O cão que não parecia cão

O cão que não parecia cão - Histórias de encantar

Acreditem ou não acreditem, a verdade é que, uma vez, há muitos anos, eu tive um cão tão felpudo, tão peludo, tão cabeludo que, ao vê-lo, a gente mal se convencia que fosse cão. Ao certo, ao certo, não parecia nada, não parecia coisa nenhuma.

Só com muita boa vontade é que se acreditava que, dentro daquele rolo de pêlos, devia haver bicho, provavelmente um cão. Mas de que lado teria ela a cabeça? Nessas alturas, era necessário agitar um osso, um bocadinho de carne ou uma bolacha, perto daquela coisa confusa, que parecia um cão. O lado que ficasse mais perto do osso, do bocadinho de carne ou da bolacha era, sem sombra para dúvidas, a cabeça. Esta experiência só dava resultado quando o cão tinha apetite.

Nas outras ocasiões, que fazer? Esperar que o cão tivesse vontade de passar por uma árvore… E se o cão não tinha apetite nem vontade de fazer chichi?

Em tais casos, a coisa complicava-se. Ou se arranjava um gato para o cão lhe ladrar ou nada feito.

– Bichinho gato! Bichinho gato! Anda cá fazer um jeitinho à gente.

Mas os gatos são pouco amigos de prestar favores. Já imaginaram um gato a caçar por conta de um caçador? Não faz sentido. Os gatos trabalham, pois trabalham, mas só por conta própria.

Portanto e por este lado, o dos gatos, nada feito, isto é, se continuássemos na dúvida sobre qual o lado da cabeça e qual o outro lado do cão felpudo, só havia uma solução.

– Qual era?

Ia-se buscar uma grande tesoura e dizia-se assim ao cão felpudo:

– Não há remédio. Temos de tosquiar-te.

Então, o cão felpudo, ao ver a tesoura e ao ouvir o que ela prometia, apanhava um susto tão grande, tão grande, que ficava com os pêlos todos em pé.

Conseguia-se assim e finalmente descobrir de que lado ele tinha a cabeça.

António Torrado

Ilustrações: Cristina Malaquias

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