Deixa-me escolher o meu caminho!

Deixa-me escolher o meu caminho - Histórias de encantarA monção passou. Folhas arrancadas pela chuva e pelo vento flutuam sobre as águas do rio. Balá fica a vê-las seguir o curso da água, velejando como borboletas a voar. A monção passou. Em breve, será inverno.

Deixa-me escolher o meu caminho - Histórias de encantarBalá vem muitas vezes brincar para junto do rio. A sua família vive um pouco mais além, na extremidade da aldeia.

Dantes vinha a correr até aqui com a sua irmã Lali e Tarun, o seu querido irmãozinho. Competiam na corrida e muitas vezes era Balá quem ganhava. Depois, Tarun construía palácios de terra enquanto as irmãs contemplavam o rio. Contavam entre si as histórias do príncipe que um dia viria buscá-las, num barco turquesa e ouro. Haveria de levá-las. E juntas viveriam aventuras fabulosas à volta do mundo.

Mas isto era dantes. Antes de Lali ter abandonado a casa, no início da monção.

Balá amassa uma bola de terra vermelha mais grossa do que uma manga. Lali, a sua querida irmã mais velha, foi morar para casa do marido.

Balá enterra os dedos na argila, molda a bola fazendo-a rolar em cima da erva. Lali já partiu e Balá não compreende porque é que aqueles que amamos têm de ir-se embora tão cedo.

Quando a bola fica pronta, redonda e perfeita, Balá pousa-a no chão, à sua frente. Toshan, aquele palerma do Toshan, o filho do comerciante de peúgas, corre em direção a Balá. Vê a bola vermelha, redonda, única e perfeita. Ri, dá um salto e esmaga-a, apoiando todo o seu peso nos calcanhares negros de sujidade. Dá uma gargalhada e foge. Balá fica a vê-lo partir. Baixa a cabeça e uma lágrima desliza-lhe pelas faces, lentamente, e vai sumir-se na bola desfeita.

O rio continua a correr, numa mistura de lodo e folhas. A monção já acabou.

Deixa-me escolher o meu caminho - Histórias de encantarFoi numa quarta-feira, um dia favorável, propício, o dia do nascimento do deus Krishna. Balá recorda-se muito bem… a família tinha escolhido aquela data para o casamento da sua irmã Lali.

Lali nunca mais vestiria roupa de criança, nunca mais jogaria cricket, já tinha treze anos. Balá achava que treze anos era uma idade normal para jogar cricket, mas a família dizia que aos treze anos tinha de se casar. Então Lali enrolou um sari à volta do corpo. Não era lá muito fácil, a mãe ajudara-a. Estava tão linda no seu sari de cerimónia! Na sua oficina de alfaiate, o pai tinha escolhido o tecido mais rico para a filha. Bordou-o com amor e orgulho, não fosse Lali a sua filha mais velha, a filha querida.

Balá também gostaria de vestir um lindo sari; mas ainda não tinha chegado a altura. O pai tinha-lhe oferecido um vestido, brincos e duas gargantilhas em ouro que lhe fizeram esquecer o sari. O pai, a mãe e Tarun, o seu jovem irmão, também tiveram fatos novos, e toda a família foi à cidade à festa de casamento da Lali. Comeram montes de iguarias deliciosas, arroz à vontade e especiarias requintadas. Beberam lassis perfumados e sumos de fruta. Estava tudo maravilhoso!

Sentada num degrau, Balá tinha desapertado as sandálias que eram demasiado apertadas enquanto via Lali cobrir a cabeça com a ponta do seu sari diante de homens estranhos, como fazem as mulheres. Balá tinha esfregado os tornozelos doridos, e perguntava-se o que teria mudado desde a véspera: a refeição com mil sabores, a passagem do cortejo do casamento, os músicos e os bailarinos teriam eles transformado a sua irmã em mulher? Balá tinha interrogado a mãe, que sorrira:

— Também chegará o dia, Balá, em que te taparás com o teu sari.

Era uma quarta-feira, um bom dia, um dia propício. Quando o sol nasceu, Lali era ainda criança, mas à noite a raiz dos seus cabelos estava pintada de vermelhão. Na sua testa brilhava um ponto, um ponto vermelho. Um sinal de proteção, de devoção, um sinal de submissão.

Balá não tem a certeza de gostar das quartas-feiras.

As folhas desaparecem na água do rio, o ar fica fresco quando a noite cai.

O inverno chegou.

Deixa-me escolher o meu caminho - Histórias de encantarBalá ajuda a mãe. Prepara o chá para o pai e põe a cozer o puré de lentilhas. Nas margens a terra está seca, Balá já não a amassa. Sentada no tronco de uma figueira de raízes enormes, deixa que os seus olhos negros sigam os reflexos do sol na água. Pensa em Lali, a viver na cidade e sente a sua falta.

Pensa também na sua amiga Ashna, que lhe prometeu vir buscá-la amanhã de manhã. Ashna é a melhor na escola a escrever e recitar. Balá gostaria de cantar como ela, mas a sua voz é rouca como uma corda de cítara demasiado apertada.

Um tronco de árvore desce o rio. Balá interroga-se donde virá, de que floresta ou jardim. O tronco flutua como uma ave a voar. Balá levanta-se para melhor o observar. É um barco! Balá distingue nele um casco de madeira pálida e velas brancas, leves como os tecidos de seda que a aranha tece. Não vê ninguém a bordo, o barco parece deslizar sozinho pelo rio. E se fosse o príncipe que em tempos esperavam, ela e a sua irmã? E se chegasse agora que a irmã já lá não está?

A embarcação aproxima-se da margem.

Encalha sem ruido a poucos metros de Balá. A criança levanta-se de coração apertado. Corre para o barco e pergunta:

— Está aí alguém?

Deixa-me escolher o meu caminho - Histórias de encantarComo ninguém responde, Balá levanta um véu muito leve. O sol penetra no interior do barco de madeira de cedro. Deitada num colchão de tela fina ornada de flores prateadas, uma dama dorme. A sua pele dourada reflete a luz, as mãos esguias pousadas debaixo da cara fazem-lhe de almofada. Balá sustém a respiração. A mulher abre os olhos e fixa a criança :

— Que fazes aqui? Onde estou?

Balá tranquilizou-se por não ser o príncipe tão esperado, pois sem Lali não saberia o que dizer. Apressa-se a responder à mulher que o barco parou próximo da sua aldeia, que ela é filha do alfaiate, e que gosta de brincar à beira rio, que nunca vira um barco tão lindo e que gostaria de vogar como ela sobre a água. A mulher sorri. Faz sinal a Balá para se sentar a seu lado.

— Eu não ando a passear. Estou a fugir.

Diante dos olhos esbugalhados de Balá, a mulher continua:

Deixa-me escolher o meu caminho - Histórias de encantar— Os meus pais casaram-me muito cedo. Eram ricos, eu era bonita, sabiam que encontraria um esposo ainda mais rico. Nunca me ensinaram a ler, a escrever ou a contar. Para quê? Mas sei tudo acerca do canto, da dança e da arte de vestir um sari. Ao princípio, o meu marido era muito amável. Eu obedecia-lhe e os dias iam passando. Ele queria um filho, que demorava a chegar. Começou a gritar, chamava-me barriga seca. Eu chorava. Não tinha ninguém com quem falar, pois a minha família vivia muito longe. A certa altura começou a bater-me…

Balá escuta e nada diz. Ouve-se apenas o marulhar da água contra o casco. O ar cheira a cedro. A mulher suspira e continua:

— Há dois dias, pus-me em fuga. Nada sei fazer com as minhas mãos. Confiei-me à água do rio e eis-me aqui.

Balá exclama:

— Sabes pelo menos armar um sari ! Podes trabalhar com o vendedor de roupa! É ele que vende os saris que o meu pai faz, certamente precisa de ti.

A mulher acaricia os cabelos de Balá.

— És muito amável… Olha, queres ?

A mulher oferece um pedaço de paan (folhas de betel) a Balá. A menina apressa-se a metê-lo à boca e sente-se imediatamente refrescada.

— Não te preocupes: vou continuar a vogar até à cidade. Lá encontrarei a minha prima preferida e depois logo verei.

A mulher também masca a planta, e ambas ficam de dentes e lábios tingidos de vermelho.

— Podes ajudar-me a sair daqui para continuar a viagem?

Balá anui com a cabeça. Empurra o barco, que desliza sobre a água. De pé entre as velas, a mulher acena um adeus com a mão. Balá vê-a afastar-se. Durante muito tempo, a sua boca cor de sangue parece uma joia sagrada desenhada no centro das velas brancas.

O perfume do cedro desvanece-se. O branco das velas desaparece. O ar está fresco e a noite instala-se. Balá volta para casa. O inverno já chegou.

A caminho da escola, Balá discute com a sua amiga Ashna. Não lhe fala da senhora de branco, mas fala-lhe da sua irmã, Lali, e dos maridos que batem nas mulheres.

— Mas, Balá…o teu pai escolheu um bom marido para Lali. Porque haveria ele de lhe bater?

— E se ela não puder ter filhos? Se não passar de uma barriga seca?

Ashna desata a rir. Balá tem mesmo ideias tolas… Os maridos e as mulheres amam-se e fazem meninos, como fizeram os seus pais, é assim. Balá coça o nariz. Se a amiga o diz, é porque é verdade. Sim, por vezes, é certo, que um homem e uma mulher podem amar-se. Mas Balá já decidiu: ela própria é que há de escolher o marido. E para ter ainda mais certeza, há de escolhê-lo só quando souber ler, escrever e contar. Nunca antes. Há de ser tão boa aluna que irão mandá-la para a escola dos grandes e até mesmo para a universidade, quem sabe?

Ashna sacode os seus longos cabelos. Realmente, Balá anda estranha desde que a irmã foi embora…

Tarun vê-as de longe e grita:

— Balá! Ashna! Venham, vamos jogar ao kit-kit!

Deixa-me escolher o meu caminho - Histórias de encantarAshna corre para o grupo de crianças e Balá segue-a. Atiram para a beira do caminho as pastas escolares e entram no jogo. Levantam poeira com os pés e os risos fazem eco debaixo das árvores. Mas Toshan também lá está e troça de Balá:

— Olhem para ela! Tem corpo de mulher e brinca como um bebé. Que vergonha!

Tarun dá uma cabeçada a Toshan, acertando-lhe em cheio no estômago. Toshan faz uma careta, e responde-lhe com murros e pontapés. Todas as crianças entram na luta.

Balá agarra o irmão pelo braço e tira-o dali. Apanha a pasta dele sem dizer palavra. — Mas… Balá, ele não tinha o direito de dizer aquilo!

Balá não responde. Segue sempre em frente. Lágrimas de raiva inundam-lhe os olhos negros. É verdade que de há uns tempos para cá a blusa fica-lhe demasiado apertada no peito…

A caminho da escola, Balá avança a passos largos, e a seu lado vai Tarun. Muito atrás, a amiga Ashna corre para a agarrar. É o final do ano. Nas proximidades da aldeia, o rio fica meio escondido. Está próximo o calor intenso do verão. Balá é a segunda da classe. É felicitada. Já decidiu: hoje vai dar a notícia ao pai, no próximo ano quer continuar a estudar.

Deixa-me escolher o meu caminho - Histórias de encantar— Mas já tens doze anos! — exclama o pai ao pousar uma peça de tecido em cima da mesa.— Depois serás demasiado velha para te casares.

Balá continua de cabeça baixa.

— Eu gosto de estudar — murmura ela.

De unhas cravadas na palma das mãos, ela sente o coração a ferver. Às voltas como um tigre ferido, o pai explica que uma rapariga sem marido não pode existir.

A mãe olha para Balá, a filha que mal começa a desabrochar, de seios a crescer sob a blusa, mas já com uma ruga a sulcar a fronte, entre as sobrancelhas. Recorda o dia em que também a sua mãe a levou àquele que viria a ser o seu marido. Também ela tinha doze anos. Levanta-se e diz :

Deixa-me escolher o meu caminho - Histórias de encantar— Balá irá à escola, tem tempo de encontrar um marido. Peço-te…

O pai para, olha para a mulher e ruge. A mãe suplica, mas o pai não quer ceder. Depois do verão há de casar a filha. Balá limpa as lágrimas, ergue a cabeça e fixa os seus olhos negros nos negros olhos do pai.

— Não, não me vou casar. Ainda não !

O pai levanta a mão para dar uma bofetada à insolente, a mãe detém-no. Balá continua:

— Papá… Ouve-me. Já sei contar, posso ajudar-te na oficina. Hei de ler-te as histórias de Krishna e do elefante sagrado. Papá, tu deste-me a vida, deixa-me escolher o meu caminho, peço-te …

Deixa-me escolher o meu caminho - Histórias de encantarTarun entra a correr, vê a irmã lavada em lágrimas, agarra-se-lhe às pernas a gritar:

— Não! A Balá não! Ela não vai embora!

Perante estas palavras, o pai pondera. Por fim, ante o olhar da esposa, as lágrimas do filho e as lágrimas da sua filha querida, aceita: Balá irá à escola quando as aulas começarem, promete. Não lhe procurará um marido antes de completar os quinze anos.

O pai de Balá retoma o trabalho, muito mal-humorado: que irão dizer os vizinhos? E a família? Mas ama demasiado os filhos para os fazer chorar. Confiante, Tarun saiu para brincar.

Deixa-me escolher o meu caminho - Histórias de encantarNa sala de estar, Balá aproxima-se da mãe e beija-lhe os pés. A mãe sorri, senta-a no colo, como quando era bebé. Balá pousa a cabeça no ombro da mãe.

— Minha querida filha…tenho uma boa notícia para te dar. Sabes: Lali espera um bebé!

Balá sorri. Olha para o rosto da mãe. Com o dedo contorna o círculo vermelho da testa. Volta a sorrir.

— Obrigada, mamã — diz Balá.

A mãe pega na mão da filha, e beija-lhe os dedos. Lágrimas como pérolas deslizam pela face.

— Eu é que te agradeço, minha filha — responde ela.

É o final do ano. Na proximidade da aldeia o rio corre. O forte calor de verão vai chegar. À beira do rio a vida pode prosseguir.Deixa-me escolher o meu caminho - Histórias de encantar

Cécile Roumiguière e Justine Brax

Rouge Bala

Paris, Milan Jeunesse, 2010

(Tradução e adaptação)

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