Não é camelo

Não é camelo - Histórias de encantar

Ninguém gosta que o tratem por camelo.

– Seu camelo, não sabe parar nas zebras?

Não é conversa de savana nem de jardim zoológico, mas fala de peão furioso para automobilista desastroso, perigoso, criminoso, que não sabe abrandar nas passagens zebradas.

– Camelo é você, sua besta – dirá em resposta o vergonhoso automobilista, mas sem razão nenhuma.

De facto, ninguém gosta que o tratem por camelo. Principalmente o dromedário.

– Não sou camelo – enerva-se o dromedário. – Eu só tenho uma bossa. O camelo tem duas.

Mas há sempre quem faça confusão.

Para que não sobrassem dúvidas, o dromedário mandou espalhar um anúncio com os seguintes dizeres: camelo – 2, dromedário – 1. Ia resultar, ele tinha a certeza.

Quando os turistas, armados de máquinas fotográficas, desembarcassem e vissem um dromedário, não gritariam, todos excitados:

– Olha um camelo!

– Vai chamar camelo ao filho do teu paizinho, meu grande burro – diria o dromedário, entre dentes.

Com aqueles cartazes acabavam-se as confusões. Não acabaram.

– Olha: os camelos ganharam aos dromedários por dois a um – diziam os turistas.

– Camelos! Camelos! Camelos! – gritava, para dentro, o dromedário.

Até  que  resolveu  mandar  colar  pelas  paredes  outro anúncio, com os seguintes dizeres: 1 dromedário + 1 dromedário = 1 camelo.

Percebia-se a intenção. Uma corcova mais uma corcova, igual a duas corcovas. Só os camelos é que não gostaram da comparação. Um camelo igual a dois dromedários? Que era lá isso?

Vieram, muito zangados, pedir explicações ao dromedário. Ou ele desistia do afrontoso cartaz ou havia guerra.

O dromedário, que era pacífico, mandou arrancar os cartazes. Vendo bem, os camelos tinham alguma razão.

– Olha um camelo – gritava um turista, apontando-lhe a máquina fotográfica.

– Pacífico seria, mas naquela altura, não aguentando mais, o dromedário deu um coice, que estatelou o turista. Depois, assustado com o que fizera, fugiu.

– O malandro do camelo ia-me matando – queixava-se o turista.

– Onde é que ele está? Para onde é que ele foi? – perguntou um polícia árabe, acorrendo.

– Naquele sentido – apontou o turista.

– Eu já o apanho, descanse – prometeu o polícia.

Pôs-se a correr e, pouco adiante, passou pelo dromedário, sem lhe ligar. O polícia árabe sabia distinguir um dromedário de um camelo.

– Viste um camelo a fugir, nesta direcção? – perguntou o polícia ao dromedário.

– Não reparei – disfarçou o dromedário. – Porquê?

– Porque parece que esse camelo deu um coice a um turista. Se eu o apanho… – ameaçou o polícia com o chanfalho, apressando o passo.

O dromedário viu-lhe os calcanhares e suspirou fundo. Pela primeira vez sentia que a confusão entre camelos e dromedários lhe tinha sido favorável.

António Torrado

Ilustrações: Cristina Malaquias

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