Falar é fácil

Ana estava horrorizada. Como era possível ser-se tão mau? Observava, do outro lado da rua, uns rapazes que batiam num outro de pele escura. Eram quatro, e um deles até tinha uma faca na mão. E isto a meio do dia, na zona para peões! Muita gente passava, mas ninguém ajudava. Olhavam, curiosos, e seguiam. Porque é que ficavam todos indiferentes?Falar é fácil - Histórias de encantar

Ana sentia-se desamparada e só. Gostava de ter podido ajudar o rapaz, deitado no chão a sangrar. Mas como?

No dia seguinte, contou na escola o que lhe acontecera.

— Porque é que as pessoas não ajudam? — perguntou. O Sr. Juvenal, o professor, suspirou.

— Talvez — disse — porque cada um só pensa em si. O mundo tornou-se indiferente. Quem se interessa por uma vida humana?

— Bem — respondeu Ana decidida — eu não penso assim.

E propôs-se a si mesma nunca ser tão indiferente e egoísta como as pessoas que viu na rua.

Alguns dias mais tarde, a turma recebeu uma nova aluna.

— Esta é a Tânia — o Professor Juvenal apresentou-a aos colegas. — Sejam simpáticos com ela!

— Bomm dia! — sussurrou Tânia, e a turma começou aos risinhos.

— De onde é que ela vem?

— Da Rússia — respondeu o Professor, conduzindo a nova aluna para a carteira de Ana.

— A Ana vai ocupar-se de ti — explicou a Tânia.

— Mas este é o lugar do Toni, só que ele hoje faltou! — protestou Ana.

— Então ele senta-se ao lado do Joel quando voltar — disse o professor, pouco preocupado. — Além disso, Ana — acrescentou — de certeza que a Tânia ainda não conhece bem a zona. Depois da escola, podes levá-la a casa, por favor?

Só faltava aquilo! Ana até estava com falta de ar.

— Porquê logo eu?

O professor olhou para ela com ar sério.

— A Tânia mora mesmo perto de ti, e pensei que tu… Não disse o que estava a pensar, mas Ana sabia.

— Já percebi — murmurou, evitando olhar para o professor. Lembrava-se das grandes palavras que dissera há alguns dias. Falar era mais fácil do que fazer…!

Apetecia-lhe era dar uma bofetada àquela Tânia estrangeira, ou de fazer uma tolice qualquer.

De repente, uma mão deslizou até ela e agarrou a sua.

Era uma sensação agradável.

Ana ergueu os olhos e olhou para os olhos claros de Tânia, que sorriam.

Elke Bräunling

Da wird die Angst ganz klein

Limburg, Lahn Verlag, 1998

(Tradução e adaptação)

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