A carroça

A Carroça - Contos InfantisSempre que penso no meu pai, recordo-me de que nos lembrava constantemente que fossemos gentis uns com os outros. Para ele, a delicadeza era a coisa mais importante da vida e ficava magoado quando via certas pessoas intrometerem-se numa conversa, interrompendo quem estava a falar.

O meu pai tinha uma forma muito especial de mostrar que estava descontente. Sei-o bem, pois cometi muitas vezes esse erro e ele nunca me repreendeu diretamente. Eis a forma como me demonstrou a minha indelicadeza.

Certa manhã, bem cedo, convidou-me para ir até ao bosque ouvir os pássaros cantar. Aceitei e partimos felizes. Seguimos por uma vereda, sentindo a erva ainda húmida do orvalho. A dada altura, o meu pai parou e eu também. O silêncio do acordar dos pássaros na floresta pairava ao nosso redor e um chilrear de luz começava a aparecer no céu rosado.

Algum tempo depois, o meu pai perguntou-me:

— Consegues ouvir algo para além do canto dos pássaros? Apurei os ouvidos durante alguns segundos e respondi:

— Estou a ouvir o barulho de uma carroça que vem pela estrada.

— Exatamente — confirmou o meu pai. — É uma carroça vazia…

Como do sítio onde estávamos não era possível ver a estrada, perguntei, admirado:

— Como pode saber que está vazia?

— Ora, é muito fácil saber que se trata de uma carroça vazia.

Fiquei um pouco irritado por não conseguir percebê-lo, sobretudo se era assim tão fácil. Foi então que o meu pai colocou a mão no meu ombro e explicou, olhando-me bem nos olhos:

— Percebe-se que está vazia por causa do barulho que faz. Quanto mais vazia a carroça, maior o barulho que faz.

O meu pai não disse mais nada e eu fiquei a matutar naquelas palavras durante muito tempo. Quando hoje, já adulto, vejo uma pessoa tagarela e inoportuna a interromper uma conversa, ou quando eu mesmo quase o faço, por distração, tenho a imediata impressão de ouvir a voz do meu pai afirmando:

— Quanto mais vazia a carroça, maior o barulho que faz.

Wallace Leal Rodrigues

E, para o resto da vida

São Paulo, Editora O Clarim, 1979

(Adaptação)

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.