se de ter dado hospedagem aquelas pulgas presumidas.

Na manhã seguinte, mais se arrependeu. Vieram ter com ele hóspedes antigos e respeitáveis queixar-se de que tinham dormido mal, assaltados durante a noite por cócegas e picadas esquisitas, inconvenientes. Estão a entender, não é verdade? Efectivamente, algumas excursionistas tinham-se enganado no número do quarto…

O senhor Pestana, muito incomodado, foi ter com a responsável pela excursão:

– Desculpem, mas não podem continuar cá. Está em jogo a reputação da minha estalagem.

As pulgas compreenderam a situação. Pagaram a conta e chamaram o transporte privativo, para mudarem de poiso. Quando foram fazer a contagem, eram vinte e oito.

O senhor Pestana preocupou-se:

– Como apareceram essas três a mais?

– Dizem que são inglesas – esclareceu a pulga chefe. – Parece que as viram num fox-terrier, pêlo de arame, de um “mister” qualquer. Agora querem acamaradar connosco. Nós não nos importamos.

O senhor Pestana também não se importava. Desde que deixassem a estalagem, era-lhe indiferente, mas pelo sim pelo não, andou a espalhar insecticida por baixo das camas de todos os quartos.

António Torrado

Ilustrações: Cristina Malaquias

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