Através dos olhos do meu avô

Através dos olhos do meu avô - Histórias de encantarDe todas as casas que conheço, a que eu prefiro é a do meu avô. O meu amigo Peter tem uma casa nova, em vidro, com passeios de pedras arredondadas no jardim que não levam a lado nenhum. E a Maggie vive ao lado, numa casa velha de madeira, com quartos atrás de quartos, todos com portas esculpidas e puxadores em metal. São casas bonitas, mas a casa do meu avô é a minha preferida.

Porque eu vejo-a através dos olhos do meu avô.

O meu avô é cego. Ele não vê a casa da mesma forma que eu. Tem a sua própria maneira de ver.

De manhã, o sol atreve-se através das cortinas e pousa nos meus olhos. Eu desapareço por debaixo das mantas, mas a luz persegue-me. Desisto, atiro as mantas para trás e corro até ao quarto do meu avô.

O sol acorda o meu avô de maneira diferente. Ele diz que o sol lhe toca e, aquecendo-o, desperta-o. Quando eu espreito, o meu avô já está a fazer os seus exercícios matinais, fletindo e esticando-se ao lado da cama. Para e sorri, porque me ouve.

─ Bom dia, John.

─ Onde está a avó? ─ pergunto.

─ Não sabes? Fecha os olhos, John, e vê através dos meus olhos. Fecho os olhos.

Em baixo, ouço o som das panelas e da água a correr que antes não ouvia.

─ A avó está na cozinha a preparar o pequeno-almoço ─ respondo.

Quando abro novamente os olhos, vejo o avô a concordar comigo. É alto, com cabelo grisalho. E os seus olhos são de um azul intenso, ainda que não consigam ver.

Faço exercício com o meu avô. Para cima, para baixo. Depois, repito com os meus olhos fechados.

─ Um, dois, diz o avô, três, quatro.

─ Espera! ─ peço.

Ainda estou no um, dois, quando o meu avô já vai no três, quatro. Deixo-me cair para

─ Três vezes. O meu avô ri-se ao ouvir-me cair na carpete.

─ Venham tomar o pequeno-almoço. Está pronto! ─ diz a avó.

─ Cheira-me a ovos fritos ─ diz o avô.

Inclina a sua cabeça perto da minha e acrescenta:

─ E torradas com manteiga.

O corrimão de madeira da escadaria tornou-se macio, tantas são as vezes em que o avô o percorre com os dedos, para cima e para baixo. Caminho atrás dele, seguindo com os meus dedos o seu trilho. Entramos na cozinha.

─ Cheira-me a flores ─ diz o avô.

─ Que flores? ─ pergunto.

─ Não são violetas, John, não são peónias…

─ São cravos! ─ grito.

─ Meu palerma! O avô ri-se.

Através dos olhos do meu avô - Histórias de encantar─ São malmequeres. Não é, avó? A avó também se ri.

─ Demasiado fácil ─ diz ─ colocando dois pratos de comida à nossa frente.

─ Não é nada fácil ─ protesto. ─ Como é que o avô consegue adivinhar? Todos os cheiros se misturam no ar!

─ Fecha os teus olhos, John ─ diz a avó. Diz-me o que é o pequeno-almoço.

─ Cheira-me a ovos. Cheira-me a torradas ─ respondo com os olhos fechados. ─ E a mais qualquer coisa. E há algo que não me cheira bem…

─ São os malmequeres ─ diz a avó a sorrir.

─ Dois ovos no nove e a torrada no dois ─ diz a avó para o avô. ─ E uma colherada de compota.

─ Uma colherada de compota no seis, digo ao meu avô.

Faço também um relógio com o meu prato de comida, e como através dos olhos do meu avô.

Depois do pequeno-almoço, sigo-o através da sala de jantar até à sala de estar. Abre a janela para sentir o tempo lá fora, dirige-se à mesa onde está o seu cachimbo, depois vai ao canto da sala e pega no violoncelo.

─ Tocas comigo, John? ─ pergunta.

Afina os violoncelos sem olhar. Eu toco com a partitura diante de mim. Sei tudo sobre agudos e bemóis. Eu leio-os, mas o avô toca-os com os dedos. Durante um momento, fecho os olhos e toco através dos olhos do meu avô. Dedilhando, a minha mão sobe e desce pelo braço do violoncelo, em direção às cravelhas para os bemóis, ao cavalete para os agudos. Com os olhos fechados, o meu arco desliza pelas cordas.

─ Escuta ─ diz o avô. ─ Vou tocar um trecho que aprendi quando tinha a tua idade. Era o meu preferido.

Toca a melodia enquanto eu escuto. É assim que o meu avô aprende novas melodias. A escutar.

─ Agora ─ diz o avô ─ vamos tocar juntos.

─ Está ótimo ─ elogia ele enquanto tocamos.

Mais tarde, a avó traz a argila para esculpir a cabeça do avô.

─ Está quieto! ─ resmunga a avó.

─ Não estou! ─ responde ele, imitando a voz resmungona e fazendo-nos rir aos três. Enquanto a avó trabalha, o avô pega num bocado de madeira que segura enquanto pensa. Os seus dedos movimentam-se para trás e para diante, tornando a madeira suave como o corrimão das escadas.

─ Também posso segurar um bocado de madeira enquanto penso? ─ pergunto.

O avô vai ao bolso da camisa e atira um bocado de madeira na minha direção, que eu apanho. Está lisa, sem quaisquer farpas.

─ O rio vai cheio ─ diz a avó.

─ Voltou a chover ontem à noite. Ouviste a água a gorgolejar na caleira?

Enquanto conversam, imagino um rio a formar-se, e vou passando os meus dedos pela madeira que vai passar o inverno no meu bolso… Quando não estiver em casa do avô, posso continuar a pensar nele, na avó e no rio.

Através dos olhos do meu avô - Histórias de encantarQuando a avó termina, o avô percorre a escultura com a sua mão. Os seus dedos são macios e rápidos como as borboletas.

─ Parece-se comigo ─ diz, surpreendido.

Os meus olhos já me disseram que se parece com o avô, mas ele mostra-me como tocar primeiro o seu rosto com os meus dedos médios, e depois tocar o rosto de argila.

─ Finge que os teus dedos são como água ─ diz-me.

Os meus dedos de água deslizam pela cabeça de argila, enchendo os espaços ocos dos olhos como se fossem pequenas poças, antes de deslizarem até às faces. Desta vez são os meus dedos que o dizem.

Eu e o meu avô saímos, atravessamos o pátio e caminhamos pelo campo até ao rio. O avô não nasceu cego. Ele lembra-se do brilho do sol espelhado no rio, das cenouras bravas do prado e de cada dália do seu jardim. Mas toca suavemente o meu cotovelo enquanto caminhamos.

─ Sinto um vento sul ─ diz o avô.

Eu consigo dizer de que lado sopra o vento porque vejo para onde as árvores se inclinam. Já o avô sabe dizê-lo quando toca a erva do prado ou quando sente a agitação do sopro no seu cabelo.

Quando chegamos à margem do rio, vejo que a avó tinha razão. O rio vai cheio e a água já chegou ao salgueiro. Corre à volta e entre as raízes da árvore, abrindo caminhos, como os do avô no corrimão das escadas e no bocado de madeira. Através dos olhos do meu avô - Histórias de encantarVejo um melro com uma mancha vermelha na asa, sentado no morrão-dos-fogueteiros. Sem pensar, aponto com o meu dedo.

─ Que pássaro é aquele, avô? ─ pergunto entusiasmado.

─ Um melro com a asa vermelha ─ diz o avô prontamente. Não consegue ver o meu dedo a apontar, mas ouve o canto do pássaro!

─ E algures, atrás do melro ─ continua ─ está um pardal. Ouço um canto áspero e olho, até descobrir um pássaro da cor da terra. A avó chama por nós da entrada da casa.

─ A avó cozeu pão para o almoço ─ diz o meu avô, feliz ─ e fez o meu chá preferido, o das ervas aromáticas.

Fecho os olhos, mas tudo o que consigo cheirar é a terra molhada junto ao rio.

Quando estamos de regresso a casa, o avô para de repente. Inclina a cabeça para o lado,

─ Aponta um dedo para cima.

─ Grasneiros ─ murmura.

Olho para cima e vejo um bando de gansos, voando em V, nas nuvens.

─ Gansos do Canadá ─ digo-lhe.

─ Grasneiros ─ insiste o avô. E rimo-nos.

Subimos o caminho novamente até ao pátio, onde a avó está a pintar as cadeiras da entrada. O avô cheira a tinta.

─ De que cor é, avó? ─ pergunta. ─ Não consigo cheirar a cor.

─ Azul ─ digo-lhe a sorrir ─ azul como o céu.

─ Azul como os olhos do avô ─ diz a avó.

Quando era mais novo, antes de ficar cego, o avô fazia como eu. Agora, sempre que bebemos chá e almoçamos na varanda, o avô deita o seu próprio chá, enquanto passa o dedo pela borda interior da chávena. E assim sabe quando está cheio. E nunca queima o dedo!

Depois, quando lavamos os pratos, ele sente-os enquanto os enxuga. E até me devolve alguns para os lavar novamente.

─ Para a próxima ─ diz o avô, fingindo-se zangado ─ eu lavo e tu enxugas.

Através dos olhos do meu avô - Histórias de encantarDe tarde, o avô, a avó e eu, trazemos os nossos livros para fora e lemos debaixo da macieira. O avô lê o livro com os seus dedos, sentindo os pontos em relevo da escrita Braille. E, enquanto lê, o avô desata muitas vezes a rir às gargalhadas.

─ Conta-nos o que é engraçado ─ diz a avó. ─ Lê para nós, avô.

E ele assim faz. A avó e eu fechamos os livros. Um esquilo cinzento desce pelo tronco da macieira, com a cauda levantada. E também parece escutar. Mas o avô não o vê. Depois do jantar, o avô liga a televisão. Eu vejo, mas o avô escuta, e a música e as palavras dizem-lhe quando algo é perigoso ou engraçado, feliz ou triste.

De uma maneira ou de outra, o avô sabe quando é noite e leva-me para cima, para o meu quarto, e mete-me na cama. Inclina-se para me dar um beijo, com as mãos a tocar a minha cabeça.

Através dos olhos do meu avô - Histórias de encantar─ Precisas de cortar o cabelo, John ─ diz.

Antes de sair, o avô puxa o interrutor por cima da cama e apaga a luz. Mas, por engano, ela fica ligada. Deixo-me ficar um momento a sorrir, e então levanto-me para apagar a luz. Depois, quando está escuro para mim da mesma forma que está escuro para ele, tento ouvir os sons da noite que o avô ouve. A casa a ranger, as aves a cantar as últimas melodias do dia, o vento a murmurar na árvore junto à minha janela…

Então, de repente, ouço o som dos gansos no céu. Estão a sobrevoar a casa.

─ Avô! ─ chamo suavemente, esperando que ele também os ouça.

─ Grasneiros ─ responde ele.

─ Dorme, John ─ diz a avó.

─ Como? ─ pergunto-lhe.

─ Disse-te para dormires ─ responde ela.

Fala com firmeza, mas o avô tem razão. A voz dela também sorri para mim. Sei que sim. Porque também a vejo através dos olhos do meu avô.

Patricia MacLachlan

Through grandpa’s eyes

New York, HarperCollins, 1980

(Tradução e adaptação)

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