Chuva de algures

Estava a cair uma chuvinha cor-de-rosa, mas persistente.

Isto passa-se num planeta algures – parece que se chama mesmo Algures – lá para os fundos do universo.Chuva de algures - Histórias de encantar

Aqui (ou ali?) só vivem sapos e rãs, únicos seres vivos do planeta, onde chove continuamente e sempre às cores. Tanto pode a chuva ser verde-alface como violeta–desmaiado ou azul-marinho ou amarelo dourado. É um planeta muito colorido e festivo e, já se vê, sempre alagado.

Os sapos e as rãs não querem outra coisa, embora lhes seja indiferente a cor da chuva, desde que molhe. Os sapos e as rãs são bichos de gostos pouco requintados.

Pois, como ia dizendo, estava a cair uma chuvinha cor-de-rosa quando, sem quê nem porquê, parou de chover.

Escorregou a última gota rosada de chuva sobre a pele esverdeada acastanhada do sapo, que elegemos como herói da nossa história, e o chuveiro emperrou.

O sapo Tubi interrogou com inquietação o céu, que se manteve cinzento e impassível. Nunca tal tinha acontecido.

Podia a época ser de aguaceiros, mas contínuos, sem descanso. Agora, um intervalo na chuva, por mínimo que fosse, era inconcebível.

Saltando e chapinhando de poça em poça, as rãs e os sapos reuniram-se para analisar em conjunto o estranho fenómeno.

– Sinto a pele cada vez mais seca – queixava-se uma rã mais alarmista.

– Por este andar vamos nadar em seco – queixava-se outra rã não menos alarmista.

Tudo um exagero. O planeta Algures, somados os rios, lagos e charcos, tinha água de reserva para muitas e muitas gerações. Mas a inesperada ausência de chuva não deixava de causar inquietação.

No meio da coaxante assembleia, o sapo Tubi acusou-se:

– Fui eu o culpado.

Houve um grande espanto e um grande silêncio, que o sapo Tubi aproveitou para prosseguir a sua confissão pública:

– Se eu não tivesse dito: “Estou farto desta maldita chuva às cores” nada disto tinha acontecido.

Protestaram sapos e rãs:

– A chuva não anda ao nosso mando. Chove azul, amarelo, verde e encarnado, há que séculos, porque sim. Ninguém manda nas nuvens. Elas é que, azuladas, amareladas,  esverdeadas  ou  encarniçadas,  acumulam  e carregam a água que desaba sobre a nossa terra. Um insignificante pensamento de um sapo não as faz mudar de prática. Isso não entra na cabeça de ninguém.

Mas o sapo Tubi não saía da sua:

– Eu disse em voz alta, muito alta. As nuvens melindraram-se, ressentiram-se.

Fosse do que fosse, não havia meio de a chuva voltar ao planeta Algures. O caso estava complicado. Podia até imaginar-se que, ao fim de muitas gerações, a persistência da seca acabasse com a vida no planeta. As perspectivas de futuro, a longo prazo, eram calamitosas.

As rãs já não saltavam com o mesmo vigor nem os sapos coaxavam o seu grunhido de uma única sílaba “Cró! Cró!”, noite fora. Andavam todos muito desalentados.

Até que o Tubi, fixando tristemente o céu cinzento, se saiu com esta:

– Quem dera que chovesse, nem que fosse sem cores. De imediato, uma gota de água transparente caiu no focinho do sapo. Ele lançou a serpentina da língua cá para fora e provou-a. Não sabia a nada, mas era gostosa. Água pura.

Depois da primeira gota, muitas outras se lhe seguiram. Voltava a chover no planeta Algures e logo da primeira vez, depois da seca, a abada era de respeito. As cores variadas da chuva de outrora é que não voltaram mais.

Quando os sapos e as rãs contam esta história ou lenda aos filhos eles riem-se. O riso estica-lhes a pele húmida e luzidia, que ao sol ganha a reverberação das cores do arco-íris. Recordações, talvez, do tempo em que a chuva era às cores.

António Torrado

Ilustrações: Cristina Malaquias

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.