A loja do velho chinês

1

Era uma vez um rapaz que gostava da guerra. É claro que ele gostava da guerra porque não conhecia guerras a sério. Era novo demais para ser soldado, e vivia com os pais, a avó e o gato numa bela casa com jardim e piscina, num país bem tranquilo. A guerra de que este rapaz gostava era a dos jogos de vídeo. Uma guerra em que se perdem pontos, mas não um braço ou uma perna, e muito menos a vida.A loja do velho chinês - Histórias de encantar

Milred, o nosso rapaz, adorava esta guerra. Era aquilo a que se chama um vencedor nato. Queria ser o primeiro em tudo e conseguia-o, quase sempre, o que enchia de orgulho o pai. Na escola, era o melhor em Matemática e Francês, e também o era a Educação Física. Pertencia ao clube de basquete e, segundo o treinador, era o motor da equipa, apesar da sua baixa estatura. Quando faltava aos jogos, a equipa sentia-se frágil e desanimada, pronta a aceitar qualquer derrota. Quando Milred estava presente, era sempre o capitão.

Milred já tinha experimentado todos os jogos de vídeo. Tinha testado os combates de rua, os jogos de futebol e as caçadas ao tigre na selva. No entanto, só gostava de jogos de guerra. Não que gostasse de todos. Os duelos com espada eléctrica aborreciam-no depressa e as lutas pré-históricas à cacetada faziam-no rir. Os únicos que nunca o cansavam eram os jogos de guerra com bombas e balas, napalm e granadas, minas e rockets.

A sua arma favorita era a aviação. Era capaz de entrar pela noite dentro a pilotar um caça. A mãe, inquieta com a saúde do filho, vinha muitas vezes mandá-lo deitar. Milred protestava, mas acabava sempre por obedecer. Era um rapaz respeitador. Era. Até começar a jogar o Fighting Night, que um tio lhe oferecera pelo Natal. Este jogo fazia-o desobedecer a toda a gente.

A loja do velho chinês - Histórias de encantarSempre que a mãe lhe pedia para se deitar, Milred fazia de conta que obedecia. Uma vez na cama, esperava até que a casa estivesse mergulhada num profundo silêncio. Então, levantava-se de novo e ligava a televisão. Sem som. O barulho surdo do aparelho lembrava-lhe a cabina pressurizada dos aviões de combate. Deitado no tapete de lã fofa, com os dedos suaves a dedilharem a consola, o rapaz sentia-se um herói. A sua missão consistia em atingir um alvo marcado com uma cruz, situado no coração de uma cidade adormecida.

Uma cidade em estado de alerta, com todas as luzes apagadas, na qual era necessário voar a muito baixa altitude por causa dos radares. Uma cidade a sério, selvaticamente defendida pelos disparos incessantes da defesa anti-aérea. Milred deslizava por entre os obstáculos, tentando desencorajar os mísseis tele-comandados que o perseguiam. Largava as bombas sempre em cima do alvo e sempre no último minuto. Tinha direito a duas tentativas falhadas por jogo, com a condição de acertar à terceira; caso contrário, não regressaria incólume. Aliás, nem sequer regressaria.

Só estava há um mês com este jogo, mas já tinha atingido o nível 5. Neste nível, o jogador dispõe de menos tempo, os edifícios são mais altos e mais próximos, o alvo só é conhecido no último segundo, e o fogo da artilharia anti-aérea é imparável. Até agora, nunca regressara à base incólume e nunca vencera uma missão. Conseguiu-o nessa noite, exactamente às 3 h 25 da manhã, como indicava o rádio-despertador. Milred quase gritou de alegria.

Nessa altura, ainda sob o choque da emoção, viu aparecer no ecrã uma indicação rara na conclusão deste tipo de jogos. O texto começava por “Bravo! Ganhaste!” Até aqui tudo bem. “És o melhor, o mais forte, o campeão!” Também era normal. Estranhas eram as letrinhas na parte inferior do ecrã, que piscavam sem cessar: “Se te sentes com coragem para atingir um nível de jogo mais elevado, vai à loja do velho chinês.” Milred desligou tudo e deitou-se na cama. Teve muita dificuldade em adormecer, pois a indicação continuou a aparecer nas paredes do seu quarto, mesmo depois de o rapaz ter cerrado as pálpebras.

2

Milred conhecia muito bem a loja do velho chinês, como aliás todas as crianças do bairro, e não acreditava que a pista do jogo se referisse à loja que ele conhecia. Esta era tão antiquada e os jogos eram tão modernos… Mas, como não tinha aulas, decidiu ir ver o que se passava. Disse em casa que tinha de ir à cidade fazer uma compra e saiu.

A loja era mesmo propriedade de um senhor chinês, muito velho, que vendia bombons, só bombons. Era um verdadeiro chinês, com uma trança comprida e um chapéuzinho redondo na cabeça. Tinha sempre as mãos entrelaçadas sobre o peito e cumprimentava as pessoas inclinando o corpo várias vezes, sem falar. Servia ele próprio os clientes, enfiando os seus dedos longos nos bocais de vidro que enchiam o balcão. Era simpático e sorria constantemente. Pelo menos, assim parecia.

Por detrás da porta da loja, estava pendurada uma campainha que tocava suavemente sempre que um cliente entrava ou saía. Nada de misterioso, portanto. Milred conhecia a loja muito bem porque adorava bombons, quase tanto quanto adorava jogos de guerra. Quando chegou perto da loja, deu algumas voltas antes de entrar. Queria ver se havia algo de diferente, mas a loja estava igual. As janelas continuavam sujas, cobertas de caganitas de moscas e de decalcomanias publicitárias.

Por cima da porta, em letras que faziam lembrar as iluminuras de um pergaminho, havia uma inscrição: DOÇURAS E GULOSEIMAS. Nada que tivesse a ver com jogos de vídeo. Quando o rapaz decidiu finalmente entrar, fê-lo movido pela semelhança entre a decoração da loja e os cenários dos jogos de vídeo, que também são exóticos e parecem pertencer a um outro tempo. Era como se, desta vez, o jogo tivesse saído dos limites do ecrã e passado para o quotidiano. Ver este jogo era um prazer que Milred não podia dispensar.

Empurrou a porta da loja e entrou. Soube logo que não se tinha enganado. Mal tinha fechado a porta e ouvido o som discreto da campainha, deparou com prateleiras cheias de jogos de vídeo. Nunca tinha visto tantos. Estavam cuidadosamente colocados em prateleiras metálicas e as luzes fluorescentes da loja faziam ressaltar as cores das caixas. As prateleiras de madeira poeirentas tinham desaparecido. Surpreendido, Milred dirigiu-se ao dono da loja:

— Bom-dia, Sr. Chow-Low! Já não vende bombons?

O chinês sorriu, ou fez de conta, e o rapaz viu que também ele tinha mudado. Tinha cortado a trança comprida e mudado de roupa. Já não trazia chapéu e vestia calças de ganga e uma camisa de manga curta. Parecia ter rejuvenescido vinte anos.

— Já não vendo bombons há muito tempo, jovem.

Falava sem sotaque, e não inclinava o corpo mecanicamente nem tinha as mãos colocados diante do peito. Era em tudo um comerciante vulgar.

— Há muito tempo? — admirou-se Milred, que ainda lá tinha estado na semana passada a comprar guloseimas.

Mas não adiantou mais nada, porque o conteúdo das prateleiras era algo de extraordinário. O chinês foi sensível à admiração do rapaz e disse, usando as técnicas de venda mais modernas:

— Vê à vontade. Se precisares de alguma informação, dispõe.

O dono da loja foi sentar-se a um computador e Milred sentiu vontade de mexer em tudo. No entanto, lembrou-se da razão concreta que o fizera ir ali.

— Muito obrigado, Sr. Chow-Low, mas hoje venho buscar o Fighting Night, nível 6. Ganhei o jogo e lá dizia que devia vir à sua loja.

— Ah, o Fighting Night! Venceste um jogo muito duro. Agora queres o Fighting Night II. Muito bem, vou buscá-lo.

Deixou o computador e foi à parte de trás da loja. Apesar do aspecto diferente, conservava o mesmo andar. Enquanto andava, dizia:

— Este jogo é um produto muito especial. Como não é como os outros, não posso expô-lo da mesma forma.

Desapareceu por instantes e regressou pouco depois:

— Ei-lo! Vais ver que não ficas desiludido.

— Muito obrigado, Sr. Chow-Low. Quanto é?

— Não é nada. Ganhaste o jogo, mereces esta recompensa.

Milred murmurou um agradecimento e dispôs-se a sair. Só que a porta tinha desaparecido. Melhor, tinha sido substituída por uma porta de vidro deslizante.

— Não compreendo. Quando entrei ainda há pouco…

— Já me esquecia de te dar um saco — disse o homem, sem mostrar ter ouvido as objecções de Milred.

Meteu o jogo num saco plástico de cores berrantes e disse de novo:

— Vais ver que não ficas desiludido. Até breve. Vai dando notícias.

O rapaz, continuando a agradecer por murmúrios, saiu para o passeio com o novo tesouro na mão. Caminhou até ao fim da rua e, antes de virar de direcção, não resistiu a olhar para trás. A loja tinha sido rebaptizada JOGOS DE VÍDEO e o dono acenava-lhe gentilmente com a mão, enquanto acendia um cigarro, sem dúvida americano.

Milred não perdeu tempo com perguntas sem resposta. O Sr. Chow-Low tinha-lhe dado um jogo novo, o Fighting Night II, e a única coisa que ele queria era começar a jogar logo que pudesse. Desatou a correr para casa mas, não querendo levantar suspeitas, abrandou quando chegou perto da esquina. Não pôde começar logo a jogar porque, primeiro, teve de percorrer de novo os níveis inferiores do jogo. Quando chegou ao nível 6, porém, o jogo obrigava-o a esperar pela noite para poder começar. No ecrã estava escrito PARA MISSÃO NÍVEL 6, IMPERATIVO ESPERAR NOITE. MISSÃO IMPOSSÍVEL DE DIA. O que podia ele fazer? Ter paciência, claro, e jogar outros jogos antes de começar esse. Até que a mãe lhe disse para se deitar. Então, no silêncio total da casa, Milred levantou-se e dispôs-se a iniciar a sua aventura.

Depois de introduzido o código inicial, o jogo de nível 6 desenrolou-se da mesma forma que o de nível 5 até ao primeiro disparo da artilharia anti-aérea e até ao primeiro rocket tele-comandado. De repente, tudo se intensificou: os disparos tornaram-se mais brutais, rápidos e inesperados, e o tapete debaixo do corpo de Milred começou a agitar-se a cada deflagração.

— Esta agora! — sorriu Milred, que não parava de carregar nos botões da consola, fosse para se esgueirar de algum tiro mortal, mergulhando ou subindo o avião, fosse para desferir as suas bombas sobre o inimigo.

O rapaz falhou o primeiro alvo. Apareceu tão de repente, mascarado pelo nevoeiro nocturno, que o avião já se tinha desviado quando o botão foi accionado. Foi atingido um imóvel civil, por engano. Um imóvel que se incendiou antes de desaparecer por completo. Embora tudo tenha sido muito rápido, Milred achou que tinha visto uma mulher com o filho por entre o clarão das chamas, com os cabelos eriçados pelo sopro da explosão… ou pelo medo da morte. Viu ou pareceu-lhe ver. “O que é isto?” pensou. Teve vontade de parar, mas o avião não deixava. O rapaz começou a suar. Não estava calor, mas ele suava. Largou os comandos para enxugar a testa por instantes. Desta vez, o míssil atingiu-o na retaguarda. Sentiu uma queimadura na ponta dos pés. Virou-se instintivamente e viu um buraco enorme na parede do quarto.

— Deixa! Avança e concentra-te.

Então, sem que pudesse sequer fazer um gesto, o segundo míssil atingiu-o. Não só atingiu o avião como fez explodir a televisão. Milred sentiu o ar frio da noite no rosto. Quando abriu de novo os olhos que fechara por instinto, viu que estava em pleno ar, agarrado a um pára-quedas. Sem saber porquê nem como, descia lentamente em direcção à terra, envolto em nevoeiro e escuridão. O sistema de segurança do avião tinha-o ejectado e Milred via a sua casa a flutuar no céu. A casa onde deviam estar a mãe, o pai, a avó e o gato, e que acabou por ser pulverizada. Milred continuava a descer e, pela primeira vez, desde que começara a jogar às guerras, teve medo.

3

E tinha razões para ter medo, pois nada sabia do mundo onde agora entrava. O mundo do outro lado do ecrã. Não aquele onde as bombas são activadas pela simples pressão de um dedo nervoso ou negligente sobre um teclado, mas aquele no qual as bombas aterram de verdade, causando destruição. Durante bastante tempo, nada pôde descortinar. As nuvens baixas que pairavam sobre a terra, aquelas mesmas que tinham tornado a sua missão tão difícil, mascaravam a paisagem e serviam-lhe de amortecedor. Quando enfim saiu das nuvens, dobrou as pernas instintivamente, porque sentia estar perto do solo. Estava tão perto que podia ver os pormenores do mundo que, em breve, seria o seu. Diante dele, erguia-se uma cidade cujos edifícios conhecia bem. Alguns ardiam e o fumo negro dos incêndios desaparecia no céu.

A loja do velho chinês - Histórias de encantarA seus pés, surgia um imenso terreno vazio, semeado de construções diversas, de barracas com telhados de chapa, barracas baixas e frágeis, tão repugnantes como pústulas num rosto. Entre as barracas, havia ruelas cheias de imundícies. E, por todo o lado, na soleira de casas que outrora tinham portas, com os pés enfiados na lama ou em cima de montes de entulho, estavam pessoas: homens, mulheres e crianças. Imóveis e mudos, olhando o céu, esperaram que Milred descesse.

Milred percebeu que ia aterrar nos bairros de lata dos subúrbios e o pânico tomou conta dele. Tudo nele se recusava a entrar naquele mundo hostil, embora não estivesse em condições de recusar. Por muito que puxasse pelas cordas do pára-quedas, o vento não soprava de molde a afastá-lo do local. Quando aterrou, a multidão cercou-o, em silêncio, tão devagar que pareciam estátuas.

Milred reparou sobretudo nas crianças e nos seus olhos de mortos-vivos. Olhos vazios, sem amor ou ódio. Olhos cravados nele e esgazeados.

O rapaz quis pôr-se de pé, mas nem sequer teve tempo para esboçar o gesto. Sentiu-se erguido no ar e viu a lâmina de uma faca a cortar as correias do pára-quedas. Os braços não o largaram mais. Avançava sem que os pés tocassem o solo. Não conseguiria andar, de qualquer maneira. O círculo transformara-se numa coluna de gente que o seguia mas, em breve, a estranha procissão parou. Diante deles estava uma cidade em escombros. Milred foi bruscamente largado e quase caiu. A população fez semi-círculo e o seu olhar acusador obrigou o rapaz a defender-se:

— Não fui eu que fiz isto! Aquilo não passava de um jogo!

No edifício mais próximo, Milred reconheceu aquele onde vira a mulher e a criança. Só que isto não era um jogo. Tentou, em vão, convencê-los da sua inocência, mas os rostos continuavam impassíveis.

Não compreendiam o sentido das suas palavras. O rapaz sentiu que algo de terrível estava iminente, que esta espécie de recolhimento das pessoas não duraria para sempre. Ouviu uma sirene de alarme e viu o nervosismo que sacudiu a multidão, pronta a dispersar. Uma dezena de jipes militares aproximava-se. Os soldados vinham de certeza buscá-lo, libertá-lo, salvá-lo. Seria feito refém, claro, mas era preferível. Os soldados pegaram nele e levaram-no.

A loja do velho chinês - Histórias de encantarComeçou a partilhar o horror da sua vida quotidiana, durante tantos dias e noites que lhes perdeu a conta. Seguia-os de esconderijo em esconderijo, de abrigo em abrigo, sob nuvens de pó e barulho de obuses. Às vezes, os disparos dos rockets enfiavam-nos em buracos tão fundos e sombrios como túmulos. Outras vezes, eram obrigados a abandonar os jipes e a caminhar durante horas a fio sob um sol abrasador ou numa noite gelada. Milred já não sentia  os  pés.  Estavam  demasiado  inchados  para pertencerem ao seu corpo. Já não conseguia erguê-los. E, contudo, continuava a erguê-los, porque era preciso caminhar.

Tinha a sensação de viver num mundo louco ou de ter ele mesmo enlouquecido. Fazia perguntas, mas não obtinha respostas, porque aqueles homens não falavam a sua língua. Não eram particularmente maus e davam-lhe de comer e beber com frequência, sempre que lho pedia por gestos. Mas eram soldados, eram guerreiros. Tinham uma missão a executar e faziam-no sem hesitações.

Quando a errância chegou ao fim, quando esta fuga sem motivo aparente terminou, Milred achou que tinha chegado a algum lado. A um lado onde pudesse enfim repousar, recuperar forças, conhecer um pouco de calma, por frágil que fosse.

Encontrava-se agora numa casa a sério. Já não se tratava de um abrigo. Os soldados partiram de novo, para aqueles lugares atormentados onde o soldo os obrigava a ir. Aqui Milred estava a salvo, mas também não podia escapar. Eles saberiam onde encontrá-lo. Era uma casa a sério, mas diferente de todas as que conhecera.

A fachada estava enterrada numa falésia e tinha duas janelas e uma porta rodeadas por uma moldura de cal. O resto da casa prolongava-se para dentro da montanha, sob a rocha. Apesar da terra batida e das paredes húmidas, Milred soube que estava numa verdadeira casa porque uma família a habitava. Uma família parecida com a sua, com pai, mãe, uma filha, um gato e uma avó velhíssima.

Não olhavam o rapaz com maldade: apesar de não ignorarem a guerra, esta era demasiado longínqua para que sentissem hostilidade em relação a ele. Como era seu convidado, ofereceram-lhe de comer e beber e mostraram-lhe onde dormir: um colchão de palha num canto sombrio. Tudo aqui era sombrio, aliás. Mas não era a altura de fazer perguntas. Era altura de repousar e de dormir sem medo. Bebeu leite coalhado, que achou delicioso, comeu pão mergulhado num caldo de legumes, deitou-se e dormiu. Dormiu como nunca pensara um dia dormir.

4

Quando acordou, encontrou o seu mundo tão drasticamente alterado que pensou ter sonhado. O sol brilhava e fazia-lhe cócegas, tal e qual como em casa, quando a mãe abria os cortinados. O gato, encostado a si, ronronava e queria brincar. Tal e qual como o gatinho lá em casa, quando era autorizado a entrar no seu quarto. Onde estaria ele agora? Continuava do outro lado do ecrã, obviamente. As paredes húmidas da casa fumegavam ao sol e a mãe desta família cozia bolos de farinha num braseiro. Cheirava bem e Milred sentia-se bem, embora habitasse agora um mundo que lhe era completamente estranho.

Percebeu que o observavam. Era um olhar fixo e pesado, embora não fosse agressivo. Era antes extremamente curioso e interessado. O olhar pertencia à rapariga que, sentada junto da mãe, pegava nos bolos a queimar e colocava-os debaixo de um farrapo, sempre a olhar para ele. Milred sentou-se na sua cama improvisada e passou a mão pelos cabelos em desalinho.

Acariciou o gato, que aproveitou logo para saltar-lhe para os joelhos, e sorriu para a rapariga que, embora fosse uma desconhecida, lhe tinha dado as boas-vindas através do olhar. Eram olhos enormes e intensos, do feitio de frutos. Quando a rapariga se levantou, Milred viu que era alta e magra, mais alta do que ele, se bem que não mais velha. Pôs o último bolo que a mãe fizera numa bandeja, juntamente com um copo de vidro cheio de um líquido fumegante, talvez chá, e colocou tudo diante de Milred. Enxotou o gato e foi de novo sentar-se. A mãe nem sequer se virara.

Milred devorou o bolo como se não comesse há meses. Era a primeira vez que o seu estômago aceitava bem comida. Mal acabou, a rapariga aproximou-se com outro bolo. O rapaz queria recusar, fazer cerimónia, mas acabou por comê-lo. Desta vez, comeu mais devagar, para saborear melhor. A mãe tinha saído e só ele e a rapariga estavam em casa. Contudo, parecia-lhe ouvir um rádio a tocar em surdina. Descobriu, por fim, depois de os olhos se terem habituado ao contraste entre a luz e a sombra, a presença da avó da família. Estava coberta por um véu negro e as suas mãos dedilhavam um terço. Balançava o corpo e cantarolava sem cessar. Afinal, o ruído que ele ouvira não provinha de um rádio.

Milred teve vontade de rir. A rapariga adivinhou o que tinha acontecido e riu também. Milred gostava de guerras e de bombons, mas não gostava de raparigas. Na escola nunca brincava com elas, porque as achava muito estúpidas. Costumavam juntar-se em grupinhos a cochichar, em vez de jogar à bola ou de correr, como ele e os outros rapazes faziam.

Mas esta não era uma rapariga como as outras. Esta era quase uma amiga, porque adivinhava o que ele pensava, sem se impor. Por exemplo, Milred queria sair e passear um pouco e, sem que lho dissesse, já ela se levantava. O rapaz calçou os sapatos e foi ter com ela à esquina da rua.

À esquina de uma rua porque, ao contrário do que tinha pensado, esta não era uma casa isolada. Estava integrada numa aldeia, construída no bordo de uma falésia. Uma aldeia com crianças que brincavam, com adultos atarefados, e burros transportando fardos. Mal viram Milred, os mais novitos juntaram-se à sua volta, fazendo perguntas sem cessar, sem que ele percebesse o que diziam. A rapariga aproximou-se e mandou-os embora, no que foi prontamente obedecida.

Pediu-lhe que a seguisse, embora não pronunciasse palavra. A dada altura, a falésia desembocava num desfiladeiro, que se alargava à medida que caminhavam. No leito de um rio agora seco, havia lojas e casas, dispostas em cascata, tão animadas como a rua pedestre de uma cidade em época de saldos. Com a diferença das luzes, lá sempre acesas, e dos barulhos e odores, aqui em profusão. Milred não tinha medo, embora tudo lhe fosse estranho. Talvez porque a presença da rapariga o fizesse sentir em casa. Sentaram-se junto de uma fonte a comer um gelado.

A rapariga continuava sem falar. Milred chegou a pensar que poderia ser muda, porque pôs-se a desenhar para ele. Desenhou no chão uma casa grande e colocou lá dentro o pai, a mãe, a avó e o gato. Os dois rapazes que desenhou no exterior da casa, afastando-se sob as bombas, com uma espingarda na mão, deviam ser os irmãos. Apagou tudo com a mão e desenhou depois uma flor, apontando para si. Chamava-se Flor. Milred saboreou a doçura desta amizade inesperada. Já tinha esquecido a guerra e as surpresas dos jogos de vídeo.

5

Fazia muito calor quando Flor lhe pediu que a seguisse. Tinham acabado de comer. Já não havia sol em casa, embora ainda brilhasse lá fora. A vida parecia ter feito um intervalo. O gato dormia num canto fresco e a avó tinha cessado de cantarolar. A aldeia tinha um ar abandonado. Os cães já não uivavam e as crianças tinham-se escondido. Mas Flor não caminhou em direcção à aldeia. Caminhou em direcção ao deserto.

Apesar do calor abrasador, caminhava depressa, esgueirando-se por entre os arbustos de espinhos. Milred temeu perdê-la de vista várias vezes, mas a rapariga esperava sempre por ele. Caminharam durante muito tempo até chegarem a uma paisagem dominada por cactos enormes. Cactos de flores vermelhas e braços gigantes, tão altos que encobriam por completo a falésia que tinham deixado para trás.

Mesmo que quisesse, Milred não saberia voltar para trás. Não que tencionasse fazê-lo, pois depositava uma confiança absoluta em Flor. Enquanto caminhavam, esta mostrava-lhe pequenas coisas: uma serpente, que se afastava a assobiar; um pássaro de bico pontiagudo, que abandonava assustado o ninho que fizera dentro do cacto; um rato divertido, que saltava como um canguru; um escorpião agressivo, que recuava de cauda em riste. Por vezes, nem chegava a ver o que ela queria mostrar-lhe. Havia vida por todo o lado, mesmo que parecesse que só o ar quente se movia. Milred compreendeu, por fim, onde Flor queria levá-lo. Entre dois cactos gigantes, descortinou um promontório rochoso, que se erguia por entre a floresta.

Uma vez chegados ao sopé da rocha, Flor começou a escalá-la, ágil como um macaco. Milred estava exausto. Arranhando as mãos e os joelhos, lá conseguiu chegar ao topo, sem se queixar e sem pedir ajuda. O seu espírito de vencedor tinha levado a melhor. A rapariga já estava sentada, tranquila e imóvel sob o sol escaldante. Parecia uma figura egípcia, com os olhos em amêndoa, e os cabelos negros húmidos de suor. Era a primeira vez que Milred achava uma rapariga bonita. Até agora, sempre as vira sem as ver. Sentou-se junto dela, a sorrir para disfarçar o cansaço, e limpou o suor da fronte antes de levantar os olhos. Nunca tinha visto nada de tão belo. Excepto no cinema ou… não se lembrou logo onde.

O local plano onde estavam sentados era o tipo de sítio onde os Índios vão para avistar os sinais de fumo. O horizonte parecia uma paisagem saída de um western: havia extensões de cactos a perder de vista e montanhas que pareciam bancos para gigantes, mergulhadas num silêncio absoluto e angustiante, quebrado apenas pelo estalar das pedras, que pareciam vibrar sob o efeito do calor. Flor queria partilhar com ele a beleza do seu país, sem que precisasse de ouvir os seus elogios. O seu orgulho de pertencer àquele lugar não precisava de confirmação.

Enquanto contemplava e escutava, Milred tinha deixado de sentir o calor abrasador do sol na sua pele. O seu ombro tocava agora o de Flor, mas esta não se afastara. Pelo contrário, apoiava-se nele, tranquila. O rapaz ouvia o bater do coração dela, tão rápido e nervoso quanto tranquilizador. Sem o saber, estava decerto apaixonado, porque demorou a dar-se conta das nuvens ameaçadoras que toldavam o horizonte.

6

A luz tinha mudado. O sol estava agora toldado, como se a noite fosse cair cedo, demasiado cedo. Uma luz artificial e azulada banhava o local, feita de mil pontinhos tremeluzentes. Uma luz de ecrã de vídeo. Milred foi o primeiro a reagir. Levantou-se e gritou:

— Cuidado, Flor!

Nunca soube se a tranquilidade dela se devia à surpresa ou se ao conhecimento do que ia passar-se.

— Cuidado! Ele está a escolher as hipóteses e vai começar o jogo!

Algures encontrava-se um jogador anónimo, com os olhos cravados no ecrã, do lado do mundo que fora o de Milred. O palpite deste foi confirmado por uma saraivada de balas que fez ricochete no lugar onde se encontravam. Era o jogo Caça ao homem. Milred conhecia-o por o ter jogado, embora não gostasse dele. Escolhiam-se as armas e o cenário, mas o princípio era sempre o mesmo: num deserto, numa savana, ou numa floresta tropical, elegia-se como alvo alguns selvagens assustados, que só tinham as pernas para defender-se e fugir, e que deveriam a sua salvação apenas a um conhecimento perfeito do local.

Milred não gostava deste jogo, porque era demasiado cruel. Tinham de deixar o promontório o mais depressa possível. Estavam demasiado expostos. Pegou na mão de Flor e conduziu-a para a primeira falha na rocha que encontrou. Abrigar-se-iam aí antes de tentarem uma descida, que seria sempre perigosa.

Flor recuperou todos os seus reflexos. Na realidade, nem sequer os tinha perdido. O seu rosto, belo e impassível, era capaz de guardar segredos, de ocultar os seus sentimentos mais imediatos. Observava a falésia com cuidado, procurando uma descida segura.

— Por ali! — sussurrou a Milred.

Haviam de conseguir escapar. O rapaz recobrou ânimo. Flor conhecia bem o terreno e ele conhecia toda a panóplia de armas de que o jogador dispunha, as manhas que ele empregaria. Haviam de ganhar esta partida. Milred sabia, por experiência própria, que as cavidades da rocha que utilizariam para descer iam impedir o jogador de atingi-los.

Sabia, também, que o jogador poderia lançar redes para apanhá-los. Quando viu uma delas, desviou Flor do seu trajecto.

— Espera! — impediu-a, enquanto as malhas da rede prendiam um pedaço de rocha. — Vamos agora!

Chegaram finalmente ao sopé. A partir dali, o terreno era infelizmente mais aberto, mas também mais propício a uma fuga rápida.

Milred tentava imaginar o que se passava na cabeça do jogador. Conseguia imaginá-lo, sentado na cadeira com os braços estendidos, ou deitado sobre um tapete, como outrora ele fizera. Devia estar a fazer contas ao capital perdido, ao carregamento de armas desperdiçado, aos segundos que passavam sem nenhum ponto ganho. De certeza que compensava a frustração debicando nervosamente pipocas, que meteria na boca às mãos cheias.

— Vamos descansar um pouco — sugeriu a Flor.

Milred lembrou-se de que, caso não conseguisse atingir as pessoas, o jogador tentaria atingir animais. Ganhava menos pontos, mas sempre era melhor do que nada. E assim foi: mal uma corujinha saiu do abrigo, foi logo pulverizada. Vários animais encontraram assim a morte, juntando-se ao odioso palmarés do jogador.

— É agora! Ele deve ter-nos esquecido.

Correram em direcção aos cactos maiores e mais altos que, contudo, lhes ofereciam um abrigo pouco eficaz.

— Fica aí!

Deviam dispersar. Juntos, constituíam um alvo demasiado fácil. Milred dirigiu-se para um novo refúgio. Uma rajada destruiu subitamente o braço estendido de um cacto. O suco fresco caiu sobre a fronte de Milred, como se fosse sangue. Estavam de novo no ponto de mira do jogador.

— Corre, corre! — disse ele a Flor.

Uma rede descia sobre a planta atrás da qual ela se escondera. A rapariga conseguiu sair do abrigo sem ser apanhada pela rede, mas uma bala raspou-lhe a mão. Pela primeira vez, o seu rosto perdeu a placidez habitual e fez uma careta de dor. Mas logo consolou o amigo:

— Não foi nada. Só um arranhão.

“Cretino!” pensou Milred. “Tudo isto por uns míseros cem pontos a mais. Deve estar contente.”

A loja do velho chinês - Histórias de encantarEra Flor quem tinha de indicar o caminho para a aldeia. Só ela poderia encontrá-lo. Milred esboçou um plano. Tinha apanhado um lagarto com uns dentes enormes, embora fosse inofensivo. Hesitava em sacrificá-lo, mas não tinha outra alternativa. Lançou-o para trás de si e, enquanto o outro gastava previsivelmente as munições no pobre bicho, Flor tinha-se afastado alguns passos. Até que deu um passo a mais. O jogador fingira deixar de prestar atenção às suas presas preferidas, mas continuava atento. A rapariga foi atingida mortalmente nas costas. Pairou no ar por uns momentos, e caiu depois lentamente, transformando-se em pó vermelho do deserto ao tocar o chão.

— Flor! Flor! — gritou Milred.

Desatou a correr, na esperança vã de poder ainda abraçar a doçura do corpo dela. Os projécteis passeavam livremente em seu redor e Milred cessara agora de tomar precauções. Levantou os braços, como que a dirigir-se a quem estava por detrás do ecrã e pediu:

— Por favor pára! Isto já não é um jogo. Trata-se da Flor, trata-se de mim…

Foi atingido em pleno peito, o que daria ao jogador o máximo de pontos. Teve apenas o tempo suficiente para imaginar o entusiasmo do vencedor do outro lado do ecrã. Depois, tal como Flor, desfez-se em mil pedaços, antes de desaparecer no vácuo do deserto.

7

Quando, no dia seguinte, a mãe de Milred o encontrou deitado sobre o tapete de lã do quarto, sentiu muito medo. E com razão. O quarto estava virado de pernas para o ar.Os peluches estavam todos espalhados, os posters rasgados, e a televisão partida tinha caído da prateleira.

— Milred, meu filho! Milred! — chamou a mãe.

A loja do velho chinês - Histórias de encantarCom os olhos revoltos, como se não a visse, o rapaz murmurava uma série de palavras incompreensíveis que se referiam a uma rapariga chamada Flor, da qual a mãe nunca ouvira falar. Foi buscar ajuda.

Quando o médico chegou, já Milred estava um pouco mais calmo. O médico, que conhecia Milred há muitos anos, porque era o médico da família, reparou numa consola de jogos partida e em caixas dispersas por todo o lado. Lembrou-se de certos artigos que lera sobre os abusos dos jogos de vídeo, que até agora nunca tinha tomado muito a sério.

— Este rapaz está sempre muito nervoso. É preciso cuidado. Actividades calmas e repouso, é o que lhe receito. Não tem nada de grave.

— Nada de grave? — balbuciou Milred. — Isso é o que diz! Para mim não foi, mas para a Fl…

Nem sequer conseguiu pronunciar o nome dela.

Sensato e obediente, tomou todos os medicamentos que lhe deram. Não precisava de um médico. Precisava do velho chinês. Logo que pôde sair, foi direito à loja, onde encontraria a chave para o enigma. Quando chegou à rua certa, abrandou o passo. A loja não tinha sofrido alterações. As luzes estavam apagadas e os vidros sujos, como sempre. Na porta, em letras negras sobre um fundo amarelo, alguém escrevera:

VENDE-SE

“Claro, claro”, pensou. Não havia explicação.

Mas acaso seria preciso alguma?

Jacques Vénuleth

La boutique du vieux chinois

Paris, Hachette Jeunesse, 2003

(Tradução e adaptação)

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