E as flores regressaram…

E as flores regressaram

Há muitos, muitos anos, vivia na terra um homem muito sábio. Não se cansava de dar conselhos aos outros homens, promulgava leis justas, organizava os homens em tribos e ajudava-os no que fosse necessário. Graças a ele, os homens tinham uma vida pacífica e tranquila. Este sábio chamava-se Bayamé.

Nesse tempo, a terra era florida como um jardim e os homens eram felizes: escutavam as palavras sábias de Bayamé e seguiam o seu exemplo.

Mas, num triste dia, Bayamé morreu. O seu desaparecimento levou ao desaparecimento dos bons costumes. Os homens tornaram-se duros uns com os outros, deixaram de obedecer à lei, entregaram-se à violência. Tudo mudou, tudo se tornou mau na sociedade humana.

A própria terra mudou de aspecto. As plantas floridas secaram pouco a pouco e, passados alguns anos, deixaram de florir para sempre. Nem uma só flor desabrochava! Claro que as árvores e as ervas sobreviveram, mas toda a vegetação tinha o mesmo tom de verde, sem qualquer outro matiz, um verde de uma monotonia e de uma tristeza mortais.

Em breve, as abelhas, que já não tinham flores onde colher o pólen, deixaram de fabricar mel. Ora, o mel era o alimento preferido de todos e o mais nutritivo. As abelhas, reunidas em enxames gigantescos, abandonaram a terra para não mais voltar.

Foi então que os homens compreenderam quão grave era a ausência de flores sobre a terra.

Os potes de mel que as mulheres conservavam ciosamente nas cabanas foram-se esvaziando, sem deixar qualquer sinal desse maravilhoso néctar. O mel, doravante, era apenas uma recordação.

Os anos passaram… a terra continuou sem produzir flores, e estas, tal como o mel, tornaram-se uma lenda. Os anciãos da tribo falavam deles às crianças e aos seus netos.

— Os nossos pais — diziam — falavam-nos outrora dos delicados e coloridos rebentos que alegravam os campos e bosques. Insectos maravilhosos vinham sugar um pó delicioso que transformavam num alimento de incrível doçura, capaz de dar, ao mesmo tempo, vigor ao corpo e prazer ao paladar…

As crianças, pasmadas, ouviam estas histórias mas não conseguiam imaginar o que seriam tais flores. Alguns adultos tentavam desenhar flores nas paredes caiadas de branco, com a ajuda de bocados de carvão, mas nunca chegavam a traduzir a delicadeza das corolas nem, sobretudo, a grande variedade de cores.

Quanto às abelhas, a lenda descrevia-as como insectos com asas de ouro, esvoaçando de uma corola para outra, num maravilhoso sussurro musical.

Era ainda mais difícil transmitir a ideia do mel a quem nunca o tinha visto ou provado. E não era raro ver as crianças a chorar, porque queriam provar este néctar lendário.

Algumas mães, apiedando-se, levavam o seu pote de mel feito de corcha fina, herdado das suas mães, e iam até à floresta na esperança de recolher um fio de mel na cavidade de uma árvore.

— Não é possível que todas as abelhas tenham desaparecido — lamentavam-se os anciãos. — Talvez tenham escondido as colmeias em lugares distantes que não conseguimos encontrar.

E as mulheres, encorajadas por tais discursos, procuravam incessantemente as abelhas nos lugares mais recônditos da floresta. Mas voltavam de noite à aldeia, desiludidas e desencorajadas, com o pote de corcha desesperadamente vazio.

Claro que a lenda recordava que as flores tinham desaparecido a seguir à morte do sábio Bayamé. E falava-se dele, da sua generosidade, da sua grande sabedoria. Se uma criança perguntava ingenuamente: — Mas para onde foi Bayamé? — os anciãos respondiam:

— Para a Terra do Grande Repouso.

Evocavam então um lugar maravilhoso, chamado Boullimah, que ficava muito longe, para lá dos montes Oubi-Oubi, cujos cumes se escondiam por detrás das nuvens.

— Para lá do horizonte — continuavam para responder à insistência dos mais maravilhados por estas narrativas — fica Boullimah. O horizonte não é o fim da terra, mas o limite da visão dos homens.

— E porque é que não se pode ir até ao horizonte? — perguntava então um dos jovens.

— Porque quanto mais andamos, mais o horizonte se afasta. É essa a razão pela qual ninguém conseguiu ainda atingir Boullimah.

As crianças adormeciam então a sonhar que chegavam um belo dia à terra onde repousava o sábio Bayamé. E este oferecia-lhes mel delicioso… Mas acordavam sempre no preciso momento em que levavam à boca os alimentos maravilhosos; mesmo em sonhos, não chegavam a provar o mel!

Entre os jovens, o mais apaixonado pela lenda das flores desaparecidas era Néki, um caçador de cangurus!

Munido do seu boomerang, percorria durante todo o dia as vastas pradarias! Um dia, perseguiu durante horas um grupo de cangurus sem conseguir apanhar um só. Teve mesmo a desagradável surpresa de não ver o seu boomerang voltar, depois de o ter lançado pela centésima vez.

Toda a gente sabe que o boomerang, quando bem usado, volta sempre à mão de quem o lança: era o que acontecia habitualmente a Néki. Nesse dia, esperou em vão. Surpreendido, foi à procura da arma.

Voltar à aldeia de mãos a abanar e, ainda por cima, sem o boomerang, parecia-lhe uma desonra. Todas as buscas foram em vão. Cansado, Néki decidiu retomar o caminho da aldeia.

Mas, como a noite caíra rapidamente, não conseguia distinguir o caminho. Deu por si numa clareira rodeada de árvores gigantes. Perto havia um rio cujas águas estavam infestadas de crocodilos esfomeados.

Néki, desarmado, achou mais prudente ficar por ali, tentar dormir e retomar as suas buscas com o nascer do dia.

Deitou-se na erva macia da clareira e caiu imediatamente num sono profundo. Estava exausto depois de ter corrido atrás dos cangurus.

No seu sono, pareceu-lhe ouvir uma voz chamar: “Né-é-ki! Né-é-ki! Né-é-ki!” Era uma voz profunda que parecia vir de muito, muito longe. O chamamento repetiu-se por várias vezes. Néki, no seu sonho — porque ele estava a sonhar — teve a sensação de que alguém se aproximava e lhe sussurrava ao ouvido: “Trouxe-te o teu boomerang!”.

Sentiu um forte calor na cara, abriu um olho e deu-se conta que o sol já ia alto e que os seus raios inundavam toda a clareira.

Néki levantou-se e olhou à sua volta. Oh, que surpresa! No meio da clareira havia três árvores que o jovem tinha a certeza de não ter visto na véspera. Estas árvores eram extraordinárias: os ramos estavam cobertos de belas flores vermelhas e cor-de-rosa que enchiam o ar de um perfume delicado.

Em redor das árvores, inúmeras flores alegravam a verde pradaria com as suas corolas multicolores.

Néki lembrou-se então do sonho. Lembrou-se daquela voz profunda que o tinha chamado de muito, muito longe: “Né-é-ki! Né-é-ki! Né-é-ki”. Passado algum tempo, conseguiu recordar a voz que lhe tinha sussurrado ao ouvido: “Trouxe-te o teu boomerang!”.

“Seria um sonho?”, perguntou-se. “Mas então continuo a sonhar!”, disse, contemplando, incrédulo, as três árvores magníficas que se elevavam à sua frente e o esplêndido tapete de flores que as rodeava.

Nesse instante, o seu olhar pousou sobre algo que estava entre as árvores: o boomerang! Era tudo tão incrível que lhe faltava a coragem para o ir buscar.

Mas era mesmo o seu boomerang! Feliz, levantou os braços, como se o fosse lançar mas estacou: no meio das flores, reparara em milhares de pequenos pontos dourados que esvoaçavam de flor em flor, como que numa dança.

No mesmo instante, ouviu um zumbido subtil, parecido com a música que um cantor da sua tribo tocava no instrumento de cordas.

— Abelhas! São abelhas! — exclamou o jovem, maravilhado.

Imediatamente lhe vieram à memória todas as histórias dos anciãos sobre os prodigiosos insectos que produziam o delicioso mel.

Passada a surpresa, observou atentamente os insectos e viu que recolhiam o néctar em pequenas cavidades situadas no tronco das árvores.

— É exactamente como na lenda — exclamou Néki.

Vibrava com alegria mas também com orgulho, porque apenas ele, um simples caçador de cangurus, tinha o privilégio de ver o que os outros jamais tinham visto!

Mas quem o teria escolhido? A quem pertencia a voz misteriosa que lhe tinha sussurrado enquanto dormia? Quem era o desconhecido que lhe tinha trazido o boomerang?

Compreendeu então que a arma perdida não passara de um pretexto: para que ele a procurasse por muito tempo, para que se perdesse no caminho, para que chegasse, enfim, a esta clareira encantada. Ele, Néki, o jovem caçador de cangurus. Ele, o único em toda a tribo!

Disse a si mesmo: “É um sinal para que eu realize algo de importante.” E Néki aguardou que o ser desconhecido que organizara todos estes acontecimentos manifestasse a sua vontade.

Mas nada aconteceu. Então, o jovem aproximou-se das flores que o fascinavam com as suas cores esplêndidas, e estendeu a mão para colher uma.

Foi cercado por uma forte ventania que o fez estremecer, enquanto uma voz grave gritava:

— Pára! Não toques nessas flores! — Néki sentiu-se interdito, e olhou por entre as árvores tentando perceber a quem pertencia aquela voz. Mas não viu ninguém.

A voz continuou: — As árvores que tens diante de ti são consagradas a Bayamé, tal como as flores e as abelhas que sugam o néctar dos cálices. Ai daquele que ousar tocar-lhes!

Néki prostrou-se então por terra num gesto de penitência e de submissão.

— Levanta-te — retomou a voz. — Nada receies! Eu sou o Espírito mensageiro de Bayamé e devo dar-te a conhecer a sua vontade. Escuta atentamente o que te vou dizer, porque te diz respeito, assim como a toda a tua tribo.

Néki levantou-se com uma expressão de grande respeito pelo seu interlocutor invisível. O Espírito mensageiro continuou:

— O sábio Bayamé, na sua grande generosidade, decidiu que estas árvores, flores e abelhas viveriam nestes lugares para alegria dos teus. Contudo, ninguém, — ouves bem? — ninguém deverá colher uma flor que seja, nem apanhar uma abelha, nem provar uma só gota de mel. Deves assegurar-te disto. Se seguirdes estas recomendações, sereis recompensados. Se desobedecerdes, sereis sujeitos a terríveis males e arrepender-vos-eis amargamente.

O turbilhão de vento que tinha envolvido Néki acalmou-se e parou de vez quando a voz se calou.

Néki, ainda confuso por todos estes prodígios, pensou com alegria: “Doravante, o meu povo poderá usufruir deste espectáculo magnífico!”

Contemplou ainda por muito tempo as flores e a dança das abelhas na clareira e depois pôs-se à procura do caminho para voltar a casa. Encontrou-o de imediato. A aldeia pareceu-lhe mais próxima do que pensava.

Impaciente por contar tudo o que lhe tinha acontecido, Néki chegou muito depressa à cabana onde estavam os sábios da tribo. Comentou, na presença de todos, o que tinha visto e escutado. No final, viu os anciãos abanar a cabeça, mostrando a sua incredulidade.

— Árvores cobertas de flores consagradas a Bayamé! Flores e abelhas! Isso são lendas! Se essa clareira prodigiosa existisse, tão próxima da aldeia, nós também a teríamos visto! — exclamou um dentre eles.

O chefe da aldeia acrescentou: — E porque é que o Espírito mensageiro se iria dirigir a Néki? A um mero caçador de cangurus? E que nem sequer é dos melhores?

— Algo lhe terá subido à cabeça! — comentou outro ancião.

Em contrapartida, os jovens acreditaram logo em Néki. As mulheres e as crianças, certos de que ele dissera a verdade, rodearam-no, dançando e gritando para mostrar a sua alegria.

— Corramos para apanhar os nossos potes de mel — disseram as mulheres.

Reviraram as cabanas de alto a baixo para encontrar os velhos recipientes, há muito tempo sem uso.

Os jovens, as mulheres e as crianças pediram a Néki para os guiar até à clareira e puseram-se todos a caminho. Os anciãos, ainda que incrédulos, decidiram também segui-los.

— Assim poderemos provar que tudo isto não passou de um sonho! — disseram para se justificar.

Em pouco tempo chegaram à clareira onde todos puderam ver as árvores cobertas de flores, apreciar o perfume delicado em redor e observar o trabalho contínuo das abelhas. Prostraram-se, agradecendo a Bayamé.

— Néki tinha razão! — exclamou um jovem.

— Alguns não quiseram acreditar nele e pensavam que ele era um mentiroso ou um sonhador! No entanto, Néki estava a dizer a verdade! — acrescentou outro.

Os anciãos sentiam-se muito embaraçados e murmuravam entre si:

— Como é possível que nunca tenhamos visto estas três árvores que ficam tão perto da nossa aldeia?

— Este jovem dizia a verdade e não quisemos acreditar na sua palavra!

Foi então que se ouviu a voz de uma criança que perguntava:

— E agora, podemos comer o mel?

— Sim, sim, vamos comer o mel! — gritaram em coro as outras crianças.

Também as mulheres se puseram a gritar que queriam encher os potes de mel e colher flores para embelezar as suas casas.

Aproximaram-se todos das árvores mas Néki barrou-lhes o caminho. Pôs-se diante deles e, com os braços abertos, gritou com uma voz possante:

— Parem! É proibido tocar nestas árvores consagradas a Bayamé!

O pequeno grupo estacou mas começaram a ouvir-se murmúrios de descontentamento e, logo depois, gritos:

— Porque é que Bayamé as teria feito crescer aqui? Apenas para que olhássemos para elas?

— Sai da frente, Néki. Deixa-nos colher as flores!

— Queremos mel! Queremos mel!

Sem sair do sítio, Néki falou mais alto e disse num tom ao mesmo tempo ameaçador e suplicante:

— O Espírito mensageiro avisou-me que a nossa tribo teria graves aborrecimentos se transgredíssemos as suas ordens. Disse-me igualmente que seríamos recompensados se não tocássemos nem nas flores, nem nas abelhas, nem no mel. E eu dei-lhe a minha palavra!

Por momentos, ficaram todos interditos com o que fora pronunciado de uma forma tão resoluta. Até àquele momento, ninguém tinha atribuído grande importância ao jovem caçador de cangurus. Mas, agora, a sua atitude era digna de um chefe.

Um dos anciãos tomou então a palavra, em nome de todos os seus amigos:

— Tens razão, Néki. Aceita as nossas desculpas por termos duvidado de ti. É verdade que a promessa que fizeste ao Espírito mensageiro diz respeito a todos nós. Nós, os anciãos, ficaremos aqui para guardar as três árvores e garantir que ninguém da tribo desobedeça às ordens de Bayamé.

Depois questionou a multidão em seu redor:

— Estão todos de acordo?

Um pouco contra a vontade, fizeram sinal de que estavam de acordo com esta sábia decisão. Depois, dispersaram em pequenos grupos, voltando-se para trás, de quando em vez, para lançar um olhar de cobiça às árvores iluminadas pelo sol que pareciam cada vez mais maravilhosas. Os velhos instalaram-se então em círculo à volta das árvores, enquanto que os jovens lhes levavam de comer e de beber.

Os dias foram passando… Os anciãos ficaram na clareira porque tinham decidido que ninguém deveria desobedecer a Bayamé. Se alguém precisasse de um conselho ou de uma opinião, vinha procurar o conselho dos anciãos, sentados debaixo das árvores entre as flores.

As crianças que se quisessem tornar caçadores de cangurus também iam até às árvores para escutar os ensinamentos dos anciãos. Assim se estabeleceu um vaivém contínuo entre a aldeia e a clareira. O que teria passado despercebido na vida da tribo se uma grande melancolia não se tivesse abatido sobre todos os habitantes da aldeia.

Com efeito, as mulheres lamentavam-se por não poder transplantar uma flor que fosse para os seus jardins, cada vez mais tristes e monótonos.

— Como seria bom regar as nossas flores ao crepúsculo, quando o ar é tão doce!

— exclamavam frequentemente.

As crianças, por seu lado, falavam sempre do mel cujo sabor nenhuma delas conhecia.

E uma delas perguntava: — Já viram as abelhas douradas que voam de flor em flor para sugar o néctar e o ir esconder sob a corcha das árvores?

E outra respondia: — Sim, mas o mel, esse nunca o vimos. Dizem que é doce e dourado e que, na boca, tem o sabor das flores.

E suspiravam tristemente, relembrando o alimento delicioso que lhes estava proibido.

Um dia, duas crianças da aldeia, dois irmãos, ficaram doentes por tanto desejarem o mel inacessível. No seu estado febril, continuavam a reclamar insistentemente o mel. A mãe, desesperada, sem aguentar mais as queixas, pegou no pote de corcha e, numa atitude de rebeldia, dirigiu-se para a clareira. Muitas outras mulheres e crianças a seguiram. Em seguida, vieram os homens.

Quando os anciãos os viram chegar, com uma expressão sombria e cheia de cólera, levantaram-se todos. O mais velho perguntou num tom severo:

— O que querem?

— Queremos mel para os nossos filhos — respondeu, em nome de todos, a mãe das crianças doentes.

— Tal não é possível, e vocês sabem-no! Este mel é sagrado. Pertence a Bayamé! Voltem para casa!

— E vocês, aí sentados noite e dia, será possível que ainda não tenham provado um pouco desse mel tão abundante que escorre das árvores?

— Nós somos velhos e sabemos resistir às tentações — respondeu o chefe. — Mas é verdade que também nós tivemos muita dificuldade em resistir. Compreendo que, por serdes fracos como as crianças, vos seja difícil uma tal força de alma.

Uma jovem aproximou-se a chorar: — Poderíamos, ao menos, colher uma flor? Só uma! Há milhares a crescer em volta destas árvores.

— Eu contentar-me-ia com uma semente para plantar no meu jardim! — disse uma velhinha. — Moro sozinha e uma flor seria para mim de um grande conforto.

— Não! Não é possível! — repetiram os anciãos com uma voz severa e os corações cheios de pena por verem toda aquela tristeza. — Voltem para vossas casas.

Ninguém se mexeu. A obstinação e o desafio estavam inscritos nas suas caras. As mulheres continuavam a agitar os potes. As crianças, à frente, fixavam em desespero as três grandes árvores. Os homens, por detrás, permaneciam mudos e imóveis, decididos a não deixar a clareira.

Então Néki avançou e declarou: — É preciso fazer qualquer coisa! Não é possível desobedecer a Bayamé, mas também não podemos deixar o nosso povo assim tão atormentado.

— O que podemos fazer? — perguntou-lhe o chefe dos anciãos com uma voz desolada, abanando a cabeça.

— Vou ver Bayamé e pedir-lhe que nos deixe usufruir das flores que crescem na terra para alegria de todos.

Um sorriso iluminou a cara das crianças e das mulheres, mas os velhos permaneciam tristes e sem esperança.

— Será que te dás conta do que isso representa, Néki? Ir ao encontro de Bayamé no País do Grande Repouso é uma tarefa impossível!

— E porquê? — insistiu o jovem.

— Precisarias de caminhar dias e dias em direcção aos montes Oubi-Oubi, e isto partindo do princípio que os poderás atingir. Aí, deverias procurar o caminho que leva ao país de Boullimah, onde repousa o sábio — explicou o chefe. — Nunca ninguém voltou de uma tal viagem — apressou-se a acrescentar.

Néki não se perturbou e repetiu: — Mesmo assim, vou tentar! Irei ver Bayamé! Mas vocês têm de me prometer que ninguém tocará nem nas flores, nem nas abelhas, nem no mel sagrado, até que eu volte!

— E se não voltares? — exclamou a mulher que primeiro se tinha revoltado.

— Farei tudo para que tenham notícias minhas. Mas quero que me prometam isso antes de me pôr a caminho.

Duas ou três vozes exclamaram: — Tens a nossa palavra!

Outras vozes fizeram eco. Em breve, todos gritaram a Néki que poderia confiar neles, que cumpririam a promessa até que ele voltasse. Então, o jovem retirou o fiel boomerang da cintura e disse:

— Não é preciso armas para chegar ao país de Boullimah. Lá chegarei, se Bayamé assim o desejar!

E pôs-se a caminho em direcção ao norte. Num desvio do caminho, lançou um olhar para trás para ver o seu povo que permanecia imóvel na clareira. As crianças olhavam-no com esperança, as mulheres e os homens com uma mistura de admiração e de dúvida. De qualquer forma, ninguém fez um só gesto que transgredisse as ordens dos anciãos.

Néki caminhava com o coração angustiado… Esperariam por ele sem tocar numa só flor? Sem provar um pouco de mel? Não seria exigir muito destas pessoas simples que apenas pediam para colher uma semente ou provar um pouco do mel que escorria das árvores em abundância?

E ele próprio, sem armas, sem experiência, será que conseguiria atingir esse país longínquo onde, segundo diziam, repousava o sábio Bayamé? Contudo, pensava depois destas hesitações, “é o Espírito mensageiro que me permitiu conhecer a vontade de Bayamé. Ele ajudou-me E ajudar-me-á novamente.” E sentiu as suas forças reanimadas por tal pensamento.

Caminhou assim durante dias e dias, sem sentir fome ou sede. Chegou, por fim, ao sopé dos montes Oubi-Oubi. Era uma cadeia inacessível, com paredes rochosas, de tal forma abruptas e escarpadas que pareciam cristal.

Néki procurou durante horas um sítio para escalar mas teve de renunciar.

Decidiu-se então a dar a volta à montanha para descobrir uma passagem. E pôs-se a caminho. Explorava todos os declives, todas as anfractuosidades da rocha. Após longos dias de caminhada, encontrou um local onde a escalada era possível.

Começou a trepar lentamente o declive. Ao fim de uma hora de subida cansativa e perigosa, reparou que a rocha estava entalhada numa sucessão de inúmeros degraus, formando uma escadaria gigantesca que se perdia nas nuvens.

Continuou a ascensão, mais facilmente desta vez. Mas a escadaria em pedra era tão comprida que subiu durante todo o dia, sem lhe ver o fim. Quando caiu a noite, o jovem, esgotado, enroscou-se no buraco duma rocha e adormeceu.

Ao nascer do sol, retomou a caminhada até ao cume. Os degraus em pedra desenhavam uma gigantesca espiral que serpenteava no flanco da montanha e se elevava interminavelmente.

Néki subiu assim no segundo dia, no terceiro, no quarto. De noite, repousava sobre as pedras duras. Na noite do quarto dia, chegou, por fim, ao cimo do monte.

Da anfractuosidade da rocha escorria uma fonte de água límpida onde Néki matou a sua sede, esquecendo momentaneamente a grande fadiga que lhe entorpecia todos os músculos. O ar era puro e sentiu-se, pouco a pouco, revigorado. Olhou à sua volta e reparou que estava numa espécie de pequena plataforma, em cujo centro se erguiam pedras dispostas em círculo. Ao ir no seu alcance, foi sacudido por uma forte rajada de vento.

Foi então que escutou a voz poderosa do Espírito mensageiro:

— Que vens aqui fazer, Néki, neste lugar sagrado, dedicado a Bayamé?

— És mesmo tu, o Espírito que um dia me falou na clareira das três árvores cobertas de flores? — perguntou Néki.

— Sou eu mesmo, o Espírito mensageiro. Que desejas?

— Nesse dia, mostraste-me o lugar onde a minha tribo poderia usufruir da contemplação das flores e das abelhas consagradas a Bayamé — começou Néki. — Eles aproveitaram essa grande benesse, mas desde então uma grande melancolia tomou conta dos seus corações. As crianças queriam provar o mel, mas as mães não podem dar-lho. As mulheres gostariam de ter algumas flores para embelezar as cabanas, mas não as podem colher e ninguém pode pegar numa semente que seja para plantar no jardim. Os anciãos da aldeia têm de estar de guarda às árvores sagradas dia e noite para que ninguém ouse tocar-lhes. Não teria sido melhor para todos conhecer estas maravilhas apenas através das lendas contadas pelos velhos? No entanto, podes dizer a Bayamé que, apesar da sua infelicidade, o meu povo não tocou nem numa flor nem numa gota de mel.

— O sábio e generoso Bayamé sabe disso — retomou o Espírito mensageiro — e está contente com a vossa obediência. Prometeu recompensar-vos e manterá a sua promessa. Posso satisfazer um dos teus desejos, escolhe! O que queres? As flores? As abelhas? Ou o mel?

Néki não teve de pensar muito. Respondeu prontamente:

— Não me é difícil escolher, Espírito mensageiro. Sei que se pedisse o mel, tornaria as crianças e as mães felizes. Mas, mesmo que o generoso Bayamé nos desse uma grande quantidade de mel, esgotar-se-ia num dia. E a tristeza invadiria de novo a aldeia. Se te pedisse as abelhas, fabricariam mel durante algum tempo, mas depois iriam embora porque teriam que colher o polén noutras flores… Restam-me, pois, as flores, se o generoso Bayamé mas quiser dar.

— A tua escolha é sábia — observou o Espírito mensageiro. — Vou levar-te um pouco mais alto. Nada temas. É o único meio de atingir o país de Boullimah.

Néki sentiu que o elevavam em direcção ao céu, onde voou, leve, como se o seu corpo não tivesse peso. Pouco depois, encontrou-se deitado num prado florido que se estendia a perder de vista. Era o país do Grande Repouso.

Sobre a relva de um verde esmeralda, as flores estavam dispostas em filas segundo as cores: as vermelhas perto das azuis, as azuis perto das violeta, as violeta junto às amarelas, e por aí diante, como se arco-íris infinitos pousassem na vasta pradaria. Fascinado pelo espectáculo, Néki deu consigo a pensar que ficaria de bom grado ali, naquele lugar de paz e de beleza onde poderia esquecer todas as misérias da terra.

Mas logo de seguida lhe veio à memória o seu povo que o esperava lá em baixo.

Recordou a expressão de esperança das crianças. A voz do Espírito fez-se, de novo, ouvir:

— Colhe as flores que quiseres, Néki, e leva-as para a terra.

O jovem lançou-se de imediato ao trabalho, tendo o cuidado de escolher flores de todas as cores, de todas as formas, de todos os perfumes e de todas as espécies possíveis.

Colheu as flores que embelezam os jardins e outras que crescem naturalmente nos prados. Colheu as espécies que se escondem em regos e outras que desabrocham na superfície das águas. Colheu as flores que rastejam pelos muros e outras que atapetam as pradarias; flores modestas e flores soberbas, flores cintilantes e flores perfumadas… Colheu tamanha quantidade que não sabia onde pô-las. Tinha os braços carregados e tinha flores nos cabelos, à cintura, na boca!

Quando já não conseguiu colher mais, os espíritos elevaram-no e transportaram-no de novo. E Néki deu por si no meio do círculo de pedras, no topo dos montes Oubi-Oubi.

Sentiu a rajada de vento que o fustigara, e ouviu, pela última vez, a voz do Espírito mensageiro:

— Volta à terra e leva ao teu povo o dom de Bayamé. Onde deixares cair as flores, elas criarão raízes. O vento de leste trará a chuva que fecundará a terra. De ocidente, virá o vento da Primavera que encherá as plantas de rebentos. No Verão, o vento do norte fará desabrochar todas estas flores. Quando chegar o Inverno, as flores desaparecerão. Mas deverás sossegar o teu povo: na Primavera, as flores voltarão para vossa alegria, e assim será na terra até ao fim dos tempos, porque Bayamé cumprirá a sua promessa.

A voz calou-se. Néki apressou-se a descer a escadaria em pedra, apertando contra si todas as flores que permaneciam miraculosamente frescas.

Quando chegou ao sopé da montanha, retomou o caminho que o havia conduzido até lá e, voltando as costas à cadeia de montanhas aureolada de nuvens, dirigiu-se rapidamente para a aldeia. Caminhou sem comer e sem beber durante dias: o perfume das flores bastava para o alimentar e lhe dar forças. Dormia algumas horas, de vez em quando, e era o suficiente.

Por fim, entreviu a aldeia escondida no fundo do vale. E o coração apertou-se-lhe ao pensar que, na sua ausência, a população não teria respeitado a promessa feita.

Viu as árvores que circundavam a aldeia, os pequenos jardins onde nenhuma flor desabrochava.

Avançou a tremer e foi reconhecido por um rapazinho que se pôs a gritar:

— Néki voltou! Néki voltou!

E este grito propagou-se de cabana em cabana, veloz como o vento. Várias crianças correram até à clareira encantada para avisar os anciãos, que mantinham a guarda às três árvores.

Mulheres, crianças e homens vieram ao encontro do caçador de cangurus. Os próprios anciãos deixaram a clareira para vir escutar a história do intrépido viajante.

Néki observou a sua expressão e isso bastou-lhe para compreender que tinham mantido as suas promessas. Tinham o olhar límpido e encaravam-no de frente. Néki não disse uma só palavra mas ergueu bem alto o seu carregamento de flores. Todos exultaram.

Sem lhe fazer qualquer pergunta, seguiram-no e observaram-no, como que sujeitos ao poder de um encantamento.

Néki avançou lentamente e foi deixando cair as flores aqui e ali, uma após a outra.

Uma flor caiu num arbusto que se cobriu imediatamente de botões dourados. Outra caiu num monte de terra dura que de imediato se encheu de mil corolas rosa. A seguinte deslizou entre um monte de pedras e as pedras ficaram submersas por milhares de campânulas cor do céu. Néki atirou algumas corolas para a água lodosa de um pântano, e várias centenas de nenúfares desabrocharam à superfície.

Onde quer que caíssem, as flores criavam raiz e multiplicavam-se até mais não poder. Os pequenos jardins perto das cabanas animavam-se com mil cores cintilantes, tal como as árvores escuras que rodeavam a aldeia.

Em pouco tempo, prados, bosques e cursos de água tornaram-se uma festa de cores e de perfumes.

Então, vindo dos longínquos montes Oubi-Oubi, o vento de leste soprou. E como o Espírito mensageiro dissera, trouxe uma chuva benéfica que fecundou a terra.

As cores das flores ficaram ainda mais brilhantes e o seu perfume mais penetrante.

Depois, vieram as abelhas. Pousaram em todas as flores, sugando avidamente o néctar, procuraram buracos na corcha das árvores para aí colocar o seu delicado carregamento.

Passados alguns dias, as crianças, deliciadas, puderam provar o mel e houve-o em abundância para toda a tribo.

Néki foi levado em triunfo. Era o salvador do seu povo!

Teve de contar dezenas e dezenas de vezes como se desenrolou a viagem e como os espíritos o tinham levado ao país do Grande Repouso, onde reina uma paz eterna.

Mas quando chegou o Outono, as flores começaram a murchar e os aldeões caíram em desespero.

As raparigas que tinham o hábito de enfeitar os cabelos com corolas multicolores, as mulheres que decoravam todos os dias o interior da cabana com grinaldas de flores, as mães que guardavam ciosamente nos potes o mel para toda a família e, sobretudo, para os mais pequenos, os velhos que retiravam do mel novas forças…, todos tremiam pensando ter ofendido Bayamé com algum pecado.

Néki deixou-os reflectir longamente sobre a sua conduta, porque pensava, sabiamente, que era muito bom que os homens se interrogassem sobre as suas acções. Por fim, disse-lhes:

— O Espírito mensageiro prevenira-me deste desaparecimento das flores durante o Inverno. Da mesma forma que as folhas das árvores amarelecem e caem, as flores também devem murchar e desaparecer, para viver de novo, depois de uma morte aparente. Esperai todos, com confiança, a Primavera!

Olharam-no com desconfiança, tal como acontecera quando ele anunciou a partida para o país de Boullimah. Longa e difícil foi então a espera…

Depois, com o bom tempo, voltaram as flores e as abelhas que pousavam de novo nos cálices.

O povo, feliz, decidiu que Néki deveria tornar-se o chefe da aldeia. A sua sabedoria constituiu um exemplo para todos. Foi amado e honrado toda a vida e, depois de morrer, a sua recordação ficou na memória de todos. Tornou-se mesmo o herói de maravilhosas lendas.

Michel Langrognet et al. (org.)

Le chat botté et autres contes merveilleux

Paris, Le Livre de Paris, 1980

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