A fuga dos ratinhos

A fuga dos ratinhos - Histórias de encantarNa Quinta das Papoilas o Verão foi quente e longo. O trigo dourado brilhava e baloiçava ao sol de Setembro, sussurrando aos animais que vagueavam à procura de bagas e frutos secos para o frio Inverno que se aproximava.

Foi então que a calma da tarde de Outono foi quebrada por um ruído assustador que crescia, crescia e depois desaparecia.

No Campo Amarelo até o Arganaz acordou, espreguiçou-se e esfregou os olhos, pondo a cabeça fora do ninho. Os outros animais juntaram-se à sua volta, preocupados.

— O que aconteceu? — perguntou o Arganaz.

— Oh, vai dormir outra vez — disse o Musaranho — é para isso que serves, para ressonar o dia todo.

Finalmente anoiteceu e o ruído parou. O Arganaz estava agora completamente acordado e saiu do ninho quando chegou a correr, quase sem fôlego, o Ratinho-do-Campo.

Rapidamente, uma pequena multidão juntou-se à sua volta.

— O Grande Monstro Vermelho está a cortar todo o trigo — disse o Ratinho-do-Campo, ofegante. — Todas as nossas casas desapareceram e o Coelho ouviu o lavrador dizer que a seguir vem aqui para o Campo Amarelo!

— Oh não! O que havemos de fazer? — lamentou-se o Rato-Silvestre.

— Vamos ficar sem abrigo! — soluçou o Rato-das-Searas.

— Esperem — disse o Arganaz. — Tenho uma ideia.

— Tu?! — riu-se o Musaranho. — És demasiado dorminhoco e preguiçoso para teres alguma ideia de jeito.

— Chiu — disse o Rato-das-Searas. — Está a anoitecer, que é quando os arganazes acordam! E assim, enquanto a lua cheia iluminava o Campo Amarelo, o Arganaz explicou o seu plano…

— Não sei se resulta, Arganaz — comentou o Ratinho do Campo, abanando a cabeça.

— Parece-me perigoso! — resmungou o Musaranho.

— Não temos muita escolha — disse o Rato-Silvestre. — É um plano arriscado, mas não podemos ficar aqui.

A fuga dos ratinhos - Histórias de encantar

Não havia tempo a perder. Relutantemente e cheios de tristeza, os animaizinhos do Campo Amarelo recolheram as suas coisas e os alimentos que tinham armazenado e partiram através dos campos, rumo ao desconhecido…

O pequeno grupo ainda não se tinha afastado muito quando o Musaranho subitamente parou e balbuciou, assustado:

— Um te-te-texugo! — apontou ele, a tremer. O Arganaz sorriu:

— Não te preocupes. Eu conheço bem o Texugo, é um amigo nocturno.

De facto, o Texugo virou-se e acenou, cumprimentando delicadamente o grupo. E lá seguiu o seu caminho, fungando, à procura de minhocas.

Mais adiante, encontraram um riacho. A água corria em torrentes, borbulhando e salpicando tudo. Os viajantes olharam para a água, desesperados; era demasiado perigoso tentar atravessar.

Foi quando o Musaranho avançou e disse:

— Deixem isto comigo!

— Apresento-vos o meu primo, o Musaranho-de-Água — exclamou ele, orgulhoso.

O Musaranho-de-Água acenou silenciosamente e depois assobiou. Os animaizinhos olharam uns para os outros sem compreender. Subitamente, uma grande cabeça apareceu na água. Uma lontra! Os mais pequeninos esconderam-se atrás dos mais crescidos, com medo, mas não havia motivo para preocupação.

— Precisam de boleia? — perguntou a Lontra. — Subam!

Um a um, subiram para as costas da Lontra. O Arganaz e o Rato-Silvestre ajudaram os ratinhos do campo com a bagagem. Todos eles se agarraram muito bem, enquanto a Lontra nadava rapidamente e atravessava o riacho. Já a salvo na outra margem, o pequeno grupo agradeceu à Lontra e seguiu o seu caminho.A fuga dos ratinhos - Histórias de encantarMantiveram-se ao abrigo da escuridão da sebe, enquanto o Arganaz subia ao ramo de uma árvore e olhava à sua volta. Foi então que viu um clarão branco entre as folhas.

A fuga dos ratinhos - Histórias de encantar— Cuidado, uma coruja-dos-celeiros! — disse ele baixinho para os amigos que estavam em baixo. Eles ficaram gelados de medo. Acima deles, a coruja deslizou silenciosamente num voo majestoso sob o luar e dirigiu-se para o seu ninho. Eles suspenderam a respiração, aterrados…… mas ela nem olhou para baixo, para o pequeno grupo.

Já nascia o dia quando o estranho grupo chegou a uma clareira atrás da Casa do Lavrador. Ali, como o Arganaz tinha prometido, estava um pequeno e velho barracão — a casa da lenha!

Assim que se aproximaram, uma família de ratinhos veio a correr recebê-los.

— Apresento-vos os meus primos! — disse o Arganaz.

— Sejam bem-vindos! Sejam bem-vindos! — gritavam eles, abraçando o Arganaz e os seus amigos. — Já soubemos acerca da colheita. Ainda bem que vieram!

Conduziram o grupo para um confortável e acolhedor compartimento.

O barracão estava cheio de toros e fardos de palha, mas tinha imenso espaço para que todos pudessem passar ali o Inverno.

Confortável e feliz, o Arganaz começou a sentir muito sono. Os ratos circulavam, verificando se todos estavam bem instalados.

— Viva o Arganaz e o seu arriscado plano! — gritou o Rato–Silvestre. E todos os animais responderam, até o Musaranho!

Mas o Arganaz não ouviu absolutamente nada. Estava enroscado a um canto, a ressonar suavemente… e completamente adormecido!

Stella Gurney

A fuga dos ratinhos

Porto, Ambar, 2007

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