A guerra do telemóvel

A guerra do telemóvel - Contos InfantisDiana e Clara eram amigas inseparáveis, até terem telemóvel.

Há já algum tempo que Clara se orgulhava de ter um telemóvel. Um tio deu-lho quando fez doze anos e, desde então, os pais carregam-lhe cinco euros por semana, para poder mandar mensagens aos amigos.

Por isso, Diana saltou de alegria no dia em que, por ter conseguido excelentes notas no final do ano, a irmã mais velha lhe ofereceu um lindo telemóvel de cor violeta, cujo ecrã se enchia de flores sempre que um toque de campainhas indicava a chegada de uma mensagem.

E o melhor de tudo é que agora podia estar em contacto com Clara, que recebeu a notícia com alegria. Aparentemente. Quando compararam os telemóveis, viram logo que o de Diana era mais pequeno, muito mais moderno e fixe. Mas é claro que entre duas grandes amigas isso não tem importância, não é verdade? As duas registaram os respectivos números na agenda e combinaram que Diana enviaria a primeira mensagem nessa mesma noite, antes de se deitar.

Diana chegou a casa muito contente e esperou pela hora combinada. A sua primeira mensagem iria voar até um satélite, e regressaria à Terra para entrar no telemóvel de Clara. Num par de segundos, as suas palavras iriam viajar milhares de quilómetros para lá e para cá. Enfim, maravilhas da ciência… Mas o que ela não poderia imaginar era que esse aparelho tão sofisticado e encantador iria provocar uma guerra com a sua melhor amiga!

Logo depois das nove e meia da noite, tal como combinado, Diana enviou a sua primeira mensagem: “Boa noite, amiguinha. Gostas do meu telemóvel novo? Daqui em diante vamos estar sempre em contacto. Um grande beijo.”

Mal Diana carregou na tecla “Enviar”, ficou como que hipnotizada diante do ecrã. Era incrível como tudo era tão simples! Já ia a meter-se na cama, à espera da resposta, quando, em menos de um minuto, o ecrã se encheu de flores de todas as cores. Uma breve melodia de campainhas indicava que chegara uma mensagem.

Emocionada, Diana seleccionou “Mensagens” e, de seguida, “Caixa de entrada”. E foi isto que leu: “Boa noite, engraçadinha. Pára de te armar. O teu telemóvel não é único no mundo. Chau.”

Diana ficou gelada. Não era costume a amiga tratá-la assim. E tudo isto por ela ter um telemóvel mais moderno! Nunca se tinha apercebido de que a amiga fosse tão susceptível. Meteu-se na cama esperando que, no dia seguinte, o amuo de Clara já tivesse passado. A amiga pedir-lhe-ia desculpa e tudo voltaria ao normal.

Contudo, no dia seguinte, na escola, Clara não falou com Diana. Sentou-se duas filas à frente da habitual e, durante toda a aula, não lhe dirigiu um só olhar. “Como é possível ter ficado amuada por causa de um telemóvel?”, interrogava-se Diana, que também era um tanto orgulhosa. E, durante toda a manhã, não fez nenhum esforço por se abeirar de Clara e fazer as pazes.

Depois do almoço, voltaram a encontrar-se na aula de Ciências, mas Clara continuava na mesma. Parecia aborrecidíssima! “Quem deveria ficar aborrecida era eu. Afinal, ela chamou-me engraçadinha e acusou-me de andar a armar-me com o telemóvel. Que teimosa!” Diana saiu furiosa da escola, mas, pelo caminho, foi pensando que não poderia perder uma amizade tão importante por causa de uma insignificância daquelas.

Por isso, engoliu o orgulho e, depois do lanche, decidiu mandar uma mensagem a Clara: “O que se passa contigo? Porque ficaste assim, só por eu ter um telemóvel novo?” A resposta não se fez esperar: “O que se passa é que me rio da tua cara, palhaça. E faz do telemóvel o que quiseres…”

Diana ficou petrificada. Teve vontade de chorar de raiva. Quem se julgava ela? Com que direito a insultava daquela maneira? Aquilo era uma verdadeira declaração de guerra! As mãos tremiam-lhe ao escrever: “És uma invejosa e uma parva. Não quero saber mais de ti. Percebeste bem?”

Ao enviar a mensagem, de tão aborrecida que estava, até deu um pontapé na porta do quarto. Mas as campainhas a anunciar a entrada de nova mensagem reclamaram de novo a sua atenção: “Não posso ter inveja de alguém tão reles como tu. Metes-me nojo! Será um prazer nunca mais voltar a saber nada de ti.” Ao ler isto, Diana soltou um grito de indignação. Depois, estendeu-se na cama e chorou toda a tarde, jurando nunca mais gastar um cêntimo com aquela desnaturada que deixara de ser sua amiga.

Passaram-se alguns dias e Diana e Clara continuavam sem trocar palavra e nem sequer se olhavam. Tal era a raiva entre elas, que parecia nunca se terem conhecido.

Sempre que via Clara, Diana enfurecia-se ao lembrar-se dos insultos que recebera. Contudo, fazia um esforço para se mostrar serena e indiferente. Conforme diz o ditado: “Não há maior desprezo do que não mostrar apreço”. A guerra do telemóvel já durava há uma semana, quando, no final de uma aula, Clara veio docilmente ter com uma surpreendida Diana e sentar-se à sua beira.

— O que queres tu agora? — perguntou Diana, sem sequer levantar os olhos. Clara respondeu:

— Julgo que nos estamos a portar como duas palermas. Se alguém devia ficar aborrecida era eu!

— Como assim? — contrapôs Diana. — Como podes culpar-me depois de me teres insultado tanto?

— Insultado, eu? Quando é que eu te insultei? Estás a sonhar… Eu é que me senti insultada. Ainda estou à espera da mensagem que me prometeste!

Diana ficou sem fala. Agora, sim, é que não entendia mesmo nada. Contra-atacou, rubra de indignação:

— Mandei-te a mensagem e respondeste-me que eu era uma engraçadinha e uma atrasada! E isto ainda foi o menos ofensivo de tudo o que me tens dito!

— O que estás para aí a dizer? — perguntou Clara, pasmada.

Depois, a sua expressão foi passando da confusão para a alegria.

— Para que número tens enviado as mensagens?

Sem entender porquê, Diana lá lhe repetiu de má vontade o número que Clara lhe dera.

— Há aí um engano — exclamou Clara, triunfante. — Apontaste mal o último algarismo. Não é um 4, é um 3. Vê só! Parece que, afinal, andaste à guerra com uma desconhecida!

Ao darem-se conta do engano, ambas tiveram um ataque de riso. Depois abraçaram-se e fizeram as pazes. E, a partir daí, juraram que as coisas importantes, só as diriam cara a cara!

Dr. Eduard Estivill; Montse Domènech

Cuentos para crecer: Historias mágicas para educar con valores Barcelona, Editorial Planeta, 2006

(Tradução e adaptação)

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