A aldeia de Todos-Reis

Há muitos, muitos anos, havia uma aldeia que se chamava Todos-Reis.

Na aldeia de Todos-Reis, os habitantes eram mesmo todos reis. Então, todos os reis dessa aldeia viviam num castelo real e todos levavam uma vida de rei.A aldeia de Todos-Reis - Contos infantis

Na aldeia de Todos-Reis, ninguém recebia ordens de ninguém porque ninguém manda num rei.

Mas todos eles queriam dar ordens a toda a gente.

Assim, as discussões eram constantes.

Um dia, chegou um jovem à aldeia de Todos-Reis.

A aldeia de Todos-Reis - Contos InfantisNão era um rei e não vivia num castelo…

Vinha de uma longa viagem e sentou-se à sombra de uma árvore para descansar.

O seu descanso foi logo interrompido quando chegou um rei.

— Eu sou o rei — disse. E acrescentou:

— Para descansares à sombra da minha árvore tens de me pagar uma taxa.

Surpreendido, o jovem desconhecido, preparava-se para pagar o montante devido.

Nem teve tempo de pegar na bolsa pois chegou outro rei que lhe disse:

— Não dês ouvidos a esse bandido com uma coroa na cabeça. Sou eu o rei da aldeia de Todos-Reis e é a mim que deves pagar.

O jovem forasteiro começou a esfregar os olhos, pensando que estava a ter visão dupla.

Pouco depois, um outro rei veio ter com eles.A aldeia de Todos-Reis - Contos Infantis

— Nesta aldeia, não há nenhuma taxa para dormir à sombra de uma árvore. Mas há uma taxa para se deitar na relva do rei e, como aqui o rei sou eu, é a mim que tens de pagar.

Em pouco tempo, o jovem viu-se rodeado por todos os reis da aldeia de Todos-Reis que chegavam uns atrás dos outros para exigir o pagamento ora de um imposto, ora de uma taxa.

A aldeia de Todos-Reis - Contos InfantisE logo começaram a discutir violentamente uns com os outros.

O forasteiro tentava acalmá-los.

— Isto é um disparate! — disse — Em todas as aldeias existe um rei, mas um único rei! Digam-me qual de vocês é o rei e eu pagarei o que lhe é devido.

Um dos reis disse:

— Ó forasteiro, já que não tens papas na língua, diz-nos, na tua opinião, quem de entre nós é o rei.

— Sim, diz-nos tu quem é o rei — empertigaram-se os outros em coro.

O forasteiro pensou um pouco:

— Pois bem, em primeiro lugar, um rei, para ser mesmo um rei, deve ter muita paciência.

Os reis responderam em coro:

— Certo! Isso é fácil! Todos nós aqui temos muita paciência. Diz-nos já qual de nós é o rei.

— Penso que um rei deve também ser inteligente.

— Eu, uma vez, vi um livro!

— Eu tenho um primo médico!

— Eu sei distinguir um cavalo de um burro e nunca me engano!

— Eu sei falar com os olhos fechados!

— Eu sei contar pelos dedos até nove!

— Muito bem, muito bem! Vejo que são todos muito inteligentes e, assim, não consigo ainda decidir-me. Um rei deve ser também muito corajoso.

— Eu vi uma vez um rato e não gritei!

— Eu dei um salto muito alto!

— Eu, esta noite, vou dormir sem o meu ursinho!

— Eu sou capaz de comer brócolos crus!

— Eu não tenho medo de animais selvagens!

— Bem, já entendi. Na verdade, sois todos muito fortes, corajosos e inteligentes! Vou testar-vos pela última vez e assim, finalmente, poderei dizer quem é o rei da aldeia de Todos-Reis. Prestem muita atenção: o rei será o primeiro a sair da aldeia e o último a regressar.

Sem refletir, os reis partiram a toda a velocidade, cada qual determinado em ser o primeiro a partir e… o último a voltar. O estrangeiro teve assim todo o tempo do mundo para descansar tranquilamente à sombra da árvore e, depois, ir embora sem pressas.

Só um último pormenor: na aldeia de Todos-Reis, já há muito tempo que não se vê um rei…

Tulio Corda

Le village de Tous-Rois

Paris, Minedition, 2005

(Tradução e adaptação)

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