A fada beringela

A fada beringela - Histórias de encantar

Era uma vez um rei e um rainha muito pobres. Tinham um filho, que, como é óbvio, era príncipe. Viviam numa casa arruinada, a que chamavam palácio, e nas suas viagens através do reino, que já não lhes pertencia, deslocavam-se numa moto mal enjorcada. O rei pegava no guiador só com uma mão, porque a outra a levava a agarrar a coroa, sempre ameaçada de cair com a deslocação do ar. A rainha arregaçava o manto debruado a arminho e pele de coelho e encavalitava-se atrás do seu real esposo. Quanto ao príncipe, muito esguio e alto, mal cabia no “side-car”, que é, como nem todos sabem, o nome que se dá à barquinha atrelada a um dos lados de uma moto. Chamavam àquele bizarro meio de transporte o “coche real” e assim viviam contentes.

De uma vez que seguiam pela estrada, a serem ultrapassados constantemente por camionetas, que não respeitavam a prioridade da família real, tiveram um furo. Assim sucedia muitas vezes e, de todas as vezes que isso sucedia, a família real apelava para as maravilhosas virtudes da fada Beringela. Gritavam os três em coro as palavras mágicas:

– Querida fada Beringela, que é tão bela, tão singela, não há fada como ela.

Vinha a fada Beringela dizendo-se muito atarefada, muito atrasada nas suas lides de fada e, protestando sempre contra esta descuidada família real que não sabia onde punha os pés, isto é, os pneus, lá lhe consertava o furo. Depois cavalgava num foguete. Fuunh! E ia-se embora sem se voltar para trás a dizer adeus.

Esta fada Beringela, por contrato com os antepassados do rei Vilandino III, assim se chamava o rei da moto, ficara com a incumbência de prestar pequenos serviços, pequenas mágicas, à dinastia real. Coisas de pouca monta: uma chave que se perdia, um velho prato em cacos, uma melga maçadora.

Vinha a fada Beringela: “Zebelim-perlim-limpim” e aparecia a chave, colavam-se os cacos, desaparecia a melga. Se lhe pedissem a chave de um tesouro, um palácio novinho em folha de prata ou a má sorte importuna afastada de vez, a fada Beringela respondia que não tinha arte nem façanha para tais alturas e encolhia os ombros:

– Conformem-se com o que há – dizia ela.

E a família real não tinha outro remédio…

Mas coisa de furos estava na sua especialidade. Só havia um problema, que era este: a fada Beringela, para não ser constantemente importunada, impusera um limite aos seus serviços, um limite anual de cinquenta chamadas por ano, nem mais uma. Acima de cinquenta chamadas por ano a fada já não atendia. Grande berbicacho!

Vocês estão já a ver que a família real, embalada neste hábito de chamar pela fada dos bons serviços por qualquer insignificância, se esquecia de contar as vezes que ela vinha em seu auxílio. Quando davam que só faltava meia dúzia de chamadas para completar as cinquenta, então é que deitavam as mãos à cabeça.

Foi o que sucedeu desta vez. Estavam em Setembro e já tinham pedido a presença da fada 49 vezes. Que fazer para a poupar, tendo ali a malfadada da moto emperrada, na berma do caminho? Chama-se, não se chama, desta arranjamos nós ou vamos o resto do caminho a pé… Em semelhante discussão a família real perdia a compostura.

– Desta feita não se chama a fada, porque o príncipe arranja o furo – dizia o rei.

– Eu acho que a fada podia vir ajudar-me… – sugeriu o príncipe.

– O que tu queres é cruzar os braços e não trabalhar – concluía a rainha.

O príncipe, abespinhado, respondeu de pronto à laia de pergunta:

– Que tenho eu aprendido convosco, Reais Pais?

Um moço, que andava aos figos, empoleirado numa ramada de figueira sobre a estrada, e que tudo tinha ouvido, comentou assim, em versos de pé-coxinho:

– Que família de ralaços que madraços mais caretas!

Rei, rainha e “reineta”,

Três paspalhos dos autênticos

Valem em moedas pretas

Pouco mais de vinte cêntimos.

A família embatucou. O príncipe, mais do que todos, sentiu a afronta do termo “reineta” cair-lhe sobre a cabeça, como uma maçã do mesmo nome. Talvez por isso fosse ele o primeiro a mexer na caixa de ferramentas. Logo o rei pegou numa chave-inglesa, enquanto a mãe descalçava as luvas de seda a que faltavam dois dedos.

E, num instante, substituíram a roda.

Vocês querem crer que, de aí em diante, nunca mais a fada Beringela foi incomodada?

Claro que a fada, vendo que os seus préstimos já de nada valiam, emigrou, como as suas companheiras, para dentro de um livro muito antigo, mas, antes de desaparecer de vez, ofereceu à família real um unguento mágico, infalível tratamento para todas as feridas. Chama-se, se me não engano, tintura de iodo, ou coisa parecida…

António Torrado

Ilustrações: Cristina Malaquias

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