Gatusco

Era uma vez um gatinho tão pequeno que cabia, à vontade, na palma da mão de um homem. Dera-o à luz uma velha gata, que vivia com a Mulher Sábia no topo de uma colina verde e redonda.Gatusco - Histórias de encantar

— O último é, muitas vezes, o melhor — disse a Mulher Sábia à mãe.

Mal ele nasceu, a mulher pôs-lhe o nome de “Gatusco”. A razão do nome fora ditada pela semelhança da cauda do bichinho com as espigas de aveleira que dançavam diante da sua casa, espigas essas que o povo conhecia como “gatuscos”.

No sopé da colina verde e redonda, vivia um camponês com a mulher, ocupando-se ambos da terra em seu redor. No interior da colina, vivia o Povo Pequeno, que não nasce nem morre, antes vive eternamente. O camponês e a mulher só tinham uma filha, chamada Carrie, que tinha nascido quando os pais já eram de idade avançada.Gatusco - Histórias de encantar

Quando o gatinho já tinha idade para sair de casa, a Mulher Sábia deu-o de presente à camponesa. E, enquanto desciam a colina, a Mulher Sábia ia dizendo ao bichinho que deveria tomar conta da menina, pois tinha visto no céu da noite em que ela nascera que algum mal lhe haveria de acontecer. Carrie e Gatusco gostaram logo um do outro e, para onde um ia, logo o outro o seguia. Brincaram juntos durante todo o verão. Quando anoitecia, adormeciam juntos. Lado a lado, os caracóis ruivos da menina e o pelo dourado do gatinho partilhavam a mesma almofada.

Um dia, era o outono chegado, Carrie foi apanhar amoras com a mãe e levou o bichinho no bolso. Com o decorrer das horas, a menina foi sentindo-se cada vez mais cansada e a mãe deitou-a no meio dos arbustos, recomendando a Gatusco que a guardasse. Este enrolou-se junto de Carrie e ronronou de satisfação. Contudo, à medida que o tempo passava e as sombras se adensavam, começou a ficar irrequieto e decidiu brincar com uma folha que a respiração da menina agitava. Nesse mesmo momento, uma borboleta pousou no cabelo dourado da criança. Porém, como não encontrou nele nenhuma flor, esvoaçou de novo para longe. Sem hesitar, Gatusco seguiu-a, saltando de arbusto em espinheiro, vagueando e rebolando por entre as ervas ralas, com os olhos fixos apenas nas asas que brilhavam por entre raios de luz. E, enquanto caminhava pelo vale, esqueceu-se completamente da menina.Gatusco - Histórias de encantar

Foi então que um estranho silêncio se instalou e Gatusco ouviu os acordes suaves de uma música que provinha do interior da colina. O pelo eriçou-se de medo e, à medida que o som se tornava mais audível, o animal escondeu-se nas sombras.

O Povo Pequeno saiu de dentro da colina verde para a luz do entardecer. Eram pálidos, belos e riam juntos. Alguns dançavam ao som da música estranha e melodiosa. No meio deles, o rei montava um pequeno pónei e junto dele estava a rainha, que tinha o cabelo preto como o céu noturno e os olhos verdes como a água profunda.

Gatusco viu, apreensivo, que se dirigiam para junto da menina adormecida. Correu atrás deles, mas as suas pernas curtinhas não conseguiam acompanhá-los. Entraram no meio do nevoeiro e deixaram de ser vistos. A música que os acompanhara tornou-se inaudível e Gatusco encontrou-se sozinho no meio do silêncio.

O gatinho continuou a correr, por cima de pedras rugosas e por entre espinhos afiados, com medo de que a menina tivesse desaparecido. Quando chegou, por fim, junto do local onde a deixara, e viu que ela continuava a dormir, ronronou de satisfação e chegou-se a ela. Mas, mal tocou na sua pele, reparou que estava estranhamente fria. E, quando Carrie se mexeu, soltou um queixume e afastou-o.

A mãe veio ver o que se passava e, pensando que a filha tinha apanhado frio devido ao nevoeiro do entardecer, embrulhou-a num xaile e levou-a para casa. Em seguida, pediu ao marido que fosse buscar a Mulher Sábia, que logo veio. Depois de observar longamente a menina, a Mulher Sábia suspirou, triste, e disse:

— A menina foi substituída por uma criança enfeitiçada. Vai fanar-se como as folhas de outono e, lá pelo Natal, já não tereis filha alguma.

Ouvindo isto, a mãe exclamou, aflita:

— Onde está a minha filha?

— Foi levada pelo Povo Pequeno, que mora debaixo da colina verde.Gatusco - Histórias de encantar

A camponesa começou a chorar. O marido perguntou, perdido:

— Mas que mal lhes fizemos nós para nos causarem tal desgosto?

— Não vos querem mal — assegurou a Mulher Sábia, com doçura. — Como são imortais e não têm filhos, desconhecem os laços que vos ligam. Quando as noites começam a ficar longas, anseiam por novas companhias.

— Irei ter com eles, mostrar-lhes-ei a nossa tristeza e implorarei o regresso da nossa filha — disse o camponês.

A Mulher Sábia abanou a cabeça:Gatusco - Histórias de encantar

— Não há ser humano capaz de encontrar a porta mágica que conduz ao interior da colina verde.

E sentou-se para pensar, enquanto o homem tentava, em vão, confortar a mulher.

Foi então que Gatusco, que se escondera, envergonhado, saiu de baixo das saias da Mulher Sábia, saltou para os joelhos dela, e fixou-a com os olhos dourados, nos quais ela pôde ler os seus pensamentos. A Mulher Sábia sorriu e disse:

— Gatusco irá procurá-la. Devido ao seu descuido, a vossa filha foi levada. Com a sua coragem há de resgatá-la.

— O que poderá fazer um gato tão pequeno? — admirou-se o camponês.

— É o seu tamanho que nos será útil — disse a Mulher Sábia.

— Para ele, até a mais pequena lura de coelho é uma estrada larga para aceder à colina verde.

— E se ele a encontrar, como vai convencê-los a devolver a nossa filha? — quis saber o camponês.

— Naquelas terras encantadas, os animais falam e são compreendidos — respondeu a Mulher Sábia.

Dito isto, colocou Gatusco ao ombro e começou a subir a colina verde. À medida que caminhava, ia buscando inspiração dentro de si. Finalmente, disse:

— Há dois riachos que correm para dentro da terra escondida. Um vagueia por entre as aveleiras e as suas águas contêm sabedoria. O outro desce da cascata do salgueiro e contém as águas do esquecimento. Se te oferecerem de beber, não aceites. Deves beber apenas do riacho da aveleira.Gatusco - Histórias de encantar

A Mulher Sábia depôs Gatusco junto de uma toca de coelho e fez-lhe uma última recomendação:

— A ninguém digas o teu nome verdadeiro, pois, se o pronunciares, eles têm formas de te manter prisoneiro para sempre.

Gatusco entrou com coragem no buraco sombrio e vagueou longamente pela escuridão labiríntica, que cheirava a terra. A dada altura, viu um raio de luz diante de si e deparou com um mundo belo e estranho. A colina albergava vastas cavernas, com paredes brilhantes, embutidas de ouro e prata, e lagos profundos de águas verdes imóveis.Gatusco - Histórias de encantar

O gatito continuou a caminhar em direção ao centro da colina e, finalmente, chegou junto de um esplêndido palácio todo iluminado e coberto de pedras preciosas. O Rei do Povo Pequeno celebrava uma festa. Havia música, danças e repastos sumptuosos. Junto dele, a Rainha do Povo Pequeno tinha a menina sentada nos joelhos.

Coberto pelas sombras, Gatusco via que a rainha gostava da criança. Acariciava-lhe os cabelos e dava-lhe os pedacinhos melhores a comer. Viu, também, que Carrie gostava da rainha, pois tentava tocar-lhe no rosto com as mãozinhas pequenas. Foi aí que percebeu que a menina bebera das águas do riacho do salgueiro e que não se recordava do seu verdadeiro lar.

Quando o Povo Pequeno viu Gatusco, ficou encantado com a estranheza do seu tamanho. A rainha pegou nele e colocou-o nos joelhos da criança. Embora Carrie não se lembrasse do gatinho, encontrou nele um companheiro de brincadeiras a seu gosto, o que fez com que os reis começassem a apreciá-lo. Gatusco viu que podia falar com eles e que eles o compreendiam. Reparou, também, que a vida no país do interior da colina verde era boa.Gatusco - Histórias de encantar

Contudo, nunca se esquecia de beber do riacho da aveleira e nunca dizia o seu nome, o que fez com que o rei percebesse que ele não desejava ficar a morar entre eles. Foi então que o soberano se deu conta de que a intenção de Gatusco era levar embora a criança. Mas sorriu, pois nem lhe passava pela cabeça que um gato tão pequeno pudesse vencer o seu poder tão vasto.

O Povo Pequeno gostava de adivinhas e passava longos serões a colocá-las e a decifrá-las. Gatusco provou ser exímio no jogo e o rei começou a gostar tanto dele como a rainha gostava de Carrie. Perturbava-o que o bichinho não dissesse o nome, o que significava que podia ir embora quando quisesse. Assim, enquanto Gatusco e Carrie dormiam, procurou conselho junto da rainha sobre a melhor forma de poderem conservar o gato junto deles.

No dia seguinte, ofereceram um grande banquete para celebrar o ano novo, altura em que os dias começavam a ficar mais longos e as noites mais curtas. Depois da celebração, começaram novamente a jogar às adivinhas. O Povo Pequeno era inteligente e engraçado, mas foi Gatusco quem resolveu os enigmas.

O rei sorriu e os seus olhos escuros brilharam de troça na face pálida. Estendeu a sua taça de prata para Gatusco e perguntou-lhe:

— Não bebes connosco, em sinal da nossa amizade? Como o gato não bebeu, perguntou-lhe:

— E nem sequer nos dizes como te chamas?

Quando Gatusco declinou responder, o rei comentou:

— Cremos que vieste buscar a criança. O gatito disse a verdade:

— Vim, Senhor, de facto. Foi por descuido meu que a encontraste sozinha e a mãe não cessa de chorar a sua perda.

— E assim choraria a minha rainha se a levasses para longe de nós. E eu, Pequeno Gato, ficaria deveras triste se perdesse a tua companhia nas longas noites de inverno. Porque não bebes connosco e esqueces o passado? Acaso será a vida aqui tão má que queiras ir embora?

— A vida aqui é deveras agradável — concordou Gatusco — mas não posso descansar enquanto não tiver corrigido o mal que fiz.Gatusco - Histórias de encantar

Durante algum tempo, o rei franziu o sobrolho e fez-se silêncio em seu redor. De repente, sorriu, e foi como se o sol brilhasse por entre as nuvens.

— Terás, então, de enfrentar um desafio, Pequeno Gato. Colocar-te-emos três enigmas. Se não conseguires decifrá-los todos, beberás da minha taça e esquecerás o passado. Mas, se os resolveres todos, a criança será libertada.

Gatusco olhou para a rainha, pensando que ela objetaria. Contudo, a rainha sorria, com a face encostada à da menina, e mantinha o olhar baixo. O sorriso dela alertou Gatusco, que sentiu medo por instantes. Porém, como não havia outra saída, concordou com a proposta do rei.

— Eis, pois, a primeira adivinha: Embora não seja alta, os meus ramos mágicos varrem o céu.

Gatusco refletiu longamente e respondeu:

— A única árvore que é baixa e mágica é o SALGUEIRO.

— Tens razão! — exclamou o rei a rir.

O Povo Pequeno ficou espantado com a rapidez de raciocínio de Gatusco.

— Eis a segunda adivinha: A minha cor tinge o prado de ouro e os meus frutos contêm um tesouro.

Desta vez, Gatusco demorou mais tempo a responder. Por fim, disse:

— A árvore cujos frutos são da cor do ouro e concedem sabedoria é a AVELEIRA.

— És um adversário à altura, Pequeno Gato — exclamou o rei, no que foi apoiado por todo o povo.

A rainha tomou a palavra e, olhando para a menina com doçura, pediu:

— Deixai que a terceira adivinha seja minha, Senhor.

— Como quiserdes, Senhora.

Embora Carrie tivesse esquecido Gatusco, havia um nome que ela murmurava, por vezes, enquanto dormia, e a rainha tinha-o ouvido. Mirando o gatinho com os olhos verdes e profundos, disse:

— Eis a terceira adivinha: Ratos caço, pequeno sou.

Foi então que a esperança morreu no coração de Gatusco, pois sabia que responder à adivinha equivalia a dizer o seu nome. A menina seria livre, mas ele ficaria para sempre prisioneiro do Povo Pequeno.

Hesitou e a rainha fixou-o por debaixo das pestanas escuras. Na mente dela, Gatusco não se entregaria para salvar a criança.

Mas o animal sabia que só teria paz se pagasse o preço pelo seu descuido.

— Senhora, revelarei o que queria manter secreto. A resposta é GATUSCO e deveis libertar a criança.

Quando ouviu estas palavras, a rainha soltou um grito e a menina também. Carrie gritava de alegria, pois lembrava-se do seu pequeno amigo. A rainha gritava de desgosto, pois ia perder a criança. E o Rei do Pequeno Povo viu-se no meio de um enigma que não conseguia resolver.

Se a menina fosse libertada, a rainha ficaria desgostosa. Contudo, ele assim prometera. Se Gatusco ficasse com eles, a menina ficaria triste, pois amava o bichinho e não queria separar-se dele. Se ambos fossem embora, quão longas seriam as noites de inverno do rei, com a tristeza da rainha e sem um companheiro para o jogo das adivinhas…

— Decifraste três enigmas, Gatusco — disse o rei, finalmente. — Queres tentar um quarto?

— Sou apenas um gato, Senhor. Tenho um raciocínio rápido, mas a vossa última adivinha vai requerer sabedoria. Visitemos a Mulher Sábia.

E assim fizeram. O Povo Pequeno saiu do interior da colina e foram até casa da Mulher Sábia, no topo da colina verde. Depois de lhe apresentarem a adivinha, a mulher ficou em silêncio durante bastante tempo.

Por fim, dirigiu-se à rainha:

— Embora o vosso desgosto seja grande, maior é o desgosto da mãe que deu à luz a menina. Carrie regressará para junto dela.

Uma lágrima escorreu pela face da rainha.

— Não choreis, porque nem tudo está perdido.

A Mulher Sábia virou-se para o rei e disse:

— Sem a companhia do pequeno gato, a criança ficará triste. Ele tem, pois, de ir com ela. Embora tivesse poder para o reter, o rei concordou em abdicar de Gatusco.

— A vossa renúncia é nobre. Porque abdicastes de ambos, a criança e o gatinho irão visitar-vos quando as noites se tornam mais longas. Não os prendereis com a vossa magia e, assim que as primeiras espigas de aveleira dançarem ao vento, voltarão à sua terra.

A alegria regressou ao coração da rainha mal ouviu estas palavras. Embora ficasse triste por deixar Carrie, sabia que voltaria a vê-la. Sob o céu estrelado, fez a viagem de regresso ao interior da colina verde, acompanhada pelo rei e pelo Povo Pequeno.

A Mulher Sábia colocou Gatusco ao ombro e levou a criança para casa.

O camponês e a mulher viram-nos descer a colina e correram a abraçá-los.Gatusco - Histórias de encantar

Quando ouviram a decisão da Mulher Sábia, a alegria que sentiam fê-los aceitar com generosidade a partilha da filha e do gato.

A partir desse dia, tudo correu bem na vida da família.

Viviam em paz com Carrie, Gatusco e o Povo Pequeno, e sua quinta floresceu.

Antonia Barber

Catkin

London, Walker Books, 2000

(Tradução e adaptação)

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