Como posso faltar, se sou professor?

Não podemos ensinar nada aos outros.

Apenas podemos ajudá-los a procurar no seu interior.

Galileu

Como posso faltar se sou professor - Histórias de encantarNo início dos anos oitenta, eu trabalhava com um grupo de estudantes do ensino secundário, alunos esses que, a nível da leitura, se equiparavam aos do segundo e terceiro ano do básico. Embora tivesse de lutar constantemente contra o seu desinteresse, continuava a trabalhar com aqueles jovens que, praticamente, já tinham perdido toda a esperança de qualquer sucesso escolar. Na melhor das hipóteses, vinham às aulas esporadicamente. Acho que alguns deles só vinham porque os amigos naquele dia também vinham, e não com o intuito de aprender.

O comportamento era um desastre! A ira, o cinismo, o sarcasmo, a certeza do fracasso e de serem ridicularizados ou insultados era a tónica dominante do discurso destes rapazes. Tentei ensiná-los em pequenos grupos e individualmente, mas tenho de admitir que, na maior parte dos casos, os resultados não foram famosos. Apesar de haver alguns que pareciam reagir positivamente, era impossível prever até quando, porque, de um momento para o outro, ficavam mal-humorados, enfadados, sujeitos a um ataque de ira inexplicável.

Havia ainda um outro problema: naquela altura, quase não havia material de leitura para recuperar alunos do secundário assim tão fracos, sobretudo algo que os interessasse verdadeiramente: temas de relacionamento, namoro, desporto, automóveis…. Achavam os textos demasiado infantis e ultrapassados.

Infelizmente, as leituras mais interessantes eram demasiado difíceis para o nível deles, o que só lhes trazia frustração. Muitos deles queixavam-se continuamente. José, um rapaz alto e magro, com um sotaque acentuado, resumia a situação da seguinte forma: “Sabe, prof., é muito chato. E estúpido. Porque é que temos de ler isto…?

Uma ideia começou, então, a germinar na minha cabeça. Perguntei ao diretor da escola se podia pedir uma bolsa para um projeto de ensino. O dinheiro que recebemos não foi muito, mas foi o suficiente para um projeto-piloto que teria a duração dos seis últimos meses do ano escolar. O projeto era simples e teve muito sucesso. “Contratei” os meus alunos como professores de leitura. Disse-lhes que a escola básica ali próxima tinha crianças do primeiro, segundo e terceiro anos que necessitavam de ajuda para aprender a ler. E que eu precisava muito de quem estivesse disposto a ajudar-me a ensinar aquelas crianças… Perguntaram logo se aquele trabalho era durante as aulas ou depois.

— Oh! Durante as aulas. É um trabalho que substitui algumas aulas. Só temos que lá ir 2 horas todos os dias e trabalhar com os miúdos. Importa não esquecer que as crianças vão ficar muito dececionadas se vocês, os “professores”, não aparecerem ou se não trabalharem cuidadosamente. A vossa responsabilidade será grande.

À exceção de um, todos os meus alunos aceitaram fazer parte do programa. O que tinha recusado mudou de ideias ao fim de uma semana, quando ouviu os colegas falar do quanto gostavam de trabalhar com as crianças. Os alunos da primária estavam reconhecidos pela ajuda, mas mais ainda pela atenção que lhes dedicavam os grandes…. Viam-nos como uns heróis. Cada estudante era responsável por duas ou três crianças. O trabalho consistia em lerem-lhes contos e depois fazê-los também ler em voz alta. E desenhar…

O meu objetivo era encontrar uma forma de motivar aqueles estudantes para lerem livros adaptados aos mais novos. Pensei que se conseguisse levá-los a ler com regularidade, acabariam certamente por melhorar as suas competências… E confirmou-se que eu tinha razão: no final do ano, os exames mostraram que a maior parte deles tinha feito um progresso de um, dois e até três níveis de leitura! Mas a mudança mais espetacular deu-se a nível da atitude e do comportamento dos meus alunos. Não esperava que se vestissem melhor, nem que cuidassem da sua apresentação. Também não esperava que diminuísse o número de rixas e aumentasse o número de presenças às aulas. Mas tudo isto aconteceu também…

Um dia, quando, pela manhã, cheguei ao parque de estacionamento da escola, vi o José dirigir-se para a porta. Tinha ar de doente.

— O que tens, José? — perguntei. — Parece que estás com dores de cabeça. Aquele aluno era o segundo da turma com mais faltas às aulas.

— Não me sinto lá muito bem, Professora — respondeu-me.

— Então, porque vieste à escola nesse estado? Porque não ficaste em casa? — perguntei.

A sua resposta deixou-me sem palavras.

— Sabe, não podia faltar. Sou professor! Ia fazer falta aos meus alunos, não acha?

Sorriu e entrou na escola.

Hanoch McCarty

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