A dama do retrato

A dama do retrato - Contos Infantis

18 de Maio

Dia dos Museu

No velho castelo, aquele retrato da senhora de guarda-sol, mimoso vestido de roda, coletinho de menina e largo chapéu enfeitado, na parede sombria do castelo, aquele retrato destoava.

Precisava de luz, precisava de sol o retrato, ou de outro modo não se justificava nem o chapéu de rendas da dama nem o guarda-sol, a proteger-lhe o rostinho de marfim, com uma flor de sorriso.

Mas parece que ninguém tinha dado por isso. E a menina senhora dama, de mimoso vestido de roda, ali se ficara quase às escuras. Aproveitando os enfeites de um dos cantos da moldura, uma desrespeitadora aranha pôs-se a construir a sua teia. Subia, descia, tecia e quase roçava o ombro da senhora, a importuna.

– Tanto não – protestou a dama menina, no seu retrato, e com um gesto só cortou o fio à teia.

Caiu a aranha no chão. Coisa assim tão de espantar, nunca ela, ao longo da sua vida de aranha, jamais vira: um retrato a falar e a mexer-se, quem tal diria.

Foi fazer queixa à mãe das aranhas que morava num denso novelo de teias, rente ao tecto.

A velha aranha não se admirou com a notícia. Até conhecia histórias semelhantes, umas passadas com ela, outras contadas por aranhas amigas, de outros castelos e palácios ensombrados.

– A pobre senhora está farta de viver naquele quadro, é o que é! – explicou ela à aranha nova. – Talvez nós pudéssemos dar-lhe uma ajuda…

“Nós” eram elas todas, as milhares de aranhas daquele castelo. Pois as milhares de aranhas, às ordens da velha aranha, juntaram-se à volta do quadro e começaram a tecer uma teia tão cerrada, tão cerrada, que por completo toldava o quadro da vista das pessoas, que distraidamente por ali passassem. Já não se via quadro nem moldura, mas só uma parede de teia. O quadro, a senhora dama de chapéu de rendas teria ficado, coitada, aprisionada atrás daquele biombo?

Nas manhãs suaves desta Primavera soalheira, vê-se às vezes, a passear pelos campos, à roda do castelo, uma senhora de longo vestido a arrastar, guarda-sol luminoso e chapéu de rendas… Donde terá ela vindo? Donde terá ela saído? As aranhas sabem, mas não dizem.

António Torrado

Ilustrações: Cristina Malaquias

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