Havemos de nos encontrar

Quando o meu pai foi juntar-se ao exército clandestino, a Marina chorou muito. A minha mãe e eu também chorámos.Havemos de nos encontrar - Histórias de encantar

— Eu não quero que o papá se esconda — soluçava a Marina.

— Não te preocupes, minha querida — disse-lhe a mãe. — O pai esconde-se porque vai lutar em segredo, juntamente com outros homens. A isso chama-se “clandestinidade”.

Tive pena da Marina, que, com cinco anos de idade, ainda ignorava muitas coisas, que eu, com oito anos, já sabia.

Antes de partir, o meu pai quis que a Marina compreendesse.

— Porque é que as pessoas não gostam de nós? — perguntara ela.

Eu também não sabia porquê, mas comportei-me como se soubesse.

— É por sermos diferentes — disse o pai. — As pessoas julgam que este país é só delas e não nos querem cá. Mas este país também é nosso. E eu vou lutar ao lado do Exército de Libertação, para impedir que nos expulsem das nossas próprias terras.

Pondo a mão no meu ombro, disse:

— Vítor, tu és agora o homem da casa. Deves ser o apoio da tua mãe! E depois foi-se embora.

HEIDE VOLTAR”, dissera o meu pai. Mas eu estava com medo de que ele voltasse e nós já não estivéssemos aqui.

A minha mãe anunciou que, em breve, também nós teríamos de partir, porque era muito perigoso ficar por mais tempo. Os nossos inimigos estavam a arrasar aldeias, varrendo tudo à sua passagem. Expulsavam os habitantes e depois incendiavam as casas. Todos os dias, ouvíamos rebentamentos ao longe e víamos fumo a elevar-se no horizonte.

E todos os dias, muitos desconhecidos que tinham abandonado a sua terra paravam no caminho para pousar as suas trouxas, partilhar o nosso repasto, e abrigar-se sob o nosso tecto. Contavam histórias terríveis acerca do que acontecera com eles e com os vizinhos, quando os soldados por lá tinham passado. Contavam isso a chorar, e sempre a olhar para a estrada, não fossem os soldados aparecerem na soleira da nossa casa.

Quando relatavam coisas demasiado horríveis, a minha mãe mandava-nos buscar água à fonte ou batatas ao quintal. Mas nós, mesmo assim, ouvíamos muita coisa… A Marina começou a chuchar no dedo e eu molhei a cama durante três dias seguidos. A minha mãe apertou-me contra ela e sossegou-me:

— Está tudo bem, Vítor. Isso não tem importância nenhuma!

Um dia, chegou uma família de tractor. Tinham um filho da minha idade, chamado Alex, e um cão que sabia fazer habilidades. Alex gostava de o exibir.

— O meu pai passou à clandestinidade — disse-lhe eu, todo orgulhoso.

Achava que ter um pai na clandestinidade era melhor do que ter um cão que soubesse fazer habilidades. Na manhã seguinte fiquei a vê-los partir. Como nós não tínhamos tractor, teríamos de ir a pé quando partíssemos. Alguns dias depois, chegou um homem com um grande saco às costas. Trazia um boião cheio de água onde nadavam dois peixes. Pousou-o na mesa, e eu tive a impressão de que aquele boião de vidro continha toda a luz do mundo.

— Não posso levá-los comigo — disse ele. — Querem ficar com eles? São peixes maravilhosos.

A minha mãe abanou a cabeça.

— Nós também vamos partir dentro de um dia ou dois.

A Marina até saltava.

— Por favor, mamã. São tão lindos! Já tenho um nome para eles. Luar e Luz. O homem suspirou.

— Vou deixá-los ficar. Um dia ou dois de vida a mais são muito importantes para um peixe. Aqui está a comida deles.

E entregou à Marina um pacote.

— Deita na água um bocadinho todos os dias.

— Está bem — prometeu a minha irmã.

Durante dois dias, deu-lhes de comer, falou com eles e até quis fazer-lhes festas com o dedo.

— Gosto tanto do Luar e da Luz — disse à nossa mãe. — Amo-os de todo o coração!

Três dias depois, a minha mãe anunciou que tínhamos de partir sem demora.

— Bem gostaria de ficar até chegar o tempo quente — disse, como se falasse apenas consigo. — Mas o frio iria fazer mal à menina.

Eu sabia que ela se estava a referir à pneumonia que a Marina tivera no ano anterior.

— Sairemos amanhã bem cedo. Só depois de passar a fronteira é que estaremos a salvo.

— E demora-se muito a chegar lá a pé? — perguntei eu, lamentando não termos um tractor.

— Sim, demora. Mas havemos de lá chegar.

— O Luar e a Luz podem ir comigo? — suplicou Marina. — Eu levo-os. Por favor, diz que sim, mamã.

— Não pode ser, Marina. Temos de os deixar cá. Mas acho que talvez encontremos o teu pai. Não seria maravilhoso?

Achei que ela procurava incutir-nos esperança, mas isso não bastou para reconfortar a Marina. Nessa noite, dormiu com a mãe e eu ouvi-a soluçar durante muito tempo, antes de se acalmar e adormecer. Deitado na cama, percorri o meu quarto com o olhar para o reter na memória: os livros nas estantes feitas pelo meu pai, um desenho meu que a minha mãe encaixilhara… Senti como seria penoso para a Marina ter de abandonar os peixes…

Quando o relógio bateu a meia-noite, levantei-me, levei o boião até ao charco, e deitei o Luar e a Luz à água. O seu reflexo ficou a brilhar nas ervas da margem e espalhei na água o resto da comida.

— Assim poderão viver mais um dia ou dois. Boa sorte! — murmurei.

Também nós precisávamos bem de sorte…

A minha mãe acordou-nos muito cedo. Depois de eu contar o que tinha feito aos peixes, fomos ver se ainda estavam vivos. A Marina bateu palmas e chamou-os pelo nome, mas o Luar e a Luz permaneceram escondidos.

— Se calhar estão a dormir — disse ela. — Estou certa de que vão adorar o nosso charco.

As nossas bagagens estavam prontas. Duas para a nossa mãe e para mim, e uma pequenina para a Marina. O dia começava a dissipar as sombras da noite, que ainda enchiam o caminho naquela manhã. Olhei para trás pela derradeira vez, enquanto nos afastávamos. Lá ficava o nosso carvalho, o pequeno quintal, e o jardim da minha mãe onde as flores, ainda escondidas na terra, esperavam a Primavera. Será que iríamos voltar algum dia? O nosso pai saberia onde nos encontrar?

Caminhámos durante muito tempo… Íamos muito devagar e havia pessoas que nos ultrapassavam. Outras caminhavam ao nosso lado e o que narravam fazia-nos crer que tínhamos feito bem em partir, antes de sofrer um tal horror. Andámos, andámos… A dado momento, um homem com um carrinho de mão deixou que a Marina viajasse nele durante um dia. Até nos levou as bagagens. Esse foi o melhor dia de marcha que tivemos.

À noite, dormíamos nos campos ou nas quintas. Numa tarde em que chovia bastante, tivemos a sorte de encontrar uma casa abandonada. Nessa noite, dormimos bem. Noutro dia, alguns homens do Exército de Libertação pararam e partilharam o seu frango connosco. Nesse dia, pudemos comer fricassé!

— Vocês conhecem o nosso pai? — perguntou-lhes a Marina.

Os homens disseram que não.

Continuávamos a procurar o nosso pai, julgando vê-lo, por vezes. Mas era sempre alguém que se parecia com ele. Às vezes, a Marina e eu pedíamos à nossa mãe para fazer uma paragem, porque nos sentíamos incapazes de andar mais. Felizmente que a coragem da nossa mãe nos ajudava a seguir em frente. Certa manhã, ouvimos alguém gritar:

— Já se vê a fronteira! Estamos perto!

Toda a coluna vibrou com as aclamações das pessoas, que gritaram de alegria até ficarem roucas.

Depois de passarmos a fronteira, a viagem decorreu bem melhor. Havia tendas para ficar, comida para comer, e onde aquecê-la. Podia-se lavar roupa e tomar banho. Havia muitas crianças no campo de refugiados. Tornei-me amigo de dois rapazes, Behar e Admir, e brincávamos juntos. Deixaram-nos pintar as iniciais do Exército de Libertação num muro, o que nos fez sentir como se estivéssemos a lutar ao lado deles, para libertar o nosso país do exército ocupante.

Já estávamos neste campo há muito tempo quando o nosso pai nos encontrou. Um dia levantei os olhos e vi-o. Sujo, magro… mas bonito! A Marina e eu gritámos de alegria. Ele pegou em nós e cobriu-nos de beijos. Vi que as lágrimas corriam pela cara da minha mãe. O meu pai abraçou-a e acariciou-lhe os cabelos, enquanto lhe murmurava palavras ao ouvido. Ela afagou o rosto dele com a ponta dos dedos, como que a certificar-se de que não estava a sonhar.

— É mesmo verdade que estás aqui?

— Estou! — respondeu o meu pai, docemente. — Só por milagre é que vos encontrei. Procurei-vos por todo o lado!

A Marina agarrou-se-lhe às pernas.

— Papá, vais ficar connosco?

— Sim, minha querida.

O meu pai sorriu. Eu não sabia como, mas bastava-me saber que ele iria ficar.

— Podemos voltar para casa, pai? — perguntei-lhe.

— Ainda não, Vítor. Daqui a algum tempo.

Foi preciso esperar ainda longos meses até nos dizerem que podíamos regressar sem perigo. Nessa noite, dançámos todos à volta das tendas. Foi uma festa alegre e linda.

No dia seguinte, pela manhã, começou a longa caminhada que nos levaria de regresso a casa. Mas foi uma caminhada triste, já que, pelo caminho, não vimos casas, quintas ou animais. Apenas ruínas e grandes buracos onde as bombas tinham caído.

Caminhámos durante muito tempo…

Eu sabia que a nossa casa já não existiria, mas recusava-me a aceitá-lo. A Marina, sempre às costas do nosso pai, não parava de tagarelar alegremente. Era a única que pensava que voltaríamos à mesma vida de antes.

Quando vi o carvalho ainda de pé, o meu coração rejubilou. Cheio de esperança, apertei a mão da minha mãe. Poderia ser que tudo estivesse bem. Mas logo vi que a nossa casa já não existia. Restavam apenas pedaços de paredes ainda em pé. No jardim da minha mãe, algumas flores começavam a querer despontar. O resto era um deserto lunar.

A Marina foi a primeira a pensar nos peixes. Tirou um bocado de pão duro do saco da nossa mãe e correu para o charco. Fomos todos atrás dela para a consolar… Mas o nosso charco brilhava e nele nadavam milhares de peixes! A minha mãe levou a mão ao peito.

— O Luar, a Luz, os seus filhos, e os filhos dos seus filhos — exclamou ela, emocionada.

— Encontraram de comer — disse o meu pai.

A Marina agarrou a mão dele:

— São muito inteligentes!

— Sobreviveram, apesar de tudo e contra tudo — murmurou a minha mãe. “Sobreviveram. Tal como nós”, pensei eu.

— Luz! Luar! — gritou a Marina, ajoelhada, atirando migalhas de pão para a água. Os peixes, uns atrás dos outros, vieram ter com ela à beira do charco.

— Vejam! O Luar é este… e a Luz está ali! — disse, segura de si.

O que nos fez rir, porque os peixes eram todos exactamente iguais.

— Sentiram falta de mim? — perguntou-lhes a Marina. — Eu tive muitas saudades vossas.

Debrucei-me sobre a água.

— Estamos de volta — anunciei à Luz e ao Luar. — Regressámos a casa!

◊◊◊◊◊

NOTA DO AUTOR

Existe, na Bósnia-Herzegovina, uma aldeia chamada Jezero. Nesta aldeia, em 1990, antes do começo da guerra na Bósnia, um homem chamado Smajo Malkoc ofereceu aos filhos um aquário com dois peixes dourados. Quando a guerra rebentou, a família de Smajo Malkoc foi obrigada a fugir das forças sérvio-bósnias. Na esperança de salvar os dois peixes, a mulher deitou-os ao lago que ficava à beira de casa deles.

Quando regressaram, em 1995, no fim da guerra, tanto a casa como a aldeia de Jezero não eram mais do que ruínas. O lago, pelo contrário, ganhara vida. Tinha-se enchido de inumeráveis peixes cujos reflexos brilhavam na água. Entregues à sua sorte, os animaizinhos tinham conseguido encontrar alimento nas profundidades do lago, e tinham-se multiplicado.

A fama destes peixes excepcionais espalhou-se e as pessoas das aldeias em redor acorreram para os ver e comprar. Em breve se iria provar que estes peixes não eram apenas belos, mas que tinham um valor acrescido. Trouxeram prosperidade e celebridade à família Malkoc, bem como a todos os habitantes de Jezero, e a aldeia pôde ser reconstruída.

É, pois, esta história mágica e verídica que está na origem deste livro. Contudo a minha versão não se dirige apenas a estas pessoas ou aos habitantes deste país. Dirige-se a todos aqueles que no mundo, obrigados um dia a deixar tudo, souberam encontrar um raio de esperança nas situações mais difíceis.

Eve Bunting

On se retrouvera

Paris, Syros Jeunesse, 2001

(Tradução e adaptação)

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.