A cor dos gatos

A cor dos gatos - Histórias de encantar

Fui há dias dar um passeio pelo campo e até me perdi. Eu gosto muito de perder-me, principalmente porque sei que, mais tarde os mais cedo, acabo sempre por encontrar-me.

Quem se perde, sempre alcança. Ou não é assim o provérbio? Quem se perde por gosto, não se cansa. Será este? Também não me soa bem…

Mas já estou a desviar-me. Fui ao campo e, no meio do mato, o que é que eu encontrei? Um gato, que rima com mato. Um gato todo verde – verde-claro, verde-alface. Um gatinho.

Não acreditam? A mim, a princípio, também me custou a acreditar. Fui atrás dele e assim cheguei a uma clareira, com uma espécie de casinha de bonecas no meio. À janela estava uma velhota com um gato branco ao colo.

– Minha senhora, desculpe incomodá-la – disse eu –, mas há pouco vi um gato verde, verde-clarinho… Será possível?

– Pois claro que é – respondeu-me a velha ou, para sermos mais delicados, respondeu-me a senhora de idade.

– A mãe é esta gata branca, que aqui vê ao meu colo.

– E o pai?

– O pai é um gato verde-escuro, que por aí anda. Está-se mesmo a ver: branco com verde-escuro não pode ser encarnado…

– Pois não – concordei eu. – Mas um gato verde-escuro não lhe parece esquisito?

– O senhor deve ter a mania das complicações – disse-me a velha, isto é, a senhora de idade, já um bocado arreliada. – A cor dele é verde-escura, porque a mãe era uma gata amarela e o pai um gato azul. Onde está a admiração?

– A admiração?! Não sei onde está – balbuciei eu. – Naturalmente também se perdeu.

Sem mais achar que dizer, despedi-me da senhora de idade e, pé ante pé, virei as costas àquela casa no meio do mato. Demorei que tempos até encontrar-me. Estava um bocado azamboado. E ainda estou. Nota-se?

António Torrado

Ilustrações: Cristina Malaquias

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