A carteira perdida

A carteira perdida - Histórias de encantar

O Mário encontrou uma carteira no chão. Olhou para um lado e para o outro ninguém no passeio.

Mas podia ter caído de uma janela. O Mário olhou para cima. Um alto muro, sem nenhuma abertura, foi o que viu.

A carteira era de pele de boa qualidade. Nesse caso, pensou o Mário, não foi deitada fora, como coisa sem préstimo. A alguém devia pertencer. Alguém que a perdera e que, aflito, a procurava. Quem seria?

Abriu a carteira, à procura de algum documento que o pusesse na pista do dono. Encontrou notas, uma quantidade delas, e alguns cartões e papeis. Põe-se a lê-los, um por um, na esperança de assim chegar ao dono da carteira.

Havia um cartão de identidade, em nome de José Marques Silva, de 55 anos. Havia um cartão de sócio do Clube Nacional de Natação, um cartão novinho, em nome de Manuel Maria Pereira dos Santos, com o retrato do dito, o de um rapaz pouco mais ou menos pela idade do Mário.

Havia um passe de transportes, em nome do tal José Marques Silva de 55 anos.

Portanto, tudo fazia crer que a carteira pertencesse ao senhor José. O cartão do clube, com o retrato do Manuel Maria, estava ali só para baralhar as investigações.

Porque, de facto, para o Mário, aquilo era uma investigação. O caso estava a entusiasmá-lo. Podia, pura e simplesmente, entregar a carteira, na esquadra da polícia mais próxima, onde iria parar à secção dos objectos perdidos. Poder, podia, mas ser ele a chegar, sozinho, ao dono da carteira tinha mais graça. Mais classe. Mais pinta.

Entre papeis com apontamentos, numa letra ilegível, havia uma factura de uma camisaria, com a seguinte indicação: “Levantar calças no dia 12/3”.

Como a carteira tinha um pequeno calendário, Mário conferiu a data. Dia 12 de Março…

– É hoje – exclamou o Mário.

Inteirou-se da morada pela factura e foi à camisaria, que não era longe.

– Efectivamente este senhor esteve cá a levantar as calças, que não eram para ele. Vinha muito aborrecido, porque lhe tinham roubado a carteira – disse o caixeiro da loja.

– Roubar, não roubaram. Perdeu… – emendou o Mário.

– Sabe onde é que ele mora?

– Tanto não sei, porque não é cliente habitual cá da casa

– respondeu o empregado da camisaria. – Mas podemos ver na lista dos telefones.

Foram ver. Silva, José Marques havia cima de uma vintena.

– Telefonamos a todos e perguntamos se perderam uma carteira e se têm 55 anos – lembrou o empregado.

– É uma ideia, que fica de reserva – disse o Mário. – Cá para mim, há outra mais fácil. Vou ao Clube Nacional de Natação e pergunto pela morada deste Manuel Maria, que tem cara de ser da minha idade.

Na secretária do clube, o cartão de sócio chamou a folha de inscrição, onde figurava a morada do tal Manuel Maria. Da posse dessa informação essencial, o Mário correu para a rua do Manuel Maria. Bateu à porta e um rapaz veio atender.

– Tu és o Manuel Maria – disse o Mário, de dedo apontado.

O visado estranhou, mas rapidamente tudo se esclareceu.

– Padrinho, venha cá – chamou o Manuel Maria – está aqui um miúdo com a tua carteira.

O Mário só não gostou dessa do miúdo. Se eles eram da mesma idade…

Não eram bem. O Manuel Maria estava a festejar o aniversário, que o colocava um ano acima da idade do Mário. Uma das prendas que o padrinho para ele tinha reservado era o cartão de sócio do clube Nacional de Natação. A outra eram as calças.

Mas quem se sentiu muito prendado, com a inesperada restituição da carteira intacta, foi o senhor José Marques Silva.

Escusado será dizer que o Mário também entrou para a festa. E, na altura das saúdes, mereceu um brinde especial e muitas palmas e vivas aos seus dotes de detective.

O Mário e o Manuel Maria ficaram bons amigos. Ambos são, agora, sócios do Clube Nacional de Natação. Quem paga as quotas é o senhor José Marques Silva. O Mário até já o trata também por padrinho.

Resta dizer, para terminar, que esta história não é inventada. Aconteceu. Não se pode estar todos os dias a inventar histórias.

António Torrado

Ilustrações: Cristina Malaquias

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